Kistefos: arte e arquitetura

Às margens do Rio Randselva, no coração da Noruega, surge o Kistefos, um verdadeiro Inhotim das altas latitudes, onde a história industrial encontra a arte contemporânea e a natureza

Mal pousei no aeroporto internacional de Oslo, parti rumo a Jevnaker, no noroeste norueguês, em uma manhã clara demais para ser casual. Era meu aniversário e, talvez por isso, tudo parecia mais vivo: as árvores, a estrada, que de vez em quando revelava casinhas com telhados vermelhos, como pequenos cartões-postais aninhados na névoa da manhã, e a densidade à la Bergman, carregada de tudo o que não se diz, em que o mundo parece respirar junto com quem observa.

Decidi fazer essa viagem solo depois de rever o filme O Sétimo Selo e inspirado por Memento Mori, o último álbum do Depeche Mode, que esteve no topo das minhas playlists desde o lançamento e agora transformava a minha jornada até Jevnaker em um ritual: o silêncio, o cinema, a música, que insistem em nos lembrar da finitude, e a minha constante busca por arte. Foi essa combinação que me preparava para Kistefos, um lugar onde a história industrial, a arte contemporânea e a natureza coexistem, como se projetados para dialogar com quem chega atento, sensível, sozinho e inteiro.

Cachoeira de Kiste, a tradução de Kistefos, é o nome da fazenda que ocupava a área. Não se trata de um capricho poético, mas de uma versão da privilegiada geografia dessa região da Noruega. A água estava aqui antes da arte, do museu e da ideia de Christen Sveaas, empresário, colecionador e herdeiro dessa paisagem funcional. 

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Interior do The Twist, a ponte-galeria do museu
A obra Path of Silence, de Jeppe Hein

Da fábrica de celulose ao museu 

No século XIX, a A/S Kistefos Træsliberi, uma fábrica de celulose fundada em 1889 por Anders Sveaas, avô de Christen, utilizava a força da água para mover turbinas e transformar a madeira em pasta, moldando a identidade da Noruega industrial. Décadas depois, em 1996, o neto e herdeiro transformou a antiga fábrica em um museu, preservando máquinas, canais, estruturas metálicas e cicatrizes. O resultado não é um monumento nostálgico, mas um organismo vivo, no qual arte contemporânea, mobiliário industrial e natureza convivem com uma surpreendente naturalidade. 

Caminhar por Kistefos é aceitar uma sobreposição de tempos. Esculturas monumentais dão as boas-vindas já na área externa do complexo, surgindo entre árvores como se sempre tivessem estado ali. Tubulações enferrujadas dividem espaço com obras de artistas que parecem pensar o mundo em escala global, num lugar onde o Rio Randselva corre indiferente à curadoria, oferecendo ao visitante diferentes perspectivas de apreciação, de interpretações. 

A antiga sede da fábrica A/S Kistefos Traelsberi
O fundador da mesma indústria, Anders Sveaas, e sua equipe no início do século XX.

Arquitetura do BIG sobre o Rio Randselva

Eu sabia que me emocionaria ao dar de cara com The Twist, obra que transformou o museu em um destino internacional. O edifício pode ser definido como passarela, galeria ou apenas escultura. Projetado pelo Bjarke Ingels Group (BIG), o pavilhão se contorce sobre o Rio Randslva, conectando as margens, alterando a percepção do espaço. Ao atravessar oThe Twist com pressa para aproveitar o tempo aberto nesse começo de outubro, sinto o peso da história da fábrica sob meus pés e a leveza da curadoria sobre minha cabeça. A luz natural invade por ângulos inesperados, e o vidro reflete a água e as árvores, transformando o ato de cruzar uma ponte em uma experiência artística.  

Obras de Anish Kapoor, Kusama e Eliasson

Caminho pela margem olhando para trás a cada minuto para apreciar as formas do The Twist e dou de cara com centenas de troncos metálicos do dinamarquês Jeppe Hein. A estrutura parece flutuar sobre a água, formando um labirinto que desafia a gravidade e confunde o olhar. Essa imensa escultura espelhada é uma verdadeira instalação a céu aberto e conecta as imperfeições do solo às margens do Randslva. Na água, um anel metálico, assinado pelo badaladíssimo Anish Kapoor, faz meu coração bater mais forte.

Energy- Matter-Space-Time, de Petroc Sesti
Castor & Pullox, uma das quatro esculturas de Tony Cragg no Kistefos
O impressionante labirinto Path of Silence, de Jeppe Hein

O Kistefos é um organismo vivo, onde arte contemporânea, mobiliário industrial e natureza convivem com surpreendente naturalidade

Como sempre, o artista indiano captura com leveza singela o ambiente, o céu e o reflexo das árvores da floresta, devolvendo uma versão distorcida e mágica da paisagem que me cerca. Tenho vontade de brindar. 

Escondido entre algumas docas que servem de espaço para exposições temporárias, descubro um caleidoscópio de Olafur Eliasson, a mesma obra instalada no nosso Inhotim, que manipula a luz natural e cria efeitos efêmeros completamente diferentes das montanhas de Minas Gerais, e esculturas de Tony Cragg, surgindo de forma orgânica do chão e alterando minha percepção de volume do metal. As formas exuberantes de Fernando Botero e as inconfundíveis cores vibrantes das bolinhas de Yayoi Kusama acrescentam um humor inesperado à rigidez da antiga fábrica.

Detalhe da mostra temporária de Kathleen Ryan, exibida na Nybruket Gallery

Destaques e novidades para 2026

Como o Kistefos só está aberto entre maio e outubro, os curadores mantêm a tradição de hospedar apenas um artista temporário por ano. Na minha visita, pude conferir a maior retrospectiva dedicada à norte-americana Kathleen Ryan, cujas obras exploram a tensão entre forma, espaço, sustentabilidade e memória. Com pavilhões repletos de esculturas delicadas e instalações imersivas, a mostra parecia capturar tanto a história da paisagem quanto a intimidade do observador.  

Apesar do simpático café coberto, escolho como cenário para meu brinde e almoço de aniversário um pequeno restaurante, com vista para a obra de Jeppe Hein e para The Twist. Com uma taça de tinto e um smørrebrød, o sanduíche instituição escandinavo (pão escuro integral, coberto com salmão, arenque, ervas e conservas, consumido aqui, na Suécia e na Dinamarca), celebro, sozinho, mais um ano de vida e o quão privilegiado me sinto por mais uma descoberta artsy

Detalhe de Points of View-Part 2, de Elmgreen & Dragset
A força de All of Nature Flows Through Us, de Marc Quinn

Há algo profundamente poético no equilíbrio imperfeito criado no museu. Nada é excessivamente polido. Nada é apenas decorativo. A arte exige atenção, o solo exige cuidado. Independentemente da estação, a alta latitude faz o corpo sentir o frio e o cheiro da água e da madeira antiga. Trata-se de um centro de arte que se experimenta com os sentidos antes de ser entendido intelectualmente, o que, para mim, soa como a melhor definição de celebração. No meu aniversário, Kistefos não foi apenas um destino, mas um estado de espírito: a constatação de que lugares podem envelhecer com dignidade, que a indústria pode se tornar poesia e que uma cachoeira, se ouvida com atenção, é capaz de mover muito mais do que máquinas.

Em 2026, o Kistefos apresentará, no espaço The Twist, obras de Ragna Bley, Ida Ekblad, Oscar Murillo e Albert Oehlen, além de uma grande exposição individual dedicada à artista norte-americana Issy Wood. Uma nova escultura monumental de Dana Schutz será inaugurada na primavera e, no outono, outra assinada pela francesa Marguerite Humeau.

A peça Shine of Life, de Yayoi Kusama
The Twist visto do alto, em meio às florestas que cobrem a propriedade.
Ilustração: Antônio Tavares


Onde se hospedar em Oslo

Em menos de uma hora de viagem, avisto os edifícios de Tjuvholmen, um antigo enclave de salteadores e hoje um vibrante centro de arte contemporânea, gastronomia e vida urbana à beira do fiorde. O moderníssimo The Thief, um membro da Preferred Hotels, localizado em meio a vias pedonais, com vista para o Astrup Fearnley Museum of Modern Art, projeto de Renzo Piano, é o local que escolhi para encerrar o meu dia de comemoração na capital norueguesa. Do hotel é possível caminhar até o novíssimo Museu Munch, ao Museu Nacional e a áreas animadas, como a Aker Brygge, repleta de cafés, bares e lojas. O restaurante do The Thief serve pratos de inspiração internacional, incluindo badalados sanduíches japoneses, perfeitos para recarregar as energias entre uma andança artsy e outra. Já o rooftop bar, com a vista panorâmica de Oslo, é a parada perfeita para um drinque ao chegar ao hotel ou antes de explorar a vida noturna e gastronômica de uma das capitais mais ao norte do planeta.

Matéria publicada na edição 22 da Revista UNQUIET.

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SUSTENTABILIDADE

Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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Sustentabilidade ambiental

  • Programa de hotéis sustentáveis: incentivo para que hotéis afiliados adotem práticas ambientais como redução de consumo de energia, água e resíduos.
  • Eficiência energética: estímulo ao uso de tecnologias de baixo consumo (LED, sistemas inteligentes de climatização e monitoramento de energia).
  • Gestão de água: implementação de programas de economia de água e reutilização quando possível.
  • Redução de plástico: incentivo à eliminação de plásticos descartáveis e substituição por materiais reutilizáveis ou biodegradáveis.
  • Compras responsáveis: estímulo ao uso de fornecedores locais e produtos sustentáveis.

Conservação e turismo responsável

  • Promoção de experiências de turismo responsável, que respeitam o meio ambiente e as culturas locais.
  • Apoio à marca Beyond Green, que reúne hotéis altamente comprometidos com sustentabilidade e conservação ambiental.
  • Incentivo à preservação de ecossistemas locais nas regiões onde os hotéis operam.

Impacto social e comunidades

  • Apoio a comunidades locais por meio da contratação de mão de obra local e parcerias com produtores regionais.
  • Programas de responsabilidade social, incluindo doações, voluntariado e apoio a iniciativas comunitárias.
  • Incentivo a experiências culturais autênticas que valorizam tradições e patrimônios locais.

Diversidade e inclusão

  • Promoção de diversidade, equidade e inclusão (DEI) dentro da empresa e entre os hotéis parceiros.
  • Ambiente de trabalho que incentiva igualdade de oportunidades e respeito cultural.

Filantropia e impacto global

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