As Paradas do Orgulho LGBTQIAPN+ ao redor do globo são um desfile apoteótico de autenticidade, onde a MODA e o ESTILO se transformam em poderosas ferramentas de luta por direitos e respeito da comunidade queer.
Já que essa é uma publicação INQUIETA e VIAJANTE, vamos carimbar os nossos passaportes arco-íris em destinos onde a celebração do Orgulho LGBT+ não é apenas um evento no calendário, mas um ecossistema criativo e político, que transforma asfaltos em passarelas, para que a diversidade e a inclusão possam desfilar looks incríveis, cheios de significado.
Desde o estopim de Stonewall, em 1969 ‒ o marco inicial da luta LGBT+ moderna em Nova York ‒, as Paradas do Orgulho mapeiam a busca por direitos e celebram a nossa produção cultural como uma engrenagem criativa que move o mundo todo, incluindo a indústria da moda.
Historicamente pessoas LGBT+ foram fundamentais no desenvolvimento da moda como EXPRESSÃO e OFÍCIO, sendo palco para o talento e fonte de sustento para grande parte da comunidade. Os desfiles do Orgulho são um momento em que essa moda volta para as ruas como um manifesto de existência e resistência.


Gritos da moda
É fascinante viajar por essas celebrações e observar como a moda se funde visceralmente com as urgências e estéticas de cada país. Em Amsterdã, a parada ganha as águas em barcos flutuantes, que transformam os canais em instalações visuais, onde o estilo se adapta ao meio: emerge ali uma moda queer náutica e utilitária, onde o design das embarcações se mistura ao visual dos participantes, unindo funcionalidade e impacto visual em meio à arquitetura histórica holandesa.
Cruzando o oceano até a Austrália, chegamos ao Mardi Gras de Sydney, um dos maiores Carnavais noturnos do planeta.
No auge de Priscilla, a Rainha do Deserto, o visual camp das drag queens do filme dos anos 1990 dominou a parada, consolidando uma estética de figurinos performáticos feitos com fibras ópticas e materiais tecnológicos que brilham sob o luar, definindo a excelência da engenharia têxtil e da exuberância visual do evento até hoje.
Nossa viagem estética volta no tempo até a primeira parada de Londres, em 1972, onde um beijaço coletivo no Hyde Park entre dândis LGBT desconstruiu totalmente a imagem das alfaiatarias clássicas britânicas de Savile Row, já que muitos manifestantes vestiam blazers estruturados, coletes e lenços enquanto se beijavam publicamente como uma forma de dizer: “Nós somos os seus filhos, seus advogados, seus vizinhos. Nós pertencemos a esse espaço de poder que vocês tentam nos negar”.

Em Berlim, a alma industrial da cidade se manifesta no látex, no vinil e no fetiche da cena techno, transformando o asfalto em uma extensão dos clubes de luxo underground, com um forte viés político.
Já no Japão, a Rainbow Pride de Tóquio reflete o respeito e a ordem, tão intrínsecos à sociedade japonesa. Um dos momentos mais emocionantes foi em 2023, quando surgiram grupos de pais e mães carregando cartazes de aceitação, provando que o orgulho também é um ato de acolhimento familiar.A Parada de Bangkok é o epicentro global da Soberania Trans, que é parte essencial da cultura tailandesa. O evento transforma as avenidas em um DESFILE DESLUMBRE, marcado por drapeados dramáticos e sedas multicoloridas, que elevam o glamour das mulheres trans ao status de realeza nacional. Aqui as sedas tradicionais funcionam como uma ferramenta de legitimação política, provando que o orgulho e a ancestralidade caminham juntos em cada look babadeiro.
Em San Francisco, um dos berços pioneiros da luta LGBT+, as DYKES on BIKES abrem os caminhos da parada, vestindo couros pesados e metais que imprimem poder, ressignificando o guarda-roupa lésbico globalmente.


É importante lembrar que as Paradas do Orgulho são espaços de convergência e interseccionalidade de várias lutas sociais. A parada de Johanesburgo, por exemplo, carrega o peso histórico do Apartheid. Em seus primórdios, manifestantes usavam máscaras contra o medo para proteger sua identidade, enquanto marchavam por liberdade, mostrando que a moda, por vezes, é o próprio escudo.
Já em Toronto, Canadá, uma das maiores e mais organizadas do mundo, o protesto do Black Lives Matter, em 2016, paralisou o desfile para exigir visibilidade e justiça, forçando a comunidade a repensar seus próprios privilégios e a segurança de seus corpos pretos e trans.
Para fechar a nossa volta ao mundo em grande estilo, retornamos ao Brasil para encontrar em São Paulo a maior parada do planeta, marcada por festividade e pluralidade absolutas! A Avenida Paulista vira uma passarela para que os mais diversos estilos, raças e gêneros se misturem de forma única, com aquele “borogodó à brasileira” que só a gente tem!
É um desfile democrático, que mistura tecnologias artesanais com um streetwear queer de impacto ‒ provando que a moda brasileira e paulistana é um vetor de sobrevivência e também um dos maiores laboratórios de tendências populares do mundo.

Não há símbolo maior dessa pluriculturalidade do que a bandeira criada por Gilbert Baker em 1978. Mais do que um símbolo, o arco-íris é o prisma das nossas linguagens. Suas cores anunciam que jamais nos definiremos por uma única imagem. Somos pessoas tão diversas e distintas quanto a nossa extensa sigla!
Luta e memória
No entanto, em um mundo cada vez mais globalizado, onde a gentrificação e a pasteurização cultural ameaçam tornar tudo cada vez mais homogêneo, é vital que as paradas enalteçam os traços culturais de cada localidade.
A parada, para além de ser sobre as nossas orientações sexuais e identidades de gênero, também é sobre a valorização das nossas diferenças culturais.
É sempre preciso voltar ao ponto de partida ‒ lá, no bar Stonewall Inn, de Nova York, em 1969, quando explodiu a revolta da comunidade queer contra as batidas policiais violentas e constantes que ela sofria, para honrar nomes como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera (ícones dessa luta histórica por direitos que ainda está em curso) ao lado de muitas outras pessoas militantes que não devem jamais ser esquecidas.

Foram elas que provaram que nunca foi apenas sobre MODA, ENFEITES e ADORNOS, mas sim sobre usar a própria pele como um território político.
Escrever esta jornada para a UNQUIET é mais uma narrativa registrada por nossas próprias mãos, para que a comunidade LGBTQIAPN+ não seja mais marginalizada ou reduzida a um padrão estético de consumo.
Por trás de cada babado, de cada costura e de cada destino, existem a memória de quem veio antes e a resistência de quem mantém nossa comunidade cada vez mais VIVA e POTENTE.
Que as mudanças que costuramos hoje sejam perenes, porque o som cadenciado da batida dos leques que ecoa em cada avenida, de Tóquio a São Paulo, grita um antigo hino cunhado muito tempo atrás nas paradas brasileiras, e que jamais será esquecido: O FERVO TAMBÉM É LUTA!
Matéria publicada na edição 23 da Revista UNQUIET.

















































































































































































