Pierre Verger, espiritualidade e meio ambiente

As “religiões da natureza” compreendem o território como sendo sagrado e fazem de sua preservação um pilar da transmissão dos saberes ancestrais

Apaixonado por viagens que lhe permitiam imergir respeitosamente em novas realidades, o inquieto fotógrafo francês Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), também etnólogo e babalaô (sacerdote do oráculo de Ifá), tornou-se um mensageiro entre dois mundos: Bahia e África. Mesmo radicado em Salvador, ele nunca perdeu seu espírito nômade. Ao descobrir o candomblé, religião de matriz africana nascida da cosmovisão de povos como os iorubás, bantos e fons, dedicou boa parte da vida a pesquisas sobre o culto aos orixás, sobretudo na capital baiana, além de evidenciar a origem desses rituais em países como Nigéria e Benim (o antigo Daomé). 

Ao longo de 30 anos, Pierre Verger fez diversas travessias continentais, sempre buscando as semelhanças que ligam esses dois territórios, cujas conexões se intensificaram a partir do século XVI, no contexto do tráfico transatlântico de escravizados, quando africanos foram trazidos à força e aqui mantiveram e reinventaram suas tradições.

Em Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo*, Pierre descreve que “o orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam o controle sobre certas forças da natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou a possibilidade de exercer atividades específicas, como a caça, o trabalho com metais ou ainda adquirir o conhecimento das propriedades das plantas e sua utilização”. Como exemplo dessas manifestações, Iemanjá é guardiã das águas, Oxum, das águas doces, Xangô, dos raios e do trovão, Oxóssi, das matas e florestas, e Iansã, dos ventos e das tempestades.

Mutirão de limpeza promovido pelo Instituto Terreiro Sustentável

Para os praticantes de religiões de matriz africana e afroindígena no Brasil ‒ como o candomblé, a umbanda, a jurema e a pajelança ‒, cultuar divindades que representam a natureza significa, antes de tudo, compreender que a preservação ambiental e a espiritualidade são indissociáveis.

O biólogo e babalorixá Rodrigo Carneiro, do Terreiro de Obatalá ‒ Ilé Omi Orun e da Ordem Umbandista Cacique Pena Branca, em Sepetiba, Rio de Janeiro, contou à UNQUIET que “todo o nosso culto está ligado à natureza, é a base, e vivenciamos rituais nesse ambiente, numa simbiose inseparável”. Segundo a liderança, a manutenção da espiritualidade só ocorre se houver o contato com o espaço natural sagrado, de preferência sem lixo, desmatamento e atividades que prejudiquem os ecossistemas.

Peças feitas com materiais naturais são opções sustentáveis para as oferendas

Especialista em botânica e educação ambiental, ele diz, brincando, que quem deu seu diploma foi o candomblé, visto que muitos aprendizados relacionados à temática vieram dos saberes transmitidos oralmente por seus familiares ‒ descendentes de um bisavô pajé ‒, como o uso de folhas e plantas sagradas, colhidas nas matas, para fins medicinais. “Eu me tornei biólogo por causa do terreiro. Desde criança, já trabalhava com as plantas e fui buscar conhecimento científico pelas minhas responsabilidades ali dentro”, afirma o babalorixá.

À frente do Instituto Terreiro Sustentável (ITS), uma iniciativa oficializada em 2022, Rodrigo coordena o projeto Matriz Ambiente Limpo, que, há mais de 25 edições, promove mutirões de limpeza e ações de conscientização ambiental em espaços naturais. Em uma das atividades, o time retirou da natureza mais de 100 alguidares (os recipientes de barro usados em oferendas), além de 60 toneladas de resíduos religiosos. “Todas as vezes que vou à mata, levo saco e vassoura, porque a maior oferenda que posso fazer a Oxóssi é limpar a casa dele, retirando tanto o lixo das próprias práticas religiosas quanto o deixado por pessoas de fora da comunidade. Enfim, tudo que destrói aquele ponto de força”, explica Rodrigo.

Esse zelo também se aplica à entrega do presente na Festa de Iemanjá, realizada todos os anos em Sepetiba. O ITS incentiva que todos os participantes levem balaios sustentáveis ao mar ao promover oficinas gratuitas para ensinar como montá-los. O babalorixá pontua que o cuidado ecológico está presente nos mínimos detalhes: o cesto é feito de folha de coqueiro, a boneca que simboliza Iemanjá, de folha de milho e palha da costa, o glitter colorido, com gelatina em pó, e as biojoias destinadas à divindade levam sementes de açaí. As flores sem tinta, as ervas de cheiro e as frutas, que fazem parte da oferenda, igualmente podem ser lançadas ao mar, em contraste com materiais como tecido, vidro e plástico, que demoram muitos anos para se decompor.   

*Solisluna editora 

Fundação Pierre Fatumbi Verger pierreverger.org;
@fundacaopierreverger

Instituto Terreiro Sustentável terreirosustentavel.com; @its.sustentavel

Matéria publicada na edição 23 da Revista UNQUIET.

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