Mario Haberfeld

Para o ambientalista brasileiro, criador do projeto Onçafari, uma das melhores maneiras de preservação do meio-ambiente é o ecoturismo.

Em 1989, o paulistano Mário Haberfeld, então com 12 anos, participou com a família de um safári na Tanzânia, África. Foi uma aventura, pois os turistas viajavam na boleia de um velho caminhão, dormiam em tendas precárias e só tomavam banho se houvesse um rio por perto. A experiência, contudo, marcou a vida do garoto que pretendia ser veterinário, mas acabou se tornando piloto de competição por influência do pai, fã e amigo de Nelson Piquet. Viveu nas pistas durante 20 anos, conquistou alguns títulos importantes, mas decidiu se aposentar em 2004 para fazer o que lhe dava mais prazer: percorrer o mundo para ver animais em seus hábitats naturais.

Foi para Sichuan, na China, reduto dos pandas gigantes; para Churchill, no Canadá, onde se concentram os ursos polares; Uganda, na África, para avistar gorilas; viu tigres nas colinas de Maikal, na Índia… Nessas viagens, concluiu que muitas espécies haviam sido salvas da extinção porque passaram a ter valor econômico com o ecoturismo. Por que não tentar fazer algo do tipo no Brasil? Inspirado nos modelos dos parques nacionais que visitou, Mário fundou em 2011 a ONG Onçafari. E o que teve início como uma promotora de safáris para avistamento de onças no Pantanal, se transformou em uma próspera organização ambiental reconhecida internacionalmente. Acompanhe a entrevista.

Onça Pintada | Foto: Edu Fragoso
Carro Onçafari e Onça | Foto: Adriano Gambarini
Leões | Foto: Mario Haberfeld

Você se baseou em qual modelo para criar o Onçafari?

Mário Haberfeld – O modelo que me pareceu mais adequado para o projeto foi a reserva de Sabi Sands, na África do Sul. A reserva foi formada nos anos 1930 com a fusão de algumas fazendas de gado da região, entre elas a propriedade de 10 mil hectares da família Varty. Começou como reserva de caça, o que era conveniente para os fazendeiros que queriam se livrar dos leões e leopardos que se alimentavam dos bois e ovelhas.

Uma situação parecida com o que ainda se vê por aqui.

Mesma situação, com a diferença que aqui se caça onças, apesar de proibido. Na fazenda dos Varty, as caçadas se estenderam até o começo dos anos 1970, quando um dos filhos, John Varty, passou a rastrear de jipe as pegadas de uma leoparda até avistá-la. No começo, o animal fugia porque associava a figura do homem como ameaça. Mas depois de meses sendo observada de perto, percebeu que o jipe de Varty, estacionado ao seu lado, não representava perigo e parou de fugir.

É o que você chama de habituação, ou seja, habituar o animal à presença de humanos?

Exatamente. John Varty, hoje um ambientalista e documentarista da vida selvagem muito respeitado, repetiu a prática com outras fêmeas de leões e leopardos e quando se deu conta que esses animais já não mais se importavam com a presença dos carros, criou um lodge, o Londolozi [proteção, em zulu], com algumas cabanas. O local passou a atrair cada vez mais visitantes porque era o único no mundo onde se podia ver um leopardo a pouca distância. Os fazendeiros vizinhos perceberam que o negócio era mais lucrativo que a criação de gado, copiaram a iniciativa e acabaram se unindo para formar um só parque, hoje com cerca de 60 mil hectares.

Você teve assessoria da equipe de Varty para implantar a técnica no Brasil?

Sim, trouxemos para o Pantanal um dos mais experientes guias do mundo, Simon Bellingham, que me acompanhou em algumas das viagens pelo mundo e se tornou co-fundador do Onçafari, além de outros profissionais da Londolozi e de especialistas brasileiros, para criar nosso modelo.

Por que você escolheu a Pousada Caiman para iniciar o Onçafari?

Primeiro porque eu já conhecia Roberto Klabin, dono da Caiman, e admirava suas iniciativas ambientais. Ele já tinha uma estrutura hoteleira montada e isso abreviou a implantação do projeto. Depois, por causa da população de onças na região da pousada. Nos últimos dez anos, identificamos mais de 200 animais no local, mas eles raramente eram avistados. Antes da nossa parceria com a Caiman, avistava-se onça em média duas a três vezes por ano; hoje, é possível vê-las mais de 900 vezes por ano. Em 2020, 98% dos hóspedes avistaram onças.

Gorila | Foto: Mario Haberfeld

“A lógica é simples: quem vai ao Pantanal está interessado em ver onças, e não capivaras”

Hipopótamos | Foto: Mario Haberfeld

Como a população local se beneficia disso?

O chefe de família percebeu que ganharia cinco ou seis vezes mais trabalhando com o ecoturismo do que na lida com o gado. Com o salário de peão, tinha de sustentar a família, porque as mulheres raramente conseguiam emprego na pecuária. No ecoturismo, a mulher pode trabalhar, por exemplo, como cozinheira da pousada, os filhos nos serviços gerais ou como guias e rastreadores. Fora isso, há a questão ambiental. Antigamente, essas pessoas saiam para caçar onças porque era a cultura dos seus antepassados. Hoje, elas concluíram que os animais valem mais vivos do que mortos e se empenham em preservar cada espécie.

A iniciativa é pioneira no Brasil?

Sim, antes do Onçafari não havia ecoturismo baseado em avistamento de animais, já que era quase impossível ver uma onça, por exemplo. O que havia, e ainda há, são locais que se declaram ecológicos, mas mantém animais presos em jaulas para visitação. Ou pousadas que atraem os animais com a ceva, ou seja, acostumando o bicho a receber comida em determinada hora. Além de ilegal, a ceva é uma prática arriscada. Todos os ataques de onças registrados foram em função da ceva e é simples entender o motivo: quando o animal não encontra a comida, tende a atacar quem estiver por perto.

Onças | Foto: Edu Fragoso

Além do ecoturismo, sua ONG tem atuado em quais outras áreas?

Temos seis frentes: a primeira é o ecoturismo que engloba o avistamento de onças no Pantanal e de lobos guará no Cerrado. Outra frente é o que chamamos de “ciência”, formada por um grupo de especialistas que estuda o comportamento das onças e divulga as informações em artigos acadêmicos. A terceira se refere às atividades sociais: promovemos palestras sobre sustentabilidade em escolas públicas e com a pandemia, arrecadamos recursos para os hospitais da região do Pantanal. Temos a frente da educação, responsável pela produção de livros e documentários, além das palestras em universidades e empresas. Também começamos a atuar na reintrodução na natureza de animais selvagens cativos…

É possível reintroduzir um animal cativo na natureza?

Provamos que sim, é possível. Há seis anos, dois filhotes de onça foram levados ao Centro de Resgate de Animais Silvestres em Campo Grande [MS]. Eles haviam sido encontrados junto com a mãe a 400 quilômetros dali, no quintal de uma casa em Corumbá, mas na tentativa de resgate, a mãe foi abatida. Como os filhotes não tiveram tempo de aprender a caçar, foram condenados a viver no cativeiro. Soubemos do caso e conseguimos permissão para levar os animais até a Caiman, onde confinamos as oncinhas em um recinto fechado de 10 mil metros quadrados monitorado por câmeras e sem contato humano. Soltamos uma cotia e depois filhotes de capivara no recinto para que os filhotes se alimentassem por conta própria. Quando eles passaram a caçar jacarés de grande porte e queixadas machos, um tipo de porco selvagem muito agressivo, concluímos que estavam prontos para retornar à natureza. Na prática, a reintrodução foi bem-sucedida, mas faltava a comprovação científica, que só reconhece o êxito da iniciativa quando o animal passa a ter descendentes férteis. No caso das oncinhas, cada uma teve três filhotes e também netos. Foi a primeira vez que a reintrodução de onças funcionou.

Onças | Foto: Edu Fragoso

“Conseguimos reunir uma equipe que se sai bem tanto com os humanos quanto com os animais”

Você pretende repetir a prática?

Já repetimos com sucesso na Amazônia para testar um bioma diferente, e em Esteros del Iberá, no norte da Argentina, com onças levadas do Pantanal. Mas nosso sonho é reintroduzir onças na Mata Atlântica, onde a espécie corre sério risco de extinção. Com a população reduzida, são comuns os acasalamentos consanguíneos, entre mãe e filho, por exemplo, e isso acarreta problemas genéticos. A reintrodução levaria sangue novo para essas áreas e seria relativamente simples fazer o processo com onças pantaneiras, que são da mesma espécie, mas a legislação não permite a mistura de animais de diferentes regiões. A alternativa que estamos estudando é treinar filhotes de onças cativas em zoológicos. 

Qual a sexta frente?

É a de florestas. Quando fizemos a reintrodução de onças na Amazônia, percebemos que a floresta na margem esquerda do rio São Benedito, no sul do Pará, estava sendo devastada a um ritmo assustador, em contraste com a reserva natural intocável de 4 milhões de hectares, na região da Serra do Cachimbo, na outra margem do rio. Com o apoio de patrocinadores, compramos uma área na região devastada e estamos criando um cinturão verde para proteger o rio. A ideia é procurar áreas biologicamente importantes e estratégicas, mas ameaçadas, e reflorestá-las para fazer com que se tornem autossustentáveis. Em 2020, em parceria com o Projeto Arara-azul, compramos uma área no Pantanal Norte e formamos um corredor ecológico de mais de 400 mil hectares, onde vive a maior população do mundo de arara-azul.

Nos últimos anos, a imagem do Brasil lá fora é a de um país que não dá a menor importância para o meio-ambiente e motivos para isso não faltam. Dá para reverter esse quadro?

O Brasil vai ter de se adequar a uma nova ordem mundial. Antigamente, o símbolo do progresso era o desmatamento desenfreado, mas hoje o progresso é medido pelo verde que você preserva. Infelizmente, o Brasil não entendeu isso. E a meu ver, uma das melhores maneiras de preservação do meio-ambiente é o ecoturismo.

Site: oncafari.org
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Clique aqui para ler a entrevista na íntegra na edição 05 da Revista UNQUIET.

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