Viagem a cavalo
pela Serra Catarinense

Coxilha é uma extensão de terra ondulada, com pequenas e grandes colinas. É muito comum no sul do país.

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A viagem a cavalo é a melhor maneira de vivenciar a paisagem, a cultura e os costumes da vida rural gauchesca em Coxilha Grande, na região catarinense de Lages

Coxilha é uma extensão de terra ondulada, com pequenas e grandes colinas. É muito comum no sul do país. Poucos brasileiros ouviram falar, entretanto, de Coxilha Rica, próxima a Lages, na Serra Catarinense. Uma região singular, gelada – fica ao lado de cidades como Bom Jardim da Serra, Urubici e Urupema, as mais frias do Brasil. Mas principalmente um celeiro da intensa cultura gauchesca. Trata-se de um mundo do gado, de vida rural raiz, de imensas pastagens de capim-mimoso espalhadas por cem quilômetros quadrados, com cerca de 400 fazendas que preservam uma riqueza histórica, relacionada à vida dos tropeiros. Aqui se anda a cavalo.

Nossa imersão nesse universo durou seis noites. Percorremos 200 quilômetros. A experiência é coordenada pela agência Viajar a Cavalo, de Jacira Omena. Ela é uma médica que abandonou a profissão pela paixão em conhecer o mundo montada. “Tenho uma conexão muito forte com cavalos e não sou fã de longas caminhadas”, explica a alagoana. “No exterior, descobri um modo incrível de viajar, mas que quase inexistia aqui – então abri minha agência.”

Foi Jacira quem recebeu pessoalmente nosso grupo no aeroporto internacional de Florianópolis para um transfer de quase quatro horas, passando pelo Vale Europeu, até entrar na Serra Catarinense, rumo à fazenda da Chapada. A chegada para o almoço de domingo encontrou uma costela assando e uma calorosa recepção do simpático Daniel Klein. A acolhida carinhosa foi o prelúdio do tom que teria a jornada.

Viagem a cavalo: grupo de pessoas  posa em frente a uma queda-d'água
Cavaleiros posam em frente a uma queda-d’água | Foto: Carlos Marcondes
Cavalo e cavaleiro no topo de uma cachoeira
Do alto do paredão, o peão faz pose na cascata | Foto: Carlos Marcondes

Crioulos à espera

A fazenda da Chapada é a base de partida e de chegada da tropeada, onde se pousa na primeira noite e na última. As hospedagens são simples e aconchegantes, uma mescla de pousada rústica com casa de fazendeiro. Daniel, conhecido como Catatau, é uma espécie de embaixador do turismo na região. “Adoro receber gente de tudo quanto é canto e mostrar um pouco da nossa coxilha”, revela o anfitrião que abraçou a missão de unir proprietários, organizando as fazendas que receberão os visitantes.

Também é ele quem disponibiliza os cavalos, o carro de apoio que leva as bagagens e suprimentos – e ainda coordena a dupla de cozinheiros Léo e Maria, mãos mágicas em ação a cada parada, colocando no prato o que há de melhor da culinária serrana.

A outra dupla do time de Catatau é formada pelos vaqueiros Juruna e Batatinha, profissionais especiais. São gaúchos de corpo e alma, no mais puro sentido cultural. Além de serem personagens divertidíssimos, funcionam como guias. Mas são essencialmente homens da lida rural, da rotina fazendeira da coxilha. Conhecem cada araucária da região.

Viagem a cavalo no sul de Santa Catarina: três cavalos pastam à beira de uma açude
Cavalos pastam à beira de uma açude | Foto: Carlos Marcondes

Na manhã do dia seguinte conhecemos os protagonistas: os cavalos crioulos. Raça forte, de baixa estatura e adaptada ao relevo local. Completamente diferentes dos mangas-largas marchadores, que mantêm três patas no chão ao trotar, proporcionando conforto, os crioulos deixam apenas duas e seu andamento é um pouco mais duro. São, no entanto, mais resistentes e hábeis ao encarar os planaltos.

Sou apresentado a Moura, uma menina faceira escolhida por Batatinha para ficar ao meu lado, de acordo com minha experiência (quase zero). Aliás, esse roteiro de quase uma semana exige experiência mediana de cavalgada. Isso ficou bem claro ao fim do primeiro dia, o mais puxado, quando andamos 40 quilômetros.

Zero arrependimento. Que dia! Partimos às 9h30 e chegamos quase às 19h, no cair da noite, com um céu que daria inveja a qualquer planetário. Foi uma experiência que quase ninguém do grupo havia tido: cavalgar na escuridão, sem referência, longe de tudo, no coração da coxilha, apenas com a certeza de que nossos vaqueiros nos levariam para uma aconchegante fazenda em segurança. Não é exagero dizer que, ao longo do percurso inteiro, cruzando 11 porteiras e seis fazendas, passamos apenas por menos de uma dezena de pessoas. É inacreditável o isolamento nesse canto catarinense.

A paisagem bucólica dá a sensação de que em alguns lugares a coxilha parou mesmo no tempo.

Viagem a cavalo: o pôr do sol na Coxilha Rica, com um lago e araucárias ao fundo
O fim do dia em Coxilha Rica | Foto: Carlos Marcondes
Entrevero, o prato | Foto: iStock

Desacelerando

Alongar foi preciso. Depois do descanso na fazenda Lua Cheia tivemos a confirmação de que o mais puxado já passara. Os dias seguintes seriam de distâncias mais curtas e menos horas montadas. A maioria de nosso pequeno grupo era de gente que tinha longa relação com o ambiente equestre, e amiga da proprietária da agência.

A dinâmica do passeio impulsiona tipos distintos de relação. Há momentos em que são só você e seu companheiro. Uma reflexão inspirada em paisagens que exaltam a paz. Pensa-se na vida, conecta-se com o cavalo.

A viagem a cavalo segue em parcerias móveis. Há oportunidade de conhecer um pouquinho da história de cada um do grupo.

Entre conversas e galopes chegamos à fazenda Rodeio Bonito, da anfitriã Luciana de Ávila Leite. Ela bisneta do falecido e lendário Tito Bianchini, um imigrante italiano que chegou em Lages sem nada no bolso e se transformou em um dos mais bem sucedidos fazendeiros de Coxilha Grande.

Na fazenda Santa Fé, onde passamos a noite seguinte, assistimos à apartação e ao desmame dos garrotes das vacas.

Grupo em uma viagem a cavalo na Coxilha Grande, Santa Catarina
Foto: Carlos Marcondes

Cozinha local

Entre todas as fazendas em que paramos para almoçar, a Cascata e a Tijolinho exalam autenticidade. Ambas centenárias, pertencem à família do simpático Edson Amorim. Ao visitá-las, fica a clara sensação de que em alguns lugares da coxilha, a vida parece mesmo ter parado no tempo.

Na Cascata provamos do célebre entrevero, um dos símbolos da cozinha local. Nada mais é que um mescladão de diversos legumes, como pimentão, cenoura, cebolas. Leva ainda frango, porco e carne de boi, tudo frito separadamente e misturado em uma panela de ferro. O prato compete com a também famosa paçoca de pinhão, com bacon e carne moída. “O pinhão é a base de muitos pratos durante o inverno, inclusive com pizzas de entrevero e de paçoca. E, claro, aqui é a terra da carne. Assada ou cozida está na mesa todos os dias”, explica o cozinheiro Léo. A culinária se completa com a polenta – herança dos imigrantes italianos –, o queijo serrano de leite de vaca e as sobremesas como pudim de leite. Tudo muito simples e com ingredientes locais. Ah, e nem precisa mencionar que o chimarrão é acessório compulsório por aqui, o gaúcho pode esquecer o celular, mas jamais a cuia.

Viagem a cavalo: peão vestido à moda gaúcha
Peão vestido à moda gaúcha | Foto: Getty

Últimas léguas

Antes de montar para vencer outros 30 quilômetros, sou apresentado ao Nescau, meu novo parceiro. Moura cumpriu seu papel, mas ligada no ‘automático’ ela era muito ligeira para minhas habilidades. Eu precisava de um acompanhante mais calmo, que pegaria leve na reta final da expedição. Batatinha e Juruna levam com a tropa um cavalo extra para cada um, no caso de possíveis adaptações e revezamentos. A viagem a cavalo com os animais soltos pelos planaltos torna a experiência ainda mais gaúcha, pois ajudamos a conduzi-los no rumo certo, coisa de verdadeiro peão.

O destino agora é a fazenda Amigos da Boa Vista. O nome reflete seu principal predicado; a paisagem do topo de um vale que reflete o verdadeiro sentido de isolamento que a Coxilha Rica provoca. É a penúltima noite antes do retorno à fazenda Chapada e a música marca a despedida. O jantar conta com a ilustre apresentação de Ricardo Bergha, ícone das canções nativistas, acompanhado do instrumentista Marlus Pereira na sanfona (que aqui eles chamam de “gaita”).

Logo cedo montamos para a parte final. Iríamos completar 200 quilômetros de Coxilha Rica. A jornada leva o pensamento longe, convida a refletir sobre a relação homem-cavalo, algo extremamente íntimo, até espiritual. É um exercício de busca por uma simbiose de entendimento mútuo, daquilo que cada um necessita nessa conexão. Talvez a coxilha seja rica não pelo pasto de capim-mimoso, mas por ser um imenso palco para uma experiência como esta.
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