O futuro dos festivais está aqui

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Frequentadora assídua de festivais desde o fim dos anos 1990, as vezes sou questionada sobre meus festivais de música preferidos no mundo. Essa é uma pergunta ingrata. Não há resposta, porque um bom festival se faz por uma junção de fatores, sendo alguns externos. Há coisa melhor do que estar num festival qualquer, mas com um ótimo grupo de amigos? Para mim, não. Festival é celebrar. Eu vou para ver os shows, para viver as experiências oferecidas e para festejar com os amigos.

E quem está sempre rodando entre um evento e outro, percebe o futuro do segmento. As tendências apontadas por centros especializados no assunto, são reflexos da sociedade. Ou seja, sustentabilidade, diversidade, inclusão e paridade de gênero são hoje pilares de festivais que acompanham o Zeitgeist. Quem ignora qualquer um desses pontos já está ficando para trás. Não é mais sobre tendência, é sobre o agora.

Way Out Fest | Foto: Hilda Arneback
Heartland Festival | Foto: Chris O. Tonnesen

Eu ainda não tive a oportunidade de voltar para a pista de um festival de música. Fui em alguns bem pequenos em Berlim, mas que não proporcionaram uma das melhores sensações que os eventos oferecem, a efervescência coletiva. Mas quase senti essa catarse acompanhando a retomada dos grandes festivais, como Lollapalooza e Coachella, pelo feed do Instagram. Muitas previsões feitas durante a pandemia sobre o futuro dos festivais ruíram para a nossa alegria. Nada de distanciamento social com círculos desenhados no gramado ou a obrigatoriedade do uso de máscaras. Pelo contrário, todo mundo se abraçando, se acotovelando e se aglomerando como antes. Com a vasta oferta de festivais pelo mundo, opto pelos que acompanham o espírito do tempo. Escolho a dedo os que vou e evito ao máximo dar dinheiro para os que não trazem diversidade e/ou paridade de gênero no line-up e não tem uma política clara de sustentabilidade.

Jorge Benjor no NOS Primavera Sound, em 2019 | Foto: divulgação

Se o mundo mudou menos do que esperávamos no retorno pós-pandemia, devemos fazer a nossa parte para colocar em prática tudo o que a Covid-19 ensinou. O mundo, como ele era (ou é), não pode mais esperar. Então precisamos ser mais conscientes em nossas escolhas. Não tem mulher no headliner do festival? Não tem diversidade? Não vou. 

A minha lista de festivais para 2022 está mais seletiva. Vou voltar ao Primavera Sound Barcelona em junho para rever amigos e celebrar a promessa cumprida do festival em manter equidade de gênero e diversidade no line-up. O Primavera Sound também tem iniciativas verdes para reduzir seus danos ao planeta. Confesso, porém, que alguns dos meus festivais favoritos estão na Escandinávia. Por lá, esses pontos são contemplados há anos. O Way Out West (11 a 13 de agosto), em Gotemburgo, é um festival de tamanho médio, 100% vegetariano e o line-up é sempre bem diversificado. A questão ambiental é pensada em todas as frentes, com plástico banido. Para quem gosta de festival adulto, o evento conta com bar de champagne, cerveja artesanal e restaurante pop-up com menu servido em tempos. A cereja do bolo é que o festival acontece num parque no meio da cidade. 

The Radish Arm Charm de Henrik Vibskov Foto: Maja K. Bramm
Festivais de música - Flow
Sustentabilidade no Flow | Foto: Samuli Pentti
Festivais de música - way out fest
Way Out Fest

Na minha lista de desejo está o Heartland (2 a 4 de junho), que tem uma programação ainda mais adulta. Acontece nos jardins de um castelo renascentista na Dinamarca, é para um público de apenas 6 mil pessoas, promove talks exclusivos com nomes como Angela Davis, Margaret Atwood e PJ Harvey. Para quem não dispensa a boa gastronomia, esse é o festival. Eles convidam diversos chefs renomados para preparar grandes banquetes a céu aberto. Somado a todos esses pontos, o line-up é bem diversificado e é puro deleite, com Cat Power, The Pet Shop Boys, Jada e The Raveonettes (quem lembra dessa dupla?) tocando na próxima edição.

O Flow (11 a 14 de agosto), em Helsinque, acontece desde 2004 e é um ótimo exemplo de festival do futuro. Com uma cenografia pós-apocalíptica, o Flow acontece numa antiga zona industria da cidade, tem um palco destinado ao jazz sempre com um line-up primoroso, uma sala de cinema e uma culinária deliciosa e diversa com muitas opções veganas. Ele foi o primeiro festival do mundo a se tornar carbono neutro. A lista de festivais que seguem esses princípios é extensa. Festivais de música são cidades temporárias que simulam a sociedade que queremos para nós, por isso eu deixo o convite para nos atentarmos mais a essas iniciativas, pois são elas que refletem o futuro que queremos. 

Festivais de música - primavera sound
Interpol no NOS Primavera Sound 2019 | Foto: Hugo Lima

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