Safári na África: natureza sem fronteiras

Diante do furor das águas de Victoria Falls, a natureza ganha novas proporções, e as experiências de safári e de contato com a vida selvagem, novos significados, na Zâmbia

Victoria Falls vistas do alto

Da janela do avião, o Rio Zambeze corre largo e sinuoso, abrindo caminho pela savana africana como uma linha desenhada sobre a terra. De um lado, a Zâmbia. Do outro, o Zimbábue. Lá de cima, a divisão é clara. O rio avança, indiferente ao que os mapas chamam de fronteira. 

No horizonte, uma mancha branca se ergue. Primeiro discreta, quase uma nuvem. Depois densa, até se destacar contra o céu azul. À medida que nos aproximamos, sua origem fica evidente ‒ mas é preciso algum tempo para compreender o que os olhos veem. Não é o céu que desce. É a terra que respira, para cima. O rio, que até então parecia contínuo, se lança dentro de uma fenda, formando uma extensa cortina de água. O impacto contra a pedra devolve parte desse volume ao ar, criando a névoa constante que lhe deu o nome local: Mosi-oa-tunya, “a fumaça que troveja”. Já o nome ocidental se deve ao missionário escocês que a “descobriu” em 1855. Chamou-a de Victoria Falls

Ali embaixo, em margens opostas, dois países observam a mesma queda e, ainda assim, discutem de qual lado ela é mais bonita. Ao despencar e criar um dos espetáculos mais impressionantes do planeta, o rio que divide dois países divide também opiniões, em uma rixa histórica. 

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Elefantes africanos em área selvagem durante safári na África Austral, em região associada a corredores de conservação transfronteiriça.
Elefantes se refrescam no rio Zambeze, durante safári no Wilderness Toka Leya
Cena de estrada durante viagem pela África, em roteiro de safári entre rios, comunidades locais e áreas de conservação.
Moradores locais

O ritmo da natureza

Se lá de cima o rio corta, fragmenta, de perto a sensação é outra. O pequeno barco cruza as águas do Zambeze sob o sol dourado da savana. Curiosos e ao mesmo tempo indiferentes, hipopótamos emergem em grupos silenciosos para vigiar a nossa passagem. Seus dorsos servem de plataforma flutuante para abelharucos, que buscam descanso e refúgio contra predadores terrestres. Essas aves, por sua vez, alimentam-se dos frutos das wild berries e espalham suas sementes pela terra. As árvores que nascem nas bordas do leito firmam o solo das margens com suas raízes, sustentando o terreno sobre o qual um elefante avança com segurança. 

Pelas ruas de Livingstone, a sensação se repete com um contraste diferente. Mulheres caminham equilibrando trouxas sobre a cabeça. As cores vibrantes de suas saias, contrastam com o preto e o branco de zebras, que em qualquer dia comum pastam pelos canteiros centrais. A poucos metros, o trânsito para atravessar a Victoria Falls Bridge ganha vida com a insolência dos babuínos, que escalam automóveis e furtam o lanche de turistas desatentos. “Aqui, facilmente se vê um elefante atravessando a estrada”, diz Jeff, nosso motorista. Na capital turística da Zâmbia, os mundos selvagem e humano não se opõem. Eles coexistem, cada um à sua maneira.

Aves pousadas em galhos secos durante safári na África, em ambiente de savana e biodiversidade preservada.
Observação de pássaros no mesmo passeio

Queda e ascensão 

O som vem antes da imagem. Pela trilha tropical, o estrondo contínuo do Zambeze despencando é escutado não com o ouvido, mas com o peito, como se a Terra rugisse. Então vem a água. Uma cortina avassaladora de 1,7 km de extensão, que desaparece entre a névoa, fenda abaixo. A força que cai empurra a água para cima, espalhando pelo ar uma chuva desgovernada, que desenha um arco-íris sem começo e sem fim. 

Viver a fumaça que troveja de Victoria Falls é algo difícil de explicar. Ao caminhar por suas bordas, a água não apenas cai. Ela envolve, molha. Invade. Desorientado e rindo sem saber o porquê, somos atravessados por uma experiência sensorial tão arrebatadora que coloca em perspectiva a escala humana frente à grandiosidade da natureza. Um batismo de dimensões continentais, unindo o visitante ao coração do Zambeze. 

Retrato em preto e branco feito durante viagem pela África Austral, em roteiro sobre safári, território e conservação.
Vista sobre a ponte Livingstone, que liga a Zâmbia ao Zimbábue
Hipopótamos dentro da água durante safári na África Austral, em região de rios e áreas alagadas ligadas à vida selvagem.
Hipopótamo no Zambeze
Elefante visto de perto durante safári na África, em território de conservação da vida selvagem

Não muito mais acima, a 500 m de altura para ser mais preciso, a experiência é outra, porém igualmente emocionante. A bordo de um ultraleve pendular (uma mistura de moto com asa-delta), compreende-se não só a magnitude da ferida que o Zambeze rasga na Terra. Sobrevoar o rio transforma um esporte radical em um safári aéreo, em que a vida selvagem pode ser admirada em sua forma mais plena.

Girafas, rinocerontes, crocodilos e zebras compartilham o mesmo habitat, fazendo do Zambeze um santuário onde o reino animal e as forças da natureza convivem.

Margem de segurança

“Não desça do carro, não saia do quarto à noite, não coloque as mãos no rio.” Ao visitar o mundo selvagem, as instruções variam, mas são sempre os mesmos mantras de sobrevivência. Em fila indiana, silenciosamente, seguimos os passos de Hendricks, um jovem ranger que protege o Parque Nacional de Mosi-oa-tunya da caça predatória, em um safári a pé.

Rinoceronte observado em safári na África, em roteiro sobre conservação, vida selvagem e turismo responsável.
Trekking com rinocerontes no Parque nacional de Mosi-oa-Tunya próximo ao lodge

Ele levanta a mão. Paramos. O mato se move. Aguardamos imóveis, até que o que estava escondido se revela: um corpo maciço equipado com dois chifres. Toneladas de couro e músculos de uma força pré-histórica a curtos 20 m de distância. Seguido de outro. E mais outro. Seis rinocerontes atravessam os olhos e nós ali, tão longe de casa. A adrenalina inunda o sangue e a mente projeta todos os cenários de risco em milésimos de segundos. Eles ouvem bem, farejam melhor ainda. Entre nós e uma notícia desagradável para nossos familiares, há apenas Hendricks, o homem que conhecemos três minutos atrás. Essa é a margem de segurança. Into the wild, de verdade. 

Porém, se a mente quer recuo, o corpo quer a experiência. Entre temer e confiar, existe uma batalha silenciosa e estar ali não é só um ato de coragem. É uma decisão de entrega. É aí que tudo muda. Não porque o medo deixa de existir, mas porque a forma de estar diante dele se transforma. Sob a condução de quem pertence àquele território, abre-se o espaço de viver o mundo selvagem e o humano mais de perto. Um dos rinocerontes nos percebe e lentamente avança em nossa direção. Ao comando de Hendricks, nos retiramos com a calma de quem reconhece seu lugar, levando na pele a memória de ter caminhado entre seis gigantes da savana. 

Voo panorâmico sobre as Victoria Falls e o Rio Zambeze, na África, em viagem de safári e conservação.
Voo de ultraleve sobre Victoria Falls
Macaco observado durante viagem pela África, em roteiro de vida selvagem, safári e biodiversidade.

Linhas Imaginárias 

Filhotes de macacos vervet brincam como crianças. Mães elefantes protegem suas crias entre as pernas. Impalas machos disputam domínio. Contemplar a vida selvagem pode ser impactante à medida que identificamos no mundo animal os nossos próprios instintos. Mas há outro encontro revelador que também transforma: o humano. 

No Wilderness Toka Leya, ele acontece na forma como se é recebido. Não como quem hospeda, mas como quem acolhe. Está nas conversas ao redor do fogo, no ritmo dos tambores, na dança dos corpos e, se você se permitir (recomendo fortemente), nos abraços. Muitos abraços. 

É na hospitalidade sem esforço e nos sorrisos soltos que reconhecemos algo difícil de ignorar: um oceano não separa culturas irmãs. O Brasil é feito de África. Impossível esquecer a doçura de Kazy, a alegria contagiante de Tawanda e a serenidade de Goldie ao expressar, em shona, sua filosofia de vida: nyakanyaka, o “viver sem estresse”.

Pôr do sol na África durante viagem de safári entre rios, savanas e áreas de conservação.
Pôr-do-sol sobre o Zambeze

Levo comigo essa sensação no carro rumo ao Zimbábue, onde as cataratas também caem, em outra fronteira. Na travessia, uma última demonstração do reino animal. Esta, no entanto, exclusivamente humana: a burocracia da imigração. Fila, carimbos, raio-x. Primeiro de um lado, depois do outro. Enquanto isso, do lado de fora o Zambeze segue indiferente, sem jamais impedir que algo atravesse de uma margem a outra. Afinal, qual país detém o lado mais bonito das cataratas? Não importa. Não há lados. Há apenas linhas que aprendemos a ver. E no fim há apenas o rio. 

Saxon Hotel, Villas and Spa, Johanesburgo, África do Sul 
Não importa de onde se chega. Após cruzar continentes a bordo da South African Airways, há um refúgio no coração arborizado de Joanesburgo para quem busca o repouso sem abrir mão da elegância da jornada. Construída no início dos anos 1990 pelo empresário sul-africano Douw Stein, essa antiga residência privada ganhou notoriedade internacional ao hospedar Nelson Mandela durante a escrita de sua autobiografia, antes de ser convertida em um hotel butique ultraexclusivo. Seus 40 mil metros quadrados contam com um jardim impecável de árvores nativas, onde esculturas contemporâneas podem ser apreciadas do restaurante. De preferência, com um drinque em mãos. Relíquias e obras de arte africana preenchem os amplos saguões, enquanto 53 generosas suítes garantem aos hóspedes privacidade e descanso.    

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Matéria publicada na edição 23 da Revista UNQUIET.

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SUSTENTABILIDADE

Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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Ambiental

  • Programa de eficiência energética, incluindo iluminação LED e monitoramento do consumo de energia.
  • Medidas de conservação e gestão responsável da água, importante em uma região sujeita a períodos de escassez hídrica.
  • Redução do uso de plásticos descartáveis e incentivo à reciclagem de resíduos.
  • Jardins e áreas verdes mantidos com práticas de manejo sustentável.
  • Priorização de fornecedores e produtos com menor impacto ambiental.

Social

  • Contratação e desenvolvimento de talentos locais, com programas de treinamento e capacitação profissional.
  • Promoção da diversidade, inclusão e igualdade de oportunidades no ambiente de trabalho.
  • Apoio a iniciativas comunitárias e projetos beneficentes na região de Johannesburgo.
  • Valorização da cultura sul-africana por meio da gastronomia, arte e experiências oferecidas aos hóspedes.

Econômico-Cultural

  • Aquisição de produtos e ingredientes de fornecedores locais sempre que possível.
  • Incentivo ao desenvolvimento econômico regional por meio da cadeia de suprimentos.
  • Promoção da culinária e da hospitalidade sul-africanas como parte da experiência do hóspede.

Certificações e Reconhecimentos

  • Participação em programas internacionais de hotelaria sustentável e boas práticas ambientais.
  • Adoção de políticas alinhadas aos princípios ESG (Environmental, Social and Governance) da hotelaria de luxo.
Mapa da região Kavango-Zambezi, na África Austral, área de conservação transfronteiriça entre Angola, Botsuana, Namíbia, Zâmbia e Zimbábue.
Ilustração: Antônio Tavares

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