Sodade. É ainda no calor apaixonado ‒ e já saudoso ‒ de quem recém-chegou de uma dessas viagens de arrebatar o coração que escrevo sobre Cabo Verde, enquanto ouço a música mais famosa de Cesária Évora. A cantora, que colocou esse pequeno país africano no mapa da arte mundial, embalou boa parte da minha jornada por esse remoto arquipélago de dez ilhas no Oceano Atlântico. Com foco em percorrer algumas das mais lindas trilhas para caminhada da África, planejei inicialmente uma viagem de dez dias para conhecer quatro ilhas.
Mas a exuberância da natureza, a simpatia das pessoas e a cultura musical me encantaram de tal forma que acabei estendendo minha estada para seis ilhas em 20 dias.
Foram justamente os encontros com os calorosos anfitriões dessa África insular, quase sempre embalados por boa música, que me fizeram voltar apaixonado e já com saudades ‒ ou com “sodade”, como se diz na língua crioula local, que Cesária difundiu mundo afora.


A São Vicente de Cesária
Nascida em 1941 em Mindelo, capital da Ilha de São Vicente, onde viria a falecer aos 70 anos, em 2011, Cesária Évora me recebe viva por toda parte de Cabo Verde. A começar pelo pouso no aeroporto internacional que leva seu nome ‒ depois de um voo de quatro horas a partir de Lisboa, Portugal. A estátua da chamada “diva dos pés descalços” (ela subia assim aos palcos) parece dar as boas-vindas a quem desembarca.
A paisagem exterior logo impacta, com montanhas à beira-mar que fazem lembrar o Rio de Janeiro e ladeiam baías, praias, marinas e o porto, o maior do país.
Vibrante com seus mercados, galerias de arte e o autointitulado como o segundo melhor Carnaval do mundo (atrás apenas da festa brasileira), Mindelo é o maior polo cultural do país. O culto à mais notória cabo-verdiana está em murais de rua, em dois simplórios museus nas casas onde morou, no cemitério e nos bares e restaurantes ‒ alguns receberam shows da cantora. Inúmeros artistas seguem seus passos e tocam ao vivo todas as noites.“Cesária está presente até nas notas de 2 mil escudos cabo-verdianos”, lembra Isabel Spencer, proprietária do charmoso Kira’s Boutique Hotel. Seus 11 quartos levam o nome do país e de suas dez ilhas: no norte, na chamada área do Barlavento, estão São Vicente, a inabitada Santa Luzia, as vizinhas Santo Antão e São Nicolau, montanhosas e consideradas como o paraíso do trekking.

À direita ficam Sal e Boavista, as mais famosas, com resorts à beira-mar e bom vento para o kitesurfe, que recebem 80% dos turistas do país. E no sul, na região conhecida como Sotavento, ficam as ilhas de Brava, Maio, Fogo e Santiago.
Em Santiago com a guia cantora
É em Santiago, a ilha que abriga a capital nacional, Praia, e metade dos 600 mil habitantes do país, que entendo melhor a história de Cabo Verde. “O arquipélago era desabitado até que os portugueses chegaram e instalaram aqui o primeiro grande entreposto do tráfico de pessoas escravizadas da África rumo às Américas”, conta a guia Nilza Aline Barros, da Novatour, enquanto passeamos pela Cidade Velha, fundada em 1462.
As casas históricas que recontam esse passado duro, entre a praia com barcos de pesca, um pelourinho e o morro que abriga o Forte Real de São Filipe, viraram Patrimônio Mundial da Unesco por preservar parte da primeira cidade colonial europeia construída nos trópicos e da primeira sociedade crioula de todo o Atlântico.



Em Santiago com a guia cantora
É em Santiago, a ilha que abriga a capital nacional, Praia, e metade dos 600 mil habitantes do país, que entendo melhor a história de Cabo Verde. “O arquipélago era desabitado até que os portugueses chegaram e instalaram aqui o primeiro grande entreposto do tráfico de pessoas escravizadas da África rumo às Américas”, conta a guia Nilza Aline Barros, da Novatour, enquanto passeamos pela Cidade Velha, fundada em 1462. As casas históricas que recontam esse passado duro, entre a praia com barcos de pesca, um pelourinho e o morro que abriga o Forte Real de São Filipe, viraram um Patrimônio Mundial da Unesco por preservar parte da primeira cidade colonial europeia construída nos trópicos e da primeira sociedade crioula de todo o Atlântico.
“A mistura cultural entre europeus e africanos que se deu aqui viria a se repetir no Brasil, o que justifica várias de nossas afinidades culturais”, acredita Nilza. Fã de novelas, da nossa música e do nosso futebol, Nilza se arrisca a cantar (e bem!) enquanto guia os viajantes. De fato, dizer que sou brasileiro abre portas e corações no país.

Eu me sinto absolutamente em casa ao visitar a escola de futebol Bola pra Frente, o berço de vários talentos cabo-verdianos da seleção, que pela primeira vez classificou o país para disputar a Copa do Mundo, este ano.
Percebemos semelhanças entre a nossa feijoada e a cachupa, o delicioso prato nacional, também feito com feijão e carne de porco, entre outros ingredientes, que provamos na Kaza Antú, da chef Antunina Morenu.
No jantar, durante a apresentação das Batucadeiras no restaurante Quintal da Música, fomos contagiados pela vibração dessa espécie de samba de roda feminino, que usa a percussão do corpo e de pequenas almofadas. Em outras noites, os destaques também são ritmos que só existem em Cabo Verde, como morna, coladeira e funaná.



Escalando o vulcão da Ilha do Fogo
O passado ainda mais remoto dessas vulcânicas ilhas atlânticas, de 200 milhões de anos, fica evidente quando visito a Ilha do Fogo.
A atividade ao ar livre mais desafiadora de Cabo Verde acontece aqui: a escalada do Pico do Fogo, o ponto mais alto do país, com 2.829 m. Trata-se de um vulcão dentro de um vulcão.
As impressionantes formações rochosas de lava petrificada de erupções recentes impressionam logo que se adentra, de carro, a caldeira do vulcão principal. Em Chã das Caldeiras, a vila que resiste dentro da caldeira, visito uma casa que preserva a lava invasora da erupção de 2015 e me hospedo em um autêntico “funco” da Casa Marisa 2.0, um chalé feito com paredes de lava. É de lá que parto para a subida ao cume. A descida, saltitando nas cinzas, é divertida e recompensadora. Viajantes menos radicais podem caminhar por 4 km até o vulcão ativo Pico Pequeno e visitar a Chã, uma das vinícolas locais. As celebrações pós-aventuras ficam melhores com música ao vivo na Casa Ramiro, em Chã, ou no Tropical Club, em São Filipe, a capital da ilha, onde fica o aeroporto.


Santo Antão, um éden para caminhantes
Favorita dos amantes da natureza que visitam Cabo Verde, a montanhosa Ilha de Santo Antão também tem na caminhada pela cratera de um vulcão um dos seus pontos altos. Chega-se a Porto Novo, a capital, depois de uma travessia de uma hora em ferry boat a partir de Mindelo, em São Vicente. Dali, um transfer de carro conduz à boca do Cova, de onde se nota que o fosso desse vulcão inativo se transformou em um cênico mosaico de plantações de milho e feijão. A descida ao seu interior, que pode durar de duas a cinco horas pelo lindo Vale do Paúl, é das mais clássicas da ilha ‒ e pode terminar com a visita a um alambique de grogue, a cachaça cabo-verdiana.
Mais puxada, mas imperdível, é a trilha de 15 km entre Cruzinha e Ponta do Sol, sempre à beira-mar. Quem a percorre no sentido oposto pode ganhar a recompensa de pernoitar no Mamiwata Eco Village, um hotel butique que tem bangalôs quase pendurados no abismo, com uma vista estupenda e o som de ondas do mar 24 horas.
À noite, a música ao vivo, de distintos artistas locais, no restaurante, alterna canções já clássicas de Cesária Évora e sucessos internacionais contemporâneos de Dino D’Santiago e Mayra Andrade, que têm raízes familiares em Cabo Verde.
A São Nicolau da canção
Bem menos visitada em função da dificuldade de acesso, que desde Mindelo costuma requerer um voo rápido, porém com escala na Ilha do Sal, a Ilha de São Nicolau também é considerada um éden para os caminhantes, assim como a vizinha Santo Antão. Ela possui trilhas costeiras, falésias calcárias, como a de Carbeirinho, e até o porto onde Pedro Álvares Cabral parou sua caravela antes de descobrir o Brasil, conectando mais uma vez a história de Cabo Verde com a nossa.
A alma musical do arquipélago se faz presente novamente quando termino outra cênica caminhada, do Vale do Fajã à vila de Pedra Branca, onde visito a Casa da Morna. “Esse pequeno museu homenageia o nativo Armando Zeferino Soares, autor da música Sodade, que menciona São Nicolau e ficou famosa graças a Cesária Évora”, explica a guia Maya Duarte, também cantora.Ainda me emociona escrever sobre a minha despedida. De volta a Mindelo, na fila do check-in para pegar o voo de regresso para casa, a guia Maya Duarte chega de surpresa. Ao lado de três músicos, ela começa a cantar, em pleno saguão do aeroporto. Adivinha a música? Sodade.


Dicas:
Com uma diversidade fascinante de paisagens e uma conectividade complexa de aviões e barcos entre suas 10 ilhas, Cabo Verde requer um planejamento cuidadoso. O site do Visit Cabo Verde é uma fonte essencial, mas a ajuda de especialistas foi estratégica para encontrar hotéis, agências de receptivo e guias experientes durante nossos 20 dias explorando 6 ilhas. Como buscávamos uma viagem ativa de natureza e cultura, deixamos fora as duas ilhas famosas para relaxar em resorts à beira-mar: Sal e Boa Vista.
Ilha de Santiago
A Novatour organizou nossos dias na capital Praia e nos apresentou a cultura musical do país no restaurante Quintal da Música e a paixão pelo futebol na escolinha Bola Pra Frente. A divertida guia-cantora Nilza Aline Barros também nos apresentou a Cidade Velha, onde nos deliciamos com a imperdível cachupa na Kaza Antu.
Ilha do Fogo
Graças à Qualitur, nos hospedamos no Hotel Bamboo Xaguate na capital São Filipe e descobrimos as noites musicais do restaurante Tropical Club. Em Chã das Caldeiras, degustamos vinhos na Adega Chã e nos hospedamos na Casa Marisa 2.0. Dali escalamos o vulcão com o guia Alcindo Montrond e, na volta, celebramos a conquista com música na Casa Ramiro.
Ilha da São Vicente
O Kira’s Boutique Hotel foi nossa base confortável na capital Mindelo, maior polo cultural do país. Ali fizemos a Rota de Cesária Évora com a Green Line Tours. Conhecemos o belo Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD) e curtimos a música ao vivo caboverdiana em restaurantes como o Le Metalo.
Santo Antão
Na ilha com mais vocação para caminhadas, nos hospedamos nos espetaculares bangalôs do hotel boutique Mamiwata Eco-Village, vizinho da trilha Cruzinha-Ponta do Sol. O experiente Guia Ailton Silva nos guiou por caminhos fascinantes como o de Alto Mira a Chã de Morte.
São Nicolau
Com o planejamento da Nobai, mais estruturada agência de trekkings de Cabo Verde, fizemos duas trilhas fantásticas nesta ilha onde o turismo ainda não chegou. Fica ali a Casa da Morna Sodade, pequeno museu em homenagem à musica mais famosa de Cesária Évora.
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