Rota dos Alambiques Mineiros

No norte de Minas Gerais, Salinas e Januária são o berço de rótulos premiados e dão um exemplo com alambiques sustentáveis – além de estar bem pertinho de um dos mais belos parques nacionais do Brasil

Sala com garrafas e rótulos de cachaça de alambique em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em roteiro cultural sobre tradição, patrimônio e história mineira.

Quase sempre as viagens começam com um objetivo e um destino claros. Mas viajar raramente é uma ciência exata. Basta uma distração aqui, uma bifurcação ali, uma curiosidade acolá e, pronto, o destino vira caminho e os caminhos, ah, esses sim viram a verdadeira viagem. 

Viajamos rumo ao norte de Minas Gerais para conhecer os famosos alambiques que produzem cachaça em pequena escala e de forma artesanal nas regiões de Salinas, a mais importante na produção da bebida no Brasil, e Januária, também reconhecida. 

No meio desse percurso, no entanto, qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que as maravilhas do cerrado, perto do Rio São Francisco, guardam um dos mais belos parques nacionais brasileiros, o Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu. Um lindo desvio em nossa viagem, que você confere a seguir.

O terroir da cachaça 

Nossa incursão propriamente dita começou em Montes Claros, a bordo de um Mitsubishi Eclipse 4X4, rumo a Salinas e seus arredores, onde a ideia central era visitar os alambiques e conhecer a produção de diversos rótulos, embora menos de dez alambiques façam o processo todo, do plantio ao engarrafamento, dentro da própria fazenda. Salinas é reconhecida por sua produção de excelência e ainda sedia o Festival Internacional da Cachaça, que acontece todo mês de julho.

Paisagem rural em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em artigo sobre a Rota dos Alambiques Mineiros e a cultura da cachaça de alambique.
Salinas

Nossa primeira parada foi na Fazenda Havana, que produz a Havana e a Anísio Santiago, as mais conhecidas do Brasil pelo seu sabor especial, e também pelo alto custo de suas garrafas.

Garrafas de cachaça de alambique em prateleira durante roteiro cultural por Minas Gerais, com foco em tradição, memória e produção artesanal.
Garrafas de diversos rótulos em prateleira da Apacs

Quem nos recebeu na fazenda foi o filho de Anísio, Geraldo Santiago, que mostrou todo o processo da pequena produção, que continua igual desde 1943, época em que seu pai começou a alambicar a Havana. Anísio era um homem metódico e sua metodologia o transformou em uma lenda das cachaças. Orgulhoso, Geraldo nos contou inúmeras histórias do pai, em torno de uma mesa redonda, recheada de pães de queijo e bolos com café, tudo produzido na fazenda. Um desses momentos que não se esquecem nunca. 

O controle e a tradição são o sucesso da qualidade da cachaça Havana: o  hectare de cana que está no mesmo lugar há quase um século, plantado perto da água pura (tudo orgânico), envolto pela mata nativa e se alimentando do solo perfeito de sal calcário (por isso o nome de Salinas). O processo manual de colheita, a moagem asséptica e a fermentação usando o milho plantado no local iniciam o processo, que inclui ainda o alambique centenário, que é lavado diariamente, na produção, com limão e bucha, também plantados na fazenda, além do engarrafamento perfeito e da colagem com carinho do rótulo, feito à mão pelo Valter, o gerente da fazenda. Tudo isso assegura a sustentabilidade implantada pela fazenda. Para manter a qualidade, eles nunca quiseram aumentar a produção, que é de 15 mil litros por ano, sempre com a mesma alquimia criada por Anísio.

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Retrato de produtores ao lado de barris em alambique mineiro, em matéria sobre patrimônio cultural, tradição rural e cachaça de alambique em Minas Gerais.
Neta e bisneta de Claudionor Carneiro, hoje responsáveis pela produção da premiada Cachaça Claudionor

Impossível não se encantar com o descanso do “precioso líquido” nas dornas de madeira bálsamo, também centenárias, que foram montadas na região por um tanoeiro de Salinas nos anos 1940 usando o bálsamo, nascido na mesma terra da cana-de-açúcar: essas dornas finalizam o processo de manufatura da cachaça Havana. 

Por isso, na mesma região, fomos conhecer a Tanoaria Salinas, do artesão Marcos Miranda Sarmento, para entender o descanso da cachaça no bálsamo, que faz as cachaças de Salinas terem um sabor especial e único. Marcos faz barris de todos os tamanhos e a manutenção de dornas antigas dos alambiques de Salinas: sua fábrica é a arte do encaixe de madeiras.

Apenas oito alambiques são reconhecidos pelo processo completo, do plantio ao engarrafamento, dentro das próprias fazendas, de forma totalmente sustentável


Imagem histórica de alambique em Minas Gerais, em artigo sobre a produção tradicional da cachaça mineira e seu reconhecimento como patrimônio cultural.
Eilton Santiago ao lado da dorna da Cachaça Canarinha, em Salinas
Rótulos antigos de cachaça mineira em artigo sobre a Rota dos Alambiques Mineiros, patrimônio cultural e identidade visual da produção artesanal.
Rótulos da mesma cachaça em exposição no museu no centro de Januária

Registro em preto e branco relacionado à história dos alambiques em Minas Gerais, em artigo sobre cachaça, cultura rural e patrimônio mineiro.
Marcos Miranda, da Tanoaria Salinas

Talento de família 

Na Fazenda Brejinho, da mesma família Santiago, conhecemos Noé Santiago, sobrinho de Anísio, que começou a fazer a Cachaça Canarinha com o mesmo modelo da Havana. Noé trabalhou durante 14 anos com o tio, Anísio, na Fazenda Havana e aprendeu tudo da produção sustentável e orgânica em pequena escala. Quem nos apresentou a fazenda foi Eilton, filho de Noé, falecido há quase 20 anos. Depois de provar a Canarinha e notar seu sabor tão marcante, eu quis saber o segredo. Eilton, então, contou que se trata de um segredo complexo, que vai “do plantio da cana à tampa da garrafa”. As duas plantações de cana Havana e Canarinha têm as mesmas características: feitas em um baixio, orgânicas, de água pura e num terroir marcado pela grande mata nativa e pelo clima de Salinas, que é perfeito. O armazenamento em dornas de bálsamo dá à cachaça a chancela de ser Salinas. 

Uma vez na região, é importante visitar a Apacs (Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas), onde estão disponíveis todas as informações de alambiques, degustações de centenas de marcas que a região tem e ainda uma bela loja com livros, garrafas e demais produtos regionais. Tudo com o selo de indicação geográfica que receberam do Inpe, que dá credibilidade aos produtos da região de Salinas.


Canavial em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em artigo sobre a Rota dos Alambiques Mineiros e o processo tradicional da cachaça de alambique.
Plantação de cana na Fazenda Havana
Garrafas de cachaça mineira de alambique reunidas em artigo sobre tradição, patrimônio cultural e rota dos alambiques em Minas Gerais.
Garrafas de edição especial da Cachaça Havana

O Museu da Cachaça é imperdível. Ele impressiona pelo tamanho e por sua arquitetura moderna, com espaços generosos e bem projetados.

O Mercado Central de Salinas é pitoresco. Na loja do Lúcio, você encontra uma quantidade respeitável de rótulos, além de uma boa prosa com degustação, o que é de praxe. Não posso deixar de indicar as cachaças Sabiá e Sabinosa, ambas de pequenas produções orgânicas e com controle total, do plantio ao engarrafamento.

Maravilhas naturais 

De volta à estrada, saímos de Salinas percorrendo diversas cidades até chegar ao Rio São Francisco. De balsa, atravessamos até Itacarambi, ao lado do Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu, uma área fantástica, que acabou de receber o título de Patrimônio Mundial Natural da Unesco. Administrado pelo ICMBio, ele tem posição geográfica demarcada entre a Chapada dos Veadeiros e a Chapada Diamantina. Lá, com a contratação de um guia cadastrado, você poderá visitar vários sítios arqueológicos com pinturas rupestres e mais de 200 grutas ‒ destaque para a Gruta do Janelão, com mais de 100 m de altura. Além de não ser nada claustrofóbica, ela guarda a maior estalactite do planeta, a Perna da Bailarina, de
28m de extensão. 

Estrada rural entre canaviais em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em roteiro cultural pela Rota dos Alambiques Mineiros.
O Mitsubishi Eclipse 4×4 mostra sua performance durante o percurso
Gruta em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em roteiro cultural que combina paisagem natural, história regional e alambiques mineiros.
A impressionante Gruta do Janelão, no Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu

Cachaça histórica

Cidade histórica à beira do São Francisco, Januária tem o perfume do passado. Passear por suas ruas remete a centenas de anos atrás, e lugares como o Hotel Rondônia e o Cine Salinas, com a arquitetura preservada, colaboram para a sensação de viagem no tempo. Na cidade, o Restaurante Babalu, de Daniel de Aquino Ferreira Bebiano, uma família tradicional dos alambiques da região, tem sua cachaça própria (a antiga Nova Aquino) em uma dorna de 1803. Às margens do rio, o Rancho Bar, do Rogério, serve peixes locais, como pintado e tambaqui, na brasa com cerveja gelada. Um gostoso passeio para os finais de tarde. 

Viemos a Januária para conhecer a famosa Claudionor, sendo recebidos por Luciana, bisneta de Claudionor Carneiro, que começou nos anos 1920 a fazer e vender essa cachaça de cor única, com 48% de teor alcoólico.

Com a ajuda do Rio São Francisco, ele enviou suas garrafas para outros estados do Nordeste, por meio dos vapores Benjamin Guimarães e Venceslau Brás, da Companhia Baiana de Navegação. Assim começou o seu triunfo no ramo.

Claudionor começou a plantação e a alambicagem em Salgado, hoje chamada Brejo do Amparo. O processo de “acalmar a cachaça”, como ele mesmo dizia sobre o descanso do líquido, era feito – e ainda é – em dornas da árvore amburana (que pode ser chamada de imburana). 

Hoje Januária é sinônimo de cachaça boa. Sua produção está em torno de 40 mil litros por ano. Na cidade, Claudionor montou o seu centro de distribuição. A casa hoje abriga dornas com mais de 100 anos, para o envelhecimento, uma loja de cachaças e ainda um pequeno museu sobre a história de Claudionor, no centro histórico da cidade. 

A região é a que tem os rótulos mais bonitos entre as garrafas brasileiras. Claudionor fez o seu rótulo em homenagem às regiões nacionais. Não posso deixar de mencionar mais três cachaças de lá: a Caribé, a Velha Januária e a Insinuante.

O carinho com a terra e a persistência em ter um produto de alta qualidade fizeram com que a cachaça do norte de Minas se tornasse reconhecida no Brasil graças a duas famílias, as Claudionor Carneiro e de Anísio Santiago.

Matéria publicada na edição 23 da Revista UNQUIET

Detalhe de formação rochosa em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, em artigo sobre roteiro cultural, alambiques e paisagens mineiras.
Pinturas rupestres no Parque do Peruaçu

Mapa da Rota dos Alambiques Mineiros em Minas Gerais, no Sudeste do Brasil, indicando pontos de interesse cultural ligados à cachaça de alambique.
Ilustração: Antônio Tavares

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