Geórgia do Sul, santuário sub-antártico

Em uma expedição até o extremo sul do planeta, os desafios do mar, a fascinante e diversa fauna e os claros e alarmantes sinais da degradação da natureza pelo aquecimento global

Iceberg monumental na Geórgia do Sul, território subantártico no Atlântico Sul, em viagem de expedição entre pinguins-reis, elefantes-marinhos e albatrozes.

Chego à Ilha Geórgia do Sul após três dias de navegação turbulenta pelos mares bravios do Estreito de Drake, o temido portal de acesso à Antártica e às ilhas vizinhas. Aliás, a mais turbulenta que já vivenciei: ondas de 9 a 11 m chacoalhavam nosso navio, de 108 m de comprimento, como se fosse um barquinho de papel. Mas o Hondius, um belo quebra-gelo da Oceanwide Expeditions, tornou a experiência da navegação pelo mar mais temido do mundo bem mais agradável. Dotado de estabilizadores, supermoderno e muito confortável, ele ameniza o efeito das ondulações, enquanto os passageiros podem desfrutar de deliciosas refeições no restaurante, com janelas panorâmicas, apreciar a vista nos deques ou descansar no amplo e aconchegante lounge, também rodeado de janelas panorâmicas.

O navio conta ainda com espaço de leitura, biblioteca, auditório, cafeteria, bar e diversas outras instalações, que deixam as navegações nos extremos do planeta muito mais interessantes. Existem vários tipos de cabine disponíveis, desde as mais luxuosas até os modelos mais econômicos, e a empresa tem a política de open bridge: a ponte de comando permanece aberta à visita dos passageiros!

Os guias e líderes de expedição são geralmente biólogos especializados nas regiões polares, que oferecem workshops e palestras riquíssimos sobre a fauna e a flora locais e a ecologia polar. As explorações pela costa são feitas em botes preparados, em pequenos grupos, e é possível ainda andar de caiaque, fazer trekking e mesmo mergulhar sob os icebergs (liberado para os mergulhadores certificados). A atividade de cada dia fica à escolha do passageiro e, claro, sujeita às condições climáticas.

Bote zodiac navegando diante de montanhas nevadas na Geórgia do Sul, em cruzeiro de expedição pelo Atlântico Sul.
O bote da Oceanwide Expeditions leva passageiros para explorar a região
Pinguins-reis na Geórgia do Sul, ilha subantártica do Atlântico Sul conhecida por grandes colônias de aves e vida selvagem.
Pinguins-reais em Fortuna Bay

Gelo, céu e mar 

Pelo caminho até a Ilha Geórgia do Sul, fomos acompanhados por albatrozes e petréis de diversas espécies, além de muitas outras aves marinhas e baleias. Ainda pudemos nos aproximar de um gigantesco pedaço de gelo – um fragmento do A23a, um iceberg colossal, o maior do mundo, diga-se de passagem, com duas vezes a área do município de São Paulo, que se desprendeu da Antártica em 1986 e agora vaga pelos mares do Atlântico.

Ao nos aproximarmos da remota ilha, distante cerca de 2 mil quilômetros de Ushuaia, fomos recepcionados por pinguins-reais e lobos-marinhos, que saltavam elegantemente ao lado do navio.

A silhueta dela chama a atenção logo de cara: picos escarpados e cobertos de neve alcançam quase 3 mil metros, equiparando-se aos maiores do Brasil, e despontam em meio a glaciares e a um mar de águas límpidas e azuladas. Frequentemente, a ilha é envolta por uma densa neblina, que traz um ar de mistério, sem falar nas nevascas frequentes, que mudam completamente a paisagem da noite para o dia.

Icebergs no mar da Geórgia do Sul, em paisagem subantártica marcada por gelo, montanhas e vida selvagem.
Icebergs despontam em meio à densa neblina da Geórgia do Sul

Nossa primeira parada foi em Fortuna Bay, onde visitamos uma das maiores colônias de pinguins-reais do mundo.

A espécie, Aptenodytes patagonicus, distribuída por águas subantárticas, sofreu um forte declínio populacional no início do século XX devido à perseguição pela indústria baleeira para a extração de óleo e ao consumo de sua carne e ovos pelos colonizadores. Felizmente, com o encerramento das atividades baleeiras e a proteção das ilhas subantárticas, as populações de pinguins vêm se recuperando, chegando hoje a cerca de 450 mil pares reprodutivos na Geórgia do Sul.

Igualmente afetados pela indústria da caça foram os lobos-marinhos antárticos (Arctocephalus gazella), que chegaram à beira da extinção na virada do século XIX para o XX. 

Aos poucos, a população se recuperou até os saudáveis níveis atuais, estimados em cerca de 3,5 milhões de indivíduos na ilha – 95% da população global da espécie. Contudo, as mudanças climáticas, o emaranhamento em redes de pesca, a perda de hábitat e a competição por recursos alimentares com humanos, por meio da pesca industrial, ainda são ameaças para ambas as espécies e para toda a cadeia alimentar na Antártica.

Grupo de pinguins sobre rochas na Geórgia do Sul, em ambiente subantártico de grande biodiversidade.
Colônia de pinguins-macaroni em Cooper Bay
Antiga estrutura ligada à história marítima e baleeira de Grytviken, na Geórgia do Sul, território subantártico do Atlântico Sul.
Destroços de antigos navios baleeiros na mesma ilha
Mamífero marinho observado na Geórgia do Sul, em viagem de expedição voltada à fauna subantártica do Atlântico Sul.

Os vestígios da caça ainda podem ser vistos em Grytviken, uma estação baleeira abandonada, que hoje sedia um pequeno museu e uma base de pesquisa. As estruturas outrora utilizadas na extração e no processamento do óleo de baleia hoje servem como um refúgio para a fauna local e trazem um ar meio fantasmagórico a esse pequeno assentamento, de passado sangrento e obscuro. 

A aproximação dessas colônias gigantescas de lobos-marinhos e pinguins, em um lugar tão deslumbrante e selvagem, foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. As cores, os sons e os cheiros peculiares ficarão na minha memória para sempre.

Jornadas épicas 

Em Grytviken também pode ser visitado o túmulo do famoso explorador polar irlandês Ernest Shackleton, que em 1915 teve seu navio, o Endurance, aprisionado e esmagado pelo gelo no Mar de Wedell. A tripulação iniciou, então, uma longa jornada de 1,3 mil quilômetros e 22 meses, através do gelo e de mares tempestuosos, a bordo de pequenos botes salva-vidas, até alcançar a Ilha Elephant, mais ao norte, onde parte da equipe permaneceu, esperando o resgate, e parte seguiu viagem, rumo à Geórgia do Sul. Eles sobreviveram basicamente comendo carne de foca, pinguins e de seus próprios cães.

Ave marinha sobrevoando ondas no entorno da Geórgia do Sul, região subantártica importante para albatrozes e petréis.
Pesca artesanal

Shackleton conseguiu a ajuda de baleeiros nos arredores de Grytviken e retornou à Ilha Elephant para buscar os demais. Todos os 28 tripulantes sobreviveram a essa jornada épica, que é conhecida até hoje como uma das maiores façanhas da história da humanidade. Na ocasião da nossa visita ao túmulo de Shackleton, brindamos o exímio líder e explorador polar com uma taça de uísque, como manda a tradição naval. Foi em Grytviken também que o velejador brasileiro Amyr Klink iniciou sua longa jornada de circunavegação polar, em 1998, a bordo de seu icônico e inconfundível veleiro de casco vermelho, o Paratii.

Seguimos viagem para Cooper Bay, no extremo sul da ilha, devido a condições meteorológicas que nos impediram de chegar a outros pontos mais ao norte.

Ali, fomos surpreendidos pelos fantásticos pinguins-macaroni (Eudyptes chrysolophus), com seu corpo atarracado, caminhar desajeitado e longas sobrancelhas amarelas. Para mim, eles lembram pequenos senhorzinhos mal-humorados, tramando um plano para dominar o planeta.

Albatroz em voo sobre o Atlântico Sul durante viagem à Geórgia do Sul, território importante para aves marinhas subantárticas.
Elefante-marinho na Geórgia do Sul, em santuário subantártico conhecido pela presença de mamíferos marinhos e aves selvagens.
Um gigantesco elefante-marinho
Colônia de pinguins-reis na Geórgia do Sul, ilha subantártica no Atlântico Sul visitada por cruzeiros de expedição.

Vimos também os simpáticos pinguins-de-barbicha (Pygoscelis antarcticus), os pinguins-gentoo (Pygoscelis papua), o biguá-da-geórgia-do-sul (Leucocarbo georgianus), as temidas focas-leopardo (Hydrurga leptonyx) – ávidas predadoras das águas antárticas – e, claro, os gigantescos elefantes-marinhos-do-sul (Mirounga leonina). Em terra, os machos dessa espécie podem entrar em violentos embates por territórios e fêmeas. Tivemos a oportunidade de nos aproximar de um deles, e o tamanho impressionou a todos: eles chegam a quase 6 m de comprimento e 4 toneladas!

Alertas da natureza 

Em nosso último giro pela ilha, navegamos pela impressionante paisagem do Fiorde Drygalski, também no extremo sul, onde pudemos observar em primeira mão os efeitos nefastos das mudanças climáticas no nosso planeta: a morte gradual de uma geleira, que deixa marcas visíveis pelos paredões rochosos, à medida que se retrai para o fundo do vale. Um lembrete vivo da vulnerabilidade desse lugar tão especial e cheio de vida aos impactos humanos. 

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Deixamos a Geórgia do Sul guiados por uma luz dourada, que vez ou outra penetrava pelos fiordes e pela densa neblina que nos rodeava, trazendo uma atmosfera quase etérea para um lugar já tão mágico. Nos despedimos em grande estilo desse longínquo pedaço de terra, envolto por gelo, neve e mares bravios, pulsante de vida selvagem e, ao mesmo tempo, tão delicado e frágil. Mais seis dias de navegação nos esperavam até o destino seguinte: Gough Island, ou Ilha de Gonçalo Álvares, no meio do Oceano Atlântico.

Matéria publicada na edição 23 da Revista UNQUIET.

Mapa localizando a Geórgia do Sul no Atlântico Sul, entre a América do Sul e a Antártica.
Ilustração: Antônio Tavares

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