Pelas águas do Rio Negro

Entre os parques nacionais de Anavilhanas e Jaú, a Expedição Katerre revela segredos da maior floresta tropical do mundo ao navegar em meio a igapós e igarapés

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São 21h30 e já estou pronta para dormir, muito cedo para os meus hábitos. O cenário é dos mais improváveis. Estou nas margens do Rio Negro, em plena selva amazônica, numa hospedagem para lá de autêntica: um bangalô de madeira, ou redário, cuja única proteção é um teto de madeira. Cantos de grilo, pios de coruja e demais sons da natureza atravessam a conversa do grupo, que trocou cama e lençóis confortáveis pelo pernoite na mata. Acomodei-me na rede com a certeza de uma noite em claro. Mas, como mágica, a floresta me fez adormecer rapidamente. 

 Uma sinfonia de pássaros, com o canto pronunciado de tucanos, é a trilha sonora enquanto observamos, de um mirante, a noite se dissolver entre nuvens, nos tons alaranjados dos primeiros raios de sol. A cena ganha contornos de pintura refletida nas águas do rio. Essa é uma das muitas vivências de uma expedição de barco durante cinco dias pela Amazônia.

A partida é em terra firme, com a hospedagem no lodge Mirante do Gavião, instalado em frente ao Parque Nacional de Anavilhanas, que abriga o segundo maior arquipélago fluvial do mundo. São apenas 12 bangalôs de madeira de lei, em formato de barcos invertidos e integrados à paisagem, que criam uma atmosfera de relaxamento para os dias que virão. 

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Vista aérea da floresta | foto: iStock
Proa do barco Jacaré-açu | Foto: Sitah

A viagem é organizada pela Expedição Katerre, uma empresa de ecoturismo situada no município de Novo Airão, a 200 km de carro de Manaus, no Amazonas. É lá que começam os roteiros de três a sete noites pelo baixo e médio Rio Negro, alcançando lugares inóspitos e preservados da selva. 

Cruzeiro na Amazônia: a bordo do Jacaré-açu 
A base para os nossos passeios é o Jacaré-açu, o último barco construído pela indústria náutica de Novo Airão, em 2010, para a Katerre. Trata-se de uma embarcação regional de madeira, com detalhes tipicamente amazônicos. Em três andares estão distribuídas oito cabines-suítes, com ar-condicionado, cozinha, sala para refeições, sala de estar climatizada com videoprojetor e um deque aberto, equipado com solário, redes e espreguiçadeiras.

As acomodações são confortáveis, porém pequenas. O barco possui um sistema de captação de água. Do chuveiro cai a agradável água do Rio Negro, com a temperatura natural entre 28 e 29⁰ C. O maior luxo do Jacaré-açu? Não há sinal de internet. A única conexão é com a floresta e, acredite, é só o que você vai precisar.

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Arquipélago de Anavilhanas | Foto: Thais Antunes

Come-se muito bem a bordo. A culinária é caseira, preparada com ingredientes da época, com direito a um festival de pescados: aruanã, matrinxã, tucunaré, pirarucu (o bacalhau da Amazônia) e tambaqui, um dos peixes mais apreciados na culinária local. Igualmente variado é o café da manhã, com frutas, pães de batata, leite, milho, bolos e tapioca. Na volta dos passeios, ainda somos recepcionados com chips de banana assada, mandioca frita e bolinho de piranha. Tudo fresquinho, feito diariamente com muito capricho por Keli Lima, a cozinheira-chef.

Quem nos acompanha nessa expedição é Josué Basílio, guia de turismo e de sobrevivência na selva. Descendente da etnia indígena Tukano e criado em Manaus, ele é detentor de um conhecimento profundo da Floresta Amazônica e traz consigo conhecimentos ancestrais que não estão nos livros. 

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Araras Canindé, um dos símbolos da fauna | Foto: iStock

No reino das águas amazônicas

Enquanto o barco desliza tranquilamente, a amplitude de uma margem à outra impressiona. Porém logo Josué nos lembra: estamos navegando por entre as 450 ilhas que formam o Arquipélago de Anavilhanas. Ou seja, o que vemos é um ínfimo da real grandiosidade do Rio Negro, o sétimo maior do planeta.  

Viajamos durante a estação da cheia, que ocorre de março a julho. Nessa época, as matas na margem dos rios ficam inundadas – são as chamadas matas de igapó. A navegação acontece pelas copas das árvores, cujas raízes estão submersas cerca de 14 m. O período é marcado também pelo maior volume de chuvas na região, que por vezes altera a programação do roteiro.

Acopladas ao Jacaré-açu estão duas voadeiras (canoas de metal motorizadas). A bordo delas, saímos para excursões diárias pelos igapós. Passamos por caminhos labirínticos, que nos envolvem em frondosas árvores, muitas delas centenárias, como o arabá, utilizado pelos indígenas como uma forma de comunicação. Com um remo, Josué demonstra como o tronco, quando atingindo, produz um som pesado, propagado a quilômetros de distância. 

Viajantes saem a bordo de voadeiras para excursões diárias por igapós e igarapés | Foto: Marjorie Luz
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Canoa cruzando o Rio Negro | Foto: iStock
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Uma das vilas do Mirante do Gavião
Foto: Jean Dallazem

O silêncio do motor das canoas abre espaço para a fauna se exibir. Araras-canindé, papagaios e tucanos cortam os céus com seus cantos. Graciosamente, martins-pescadores aparecem em voos rasantes. Camufladas entre as árvores, nos observam ciganas, ou jacu-ciganas (aves raras, de porte grande, cauda longa e canto grave). Já os botos-cinza e botos-cor-de-rosa acompanham o barco furtivamente ao longo do passeio. 

O único dia de céu azul pede um banho de rio. Com o barco ancorado, viajantes mais ousados pulam do terceiro deque. Dispenso a emoção e desço tranquilamente pela escada trajada com um colete salva-vidas, pois minhas habilidades para o nado são limitadas. Sentir a correnteza do Rio Negro e sua energia faz deste um momento literal de imersão na Amazônia. 

Na transição para o Parque Nacional do Jaú, o maior parque florestal de água doce do mundo, há uma perceptível mudança de paisagem. Às margens do Rio Jaú, um dos afluentes do Negro, a vegetação é mais baixa. A floresta que até então nos encobria se abre para um amplo horizonte. No decorrer, vemos árvores secas – resultado de um incêndio criminoso ocorrido seis anos atrás. Apesar da cena desoladora, Josué nos garante que as árvores vão se regenerar. Eis uma das lições: a floresta se recupera, sempre.

Igarapés são canais dentro da mata que se formam durante as cheias. Navegamos pelo Igarapé Preto, um curso cheio de obstáculos. Além de nos esquivarmos constantemente de galhos, Josué e Dedê cortam troncos derrubados pela própria natureza. Chegamos, enfim, a uma cachoeira baixa, com espumas brancas e correnteza forte, reflexo da chuva que caíra na noite anterior. Logo encontramos uma “jacuzzi natural”. Aproveito para contemplar e agradecer por, mais uma vez, estar em comunhão com a força das águas.

Numa última incursão, trocamos as barulhentas voadoras por canoas de madeira dos pescadores da comunidade de Cachoeira. A atividade faz parte do turismo de base comunitária desenvolvido pela Katerre, que envolve os ribeirinhos. São os próprios pescadores que nos conduzem em trilhas aquáticas de ilhas fluviais, para o avistamento de macacos e preguiças. O dia, infelizmente, não está propício – a chuva vigorosa da madrugada parece ter afugentado os bichos. Mas a expedição não deixa de ser menos interessante, já que os barqueiros nos mostram a flora da região, em cursos que somem no período da seca.

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Interação com população ribeirinha
Foto: Sitah

Terra firme

Enquanto somos transportados de canoa para a margem uma pedra com formato de sanduíche, belamente refletida nas águas negras num dia ensolarado, nos dá um indício do que veremos adiante. Estamos na Reserva do Madadá, um trecho de floresta primária no Arquipélago de Anavilhanas. Com olhos atentos ao solo encharcado pela chuva e com cuidado para não tocar nos troncos de árvore para evitar surpresas, caminhamos mata adentro, enquanto aprendemos técnicas de sobrevivência na selva. 

Após algum tempo de caminhada, chegamos às Grutas do Madadá, formadas há cerca de 10 milhões de anos pela erosão das águas. São rochas espetaculares, entre cipós e raízes. No entorno, nos deparamos com pegadas de uma onça que passou por ali cerca de uma semana antes. Para a nossa sorte, ela não tem interesse em humanos – e na companhia de Josué nos sentimos protegidos de qualquer ameaça.

A rainha das árvores amazônicas atende pelo nome de samaúma, ou samaumeira. Embora não seja a mais alta (ela atinge 50 m), ela é maior em termos de circunferência, chegando a até 3 m. Estamos diante de um exemplar de 300 anos. Sua beleza vai das raízes esparramadas até a copa, quase inalcançável pelos olhos dentro da mata fechada.

Novo Airão, fundada em 1955, atualmente conta com 20 mil habitantes e é a base para o turismo na região. Sua história está ligada a uma das últimas paradas de nossa expedição. De volta a Anavilhanas, visitamos Airão Velho, uma cidade abandonada que viu seu apogeu durante o ciclo da borracha, em meados do século XIX. Do período áureo, restam apenas as ruínas do supermercado de escambo e de uma capela, ambos dominados pela floresta.

Nas noites seguintes, após o término da viagem, meus sonhos são inundados pela selva. Prova de que a Amazônia guarda segredos além da nossa compreensão – e que adentrar suas matas, escutar seus sons, navegar por suas águas e absorver um pouco do conhecimento ancestral dos povos nativos nos faz perceber a real importância de preservá-la. 

Mapa: Antônio Tavares
Tambaqui do restaurante Caxiri | Foto: divulgação

Caxiri 

Mesmo que a passagem por Manaus seja breve, é indispensável a ida ao Caxiri. Instalado em um casarão histórico ao lado do Teatro Amazonas, esse restaurante atmosférico é um sonho – e realidade – da chef paulista Débora Shornik, uma pesquisadora de ingredientes amazônicos. Das comunidades da floresta, ela garimpa os produtos para criar a sua cozinha autoral, com inspirações da culinária indígena. À mesa do Caxiri chegam inúmeras delícias, como um caldinho de cogumelo ianomami e o xibé, com farinha de uarini, abacaxi regional, camarões, pesto de jambu e tucupi agridoce. O tucupi-negro do povo Wapichana aparece como a calda de um sorvete que leva ainda compota de cubiu e castanha caramelizada. Débora atua igualmente como consultora dos restaurantes Flor do Luar e do Camu-Camu, no Mirante do Gavião Lodge, ambos em Novo Airão.

Clique aqui para ler a matéria na íntegra na edição 08 da Revista UNQUIET.

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Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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Mirante do Gavião e Expedição Katerre

  • Arquitetura sustentável que preserva a permeabilidade do solo;
  • Energia solar para abastecer o sistema elétrico e aquecimento de água;
  • Resíduos orgânicos direcionados para compostagem;
  • Apoio ao desenvolvimento socioeconômico da região por meio do turismo de base comunitária;
  • Capacitação de profissionais da Fundação Almerinda Malaquias (FAM);
  • Projeto ambiental de recuperação da população de tartaruga-da-Amazônia.

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