Mal pousei no aeroporto internacional de Oslo, parti rumo a Jevnaker, no noroeste norueguês, em uma manhã clara demais para ser casual. Era meu aniversário e, talvez por isso, tudo parecia mais vivo: as árvores, a estrada, que de vez em quando revelava casinhas com telhados vermelhos, como pequenos cartões-postais aninhados na névoa da manhã, e a densidade à la Bergman, carregada de tudo o que não se diz, em que o mundo parece respirar junto com quem observa.
Decidi fazer essa viagem solo depois de rever o filme O Sétimo Selo e inspirado por Memento Mori, o último álbum do Depeche Mode, que esteve no topo das minhas playlists desde o lançamento e agora transformava a minha jornada até Jevnaker em um ritual: o silêncio, o cinema, a música, que insistem em nos lembrar da finitude, e a minha constante busca por arte. Foi essa combinação que me preparava para Kistefos, um lugar onde a história industrial, a arte contemporânea e a natureza coexistem, como se projetados para dialogar com quem chega atento, sensível, sozinho e inteiro.
Cachoeira de Kiste, a tradução de Kistefos, é o nome da fazenda que ocupava a área. Não se trata de um capricho poético, mas de uma versão da privilegiada geografia dessa região da Noruega. A água estava aqui antes da arte, do museu e da ideia de Christen Sveaas, empresário, colecionador e herdeiro dessa paisagem funcional.
+ Leia outros artigos da nossa editoria de Arte





The Thief
Benefício: Amenity Especial de Boas Vindas; Early Check-in/Late Check-out de acordo com disponibilidade; e ingressos para o Astrup Fearnley Museum + Roteiro Artsy desenvolvido para cada leitor
- Use o código: UNQUIET
- Validade: Março de 2027


Da fábrica de celulose ao museu
No século XIX, a A/S Kistefos Træsliberi, uma fábrica de celulose fundada em 1889 por Anders Sveaas, avô de Christen, utilizava a força da água para mover turbinas e transformar a madeira em pasta, moldando a identidade da Noruega industrial. Décadas depois, em 1996, o neto e herdeiro transformou a antiga fábrica em um museu, preservando máquinas, canais, estruturas metálicas e cicatrizes. O resultado não é um monumento nostálgico, mas um organismo vivo, no qual arte contemporânea, mobiliário industrial e natureza convivem com uma surpreendente naturalidade.
Caminhar por Kistefos é aceitar uma sobreposição de tempos. Esculturas monumentais dão as boas-vindas já na área externa do complexo, surgindo entre árvores como se sempre tivessem estado ali. Tubulações enferrujadas dividem espaço com obras de artistas que parecem pensar o mundo em escala global, num lugar onde o Rio Randselva corre indiferente à curadoria, oferecendo ao visitante diferentes perspectivas de apreciação, de interpretações.


Arquitetura do BIG sobre o Rio Randselva
Eu sabia que me emocionaria ao dar de cara com The Twist, obra que transformou o museu em um destino internacional. O edifício pode ser definido como passarela, galeria ou apenas escultura. Projetado pelo Bjarke Ingels Group (BIG), o pavilhão se contorce sobre o Rio Randslva, conectando as margens, alterando a percepção do espaço. Ao atravessar oThe Twist com pressa para aproveitar o tempo aberto nesse começo de outubro, sinto o peso da história da fábrica sob meus pés e a leveza da curadoria sobre minha cabeça. A luz natural invade por ângulos inesperados, e o vidro reflete a água e as árvores, transformando o ato de cruzar uma ponte em uma experiência artística.
Obras de Anish Kapoor, Kusama e Eliasson
Caminho pela margem olhando para trás a cada minuto para apreciar as formas do The Twist e dou de cara com centenas de troncos metálicos do dinamarquês Jeppe Hein. A estrutura parece flutuar sobre a água, formando um labirinto que desafia a gravidade e confunde o olhar. Essa imensa escultura espelhada é uma verdadeira instalação a céu aberto e conecta as imperfeições do solo às margens do Randslva. Na água, um anel metálico, assinado pelo badaladíssimo Anish Kapoor, faz meu coração bater mais forte.



O Kistefos é um organismo vivo, onde arte contemporânea, mobiliário industrial e natureza convivem com surpreendente naturalidade
Como sempre, o artista indiano captura com leveza singela o ambiente, o céu e o reflexo das árvores da floresta, devolvendo uma versão distorcida e mágica da paisagem que me cerca. Tenho vontade de brindar.
Escondido entre algumas docas que servem de espaço para exposições temporárias, descubro um caleidoscópio de Olafur Eliasson, a mesma obra instalada no nosso Inhotim, que manipula a luz natural e cria efeitos efêmeros completamente diferentes das montanhas de Minas Gerais, e esculturas de Tony Cragg, surgindo de forma orgânica do chão e alterando minha percepção de volume do metal. As formas exuberantes de Fernando Botero e as inconfundíveis cores vibrantes das bolinhas de Yayoi Kusama acrescentam um humor inesperado à rigidez da antiga fábrica.

Destaques e novidades para 2026
Como o Kistefos só está aberto entre maio e outubro, os curadores mantêm a tradição de hospedar apenas um artista temporário por ano. Na minha visita, pude conferir a maior retrospectiva dedicada à norte-americana Kathleen Ryan, cujas obras exploram a tensão entre forma, espaço, sustentabilidade e memória. Com pavilhões repletos de esculturas delicadas e instalações imersivas, a mostra parecia capturar tanto a história da paisagem quanto a intimidade do observador.
Apesar do simpático café coberto, escolho como cenário para meu brinde e almoço de aniversário um pequeno restaurante, com vista para a obra de Jeppe Hein e para The Twist. Com uma taça de tinto e um smørrebrød, o sanduíche instituição escandinavo (pão escuro integral, coberto com salmão, arenque, ervas e conservas, consumido aqui, na Suécia e na Dinamarca), celebro, sozinho, mais um ano de vida e o quão privilegiado me sinto por mais uma descoberta artsy.


Há algo profundamente poético no equilíbrio imperfeito criado no museu. Nada é excessivamente polido. Nada é apenas decorativo. A arte exige atenção, o solo exige cuidado. Independentemente da estação, a alta latitude faz o corpo sentir o frio e o cheiro da água e da madeira antiga. Trata-se de um centro de arte que se experimenta com os sentidos antes de ser entendido intelectualmente, o que, para mim, soa como a melhor definição de celebração. No meu aniversário, Kistefos não foi apenas um destino, mas um estado de espírito: a constatação de que lugares podem envelhecer com dignidade, que a indústria pode se tornar poesia e que uma cachoeira, se ouvida com atenção, é capaz de mover muito mais do que máquinas.
Em 2026, o Kistefos apresentará, no espaço The Twist, obras de Ragna Bley, Ida Ekblad, Oscar Murillo e Albert Oehlen, além de uma grande exposição individual dedicada à artista norte-americana Issy Wood. Uma nova escultura monumental de Dana Schutz será inaugurada na primavera e, no outono, outra assinada pela francesa Marguerite Humeau.






Onde se hospedar em Oslo
Em menos de uma hora de viagem, avisto os edifícios de Tjuvholmen, um antigo enclave de salteadores e hoje um vibrante centro de arte contemporânea, gastronomia e vida urbana à beira do fiorde. O moderníssimo The Thief, um membro da Preferred Hotels, localizado em meio a vias pedonais, com vista para o Astrup Fearnley Museum of Modern Art, projeto de Renzo Piano, é o local que escolhi para encerrar o meu dia de comemoração na capital norueguesa. Do hotel é possível caminhar até o novíssimo Museu Munch, ao Museu Nacional e a áreas animadas, como a Aker Brygge, repleta de cafés, bares e lojas. O restaurante do The Thief serve pratos de inspiração internacional, incluindo badalados sanduíches japoneses, perfeitos para recarregar as energias entre uma andança artsy e outra. Já o rooftop bar, com a vista panorâmica de Oslo, é a parada perfeita para um drinque ao chegar ao hotel ou antes de explorar a vida noturna e gastronômica de uma das capitais mais ao norte do planeta.
Matéria publicada na edição 22 da Revista UNQUIET.
Sustentabilidade ambiental
- Programa de hotéis sustentáveis: incentivo para que hotéis afiliados adotem práticas ambientais como redução de consumo de energia, água e resíduos.
- Eficiência energética: estímulo ao uso de tecnologias de baixo consumo (LED, sistemas inteligentes de climatização e monitoramento de energia).
- Gestão de água: implementação de programas de economia de água e reutilização quando possível.
- Redução de plástico: incentivo à eliminação de plásticos descartáveis e substituição por materiais reutilizáveis ou biodegradáveis.
- Compras responsáveis: estímulo ao uso de fornecedores locais e produtos sustentáveis.
Conservação e turismo responsável
- Promoção de experiências de turismo responsável, que respeitam o meio ambiente e as culturas locais.
- Apoio à marca Beyond Green, que reúne hotéis altamente comprometidos com sustentabilidade e conservação ambiental.
- Incentivo à preservação de ecossistemas locais nas regiões onde os hotéis operam.
Impacto social e comunidades
- Apoio a comunidades locais por meio da contratação de mão de obra local e parcerias com produtores regionais.
- Programas de responsabilidade social, incluindo doações, voluntariado e apoio a iniciativas comunitárias.
- Incentivo a experiências culturais autênticas que valorizam tradições e patrimônios locais.
Diversidade e inclusão
- Promoção de diversidade, equidade e inclusão (DEI) dentro da empresa e entre os hotéis parceiros.
- Ambiente de trabalho que incentiva igualdade de oportunidades e respeito cultural.
Filantropia e impacto global
- Parcerias com organizações beneficentes através do programa de fidelidade I Prefer Hotel Rewards, que permite apoiar causas sociais.
- Envolvimento em iniciativas globais de turismo sustentável e desenvolvimento responsável.








































































































































































