Rota do Cacau: onde a Bahia é mais doce

Ilhéus, Itacaré e Serra Grande formam a santíssima trindade da Rota do Cacau. Percorrida sobre duas rodas, a viagem une aventura, sustentabilidade e a fascinante história do “fruto de ouro”

Nem todo mundo mantém as amizades da época do colégio, mas eu acabei sendo uma dessas pessoas. O grupo do WhatsApp dos colegas vive divulgando novidades, embora 20 anos tenham se passado desde a formatura. Eis que recebo o seguinte convite: pedalar pelo sul da Bahia. “A viagem é a sua cara. A maioria são mulheres: aventureiras, mas que não gostam de passar por dificuldades; ativas, mas não exatamente atletas. A paisagem é deslumbrante”. Palavras do Juliano Mendonça, amigo desde os anos 1990, e fundador da Elo Bike Trips (elobiketrips.com.br), uma empresa que organiza viagens ativas de bicicleta ao longo da chamada Rota do Cacau. Os grupos, de até 14 pessoas, vivem uma gama diversa de atividades além da bike: desde trilhas, cachoeiras e canoa havaiana até experiências gastronômicas em fazendas centenárias que cultivam o cacau de maneira sustentável.

São cinco dias de atividades previamente programadas, e outros dois de traslado e viagem, na ida e na volta. A aventura começa em Ilhéus, no dia seguinte à chegada do grupo, formado por pessoas de várias partes do Brasil e de idades variadas. A viagem alterna pedaladas de 20 a 40 km por dia, iniciando às 8 horas e terminando por volta das 16 horas. Um carro de apoio fica sempre pronto para acolher eventuais necessidades.

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Um enclave de bom gosto e estilo na Estrada Parque BA-001, rodovia que liga Ilhéus a Itacaré, o Txai Resort concentra todos os melhores conceitos que definem o luxo contemporâneo. Isso porque foi um dos primeiros hotéis no Brasil a levantar a bandeira da sustentabilidade, há mais de 20 anos, e levá-la adiante como um de seus pilares. Além da localização privilegiada, em frente à Praia de Itacarezinho, e da construção elegante, com bangalôs pensados para causar o mínimo impacto à natureza abundante do entorno, o resort encabeça uma lista de ações em prol do meio ambiente e da comunidade local. Entre os projetos, o Instituto Companheiros do Txai faz um trabalho de conscientização sobre a conservação da biodiversidade e capacita trabalhadores para a prática agrícola sustentável. O programa Txaitaruga cuida da reprodução de tartarugas marinhas e já atendeu, até hoje, mais de 60 mil filhotes.

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Durante o trajeto entre Ilhéus e Serra Grande é preciso vencer desafios, como atravessar pequenos rios carregando a bike
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Pedal entre a areia e a Mata Atlântica  

Composto de 12 pessoas, todos do grupo partiram equipados com capacete, bermudas de ciclismo acolchoadas, camisetas UV, tênis e, claro, ótimas bicicletas. A própria Elo Bike Trips fornece as bikes. Estão disponíveis os modelos Cannondale (linha Trail), aro 29, a Oggi, a Caloi e a Merida, aro 26. A bike ideal é definida previamente, de acordo com a altura e o peso de cada viajante. Todas contam com freio a disco hidráulico e suspensão dianteira e garantem uma pilotagem confortável e segurança para a vivência.

Pedalar pela areia foi um dos pontos altos da jornada. São 35 km de praia, saindo de Ilhéus e indo em direção a Serra Grande, um vilarejo que faz parte do município de Uruçuca, onde nos hospedaremos pelas três noites seguintes. O nível de dificuldade nesse trecho depende bastante da natureza. Para nossa sorte, o vento estava a favor e deu um impulso muito bem-vindo à experiência, que é um verdadeiro deleite sensorial. Por aproximadamente três horas, não se vê início nem fim: só areia, mar e duas rodas. A temperatura em abril é perfeita para esse tipo de atividade, a ponto de um tempo nublado e uma garoa leve serem celebrados. O calor sempre está lá, vale lembrar. Os meses de sol a pino não são recomendados para a prática. Os únicos momentos em que descemos da bike no trajeto, além de uma rápida parada para um lanche de frutas, foram para atravessar pequenos riachos, pelos quais passávamos a pé, cada um carregando sua bicicleta por alguns metros. A água salgada pode danificar o alumínio e a corrente, por isso cada um fica responsável pela sua própria bike.

Vista do Mirante de Serra Grande para a Praia Pé de Serra

O segundo dia de aventura começou desafiador: uma subida acentuada pelo asfalto, a poucos metros da pousada Canto Leela, em Serra Grande, de onde partimos pedalando. O grupo já foi logo acionando as marchas mais leves para dar conta da rampa e manter a constância no ritmo de pedaladas. O acostamento é estreito e permite no máximo duas bicicletas emparelhadas. O ideal mesmo é manter a fila indiana nos trechos de asfalto. Os ciclistas mais experientes ajudam com conselhos técnicos, como, por exemplo, manter uma cadência baixa, porém contínua, e evitar rompantes que gerem estafa. Tentei seguir as dicas com resiliência, mas acabei precisando empurrar a bike no terceiro terço do trajeto. Fui a última a chegar ao mirante de Serra Grande, 80 m acima do nível do mar, onde todos aguardavam com água, frutas e fotos.

Outro trajeto memorável é o caminho de Itacaré a Jeribucaçu, uma praia superpreservada que dá acesso, pelas pedras, à Praia da Arruda, também deserta. Metade do caminho é feita sobre duas rodas, por asfalto e estradas de terra. Saímos da vila de Itacaré e terminamos num sítio, onde deixamos as bikes estacionadas. Ali começa uma caminhada por uma trilha morro abaixo, conhecida por seu nível de dificuldade médio, mas que, devido à chuva, acabou se tornando mais difícil do que imaginávamos. A combinação entre barro molhado e inclinação acentuada só foi possível de ser superada graças a cordas que funcionam como corrimão nas laterais do caminho. Alguns tombos depois, chegamos à Praia de Jeribucaçu, junto com o fim da chuva. A praia seria intocada, não fosse uma pequena barraca, que serve um almoço simples, mas bastante saboroso.

Um fruto de cacau aberto, com sua polpa espessa

Hora de relaxar 

As atividades terminavam por volta do meio da tarde. Nada como o pôr do sol para curtir a praia e as acomodações da pousada Canto Leela, deliciosa não só pelo excelente café da manhã artesanal, de frente para a Praia Pé de Serra, mas também pela privacidade: são apenas seis bangalôs, espalhados pela mata. Uma ampla sala de ioga, com paredes de vidro e piso de madeira, cercada pelo verde, instiga até os mais extrovertidos a agendar aulas de tai-chi e massagens. Vale citar a piscina ecológica, originalmente um lago, em que vegetação, algas e peixes foram preservados ao redor. A água entra e sai da piscina de maneira cíclica e nunca está gelada ‒ e a química é quase zero.

Na mesma região, em Serra Grande, a Toca da Tapioca é uma excelente opção para comer bem. Localizada no centro do vilarejo, quem experimenta o suco de cacau com gengibre e hortelã, servido numa charmosa caneca de metal, não imagina a saga vivida pela chef Deia Lopes. Baiana de Ubaitaba, ela viveu 16 anos em São Paulo para tentar uma vida melhor ao lado da mãe, uma vendedora de amendoim. De lá para cá, trabalhou em muitas cozinhas, hotéis e restaurantes, sempre estudando, mas foi a volta à Bahia que transformou o sucesso de sua pequena tapiocaria em um dos restaurantes mais comentados. Mesmo atravessando a crise da pandemia, Deia segue assinando um menu brasileiro, criativo e sofisticado, que oferece aos turistas pratos como bobó de camarão com arroz de coco queimado, farofa de cebola, vatapá e chips de banana-da-terra.

rota do cacau bahia - rio das contas
Entardecer no Rio de Contas, em Itacaré
rota do cacau bahia - cachoeira da juerana
Parada para refrescar o corpo na Cachoeira de Juerana

Uma viagem ao ciclo do cacau 

A Estrada do Chocolate (Rodovia BA-262) conecta Ilhéus, a Capital do Cacau, com o município de Uruçuca, onde se localiza Serra Grande. O lugar remonta ao ciclo do cacau, que, entre o final do século XIX e meados do século XX, fez da região umas das mais prósperas do Brasil e onde surgiram várias fazendas produtoras, cujas construções permanecem sendo estandartes dessa época. O declínio da região coincide com a proliferação de uma praga conhecida como vassoura-de-bruxa, que dizimou a produção cacaueira e levou muitos dos fazendeiros a encerrar as atividades. 
Mas há ainda um perfume de passado ao longo desse caminho, onde é possível visitar fazendas centenárias (hoje voltadas para o turismo) tanto para almoçar quanto para se hospedar. A Fazenda Provisão recebe até 14 pessoas e é mantida há cinco gerações. Piso original, camas com estrutura de madeira, armários, louça e prataria do começo do século XX nos remetem imediatamente à famosa época dos coronéis, representada nos romances eternos de Jorge Amado. Gabriela, Cravo e Canela, Cacau e Terras do Sem-Fim. O quarto principal mantém um grande baú, que costumava ser usado como mala e traz uma inscrição de 1790.

Roberto Novaes, tataraneto do primeiro prefeito de Ilhéus, o coronel Domingos Adami, em cuja gestão foi construído o conhecido Palácio Paranaguá, é quem cuida da fazenda hoje. Ele diz que a ideia é criar uma experiência de época e de contato sensorial com a produção do cacau para grupos e famílias que queiram praticar caiaque, pesca e caminhada pelos 45 hectares preservados de Mata Atlântica virgem. O casarão tem quatro quartos, dois anexos, quatro banheiros e uma grande varanda, onde apreciamos uma saborosa comida de fazenda.

Uma das coisas mais interessantes de aprender é que, embora o chocolate seja o derivado mais conhecido do cacau, ele não é o único. O fruto é capaz de render diversos itens, como licor, mel, geleia, nibs (caramelizado ou puro), castanha e até um delicioso e surpreendente chá, feito com a casca da semente após a secagem. Isso sem falar no fruto em si, cuja polpa é deliciosa e levemente ácida. Algumas fazendas proporcionam a experiência completa: conhecer a produção desde a árvore até a barra de chocolate, ou, como os produtores locais costumam chamar, “tree to bar”. É o caso da Fazenda Capela Velha, que oferece uma visita guiada, que começa na plantação e termina na degustação dos produtos, inclusive, claro, o chocolate.

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Bangalos do Txai Resort, na praia de Itacarezinho | Foto: divulgação

Experiências para levar na memória 

A noite é sempre animada em Itacaré. Quanto mais perto do fim de semana, mais as ruas ficam tomadas por bares, pequenos shows e forró, especialmente a Rua Pituba. Escolhemos jantar no Mirante Itacaré para celebrar o término da aventura. Com vista para o mar, o pôr do sol que se vê das mesas ao ar livre é ainda mais encantador quando acompanhado por um drinque. O arroz de polvo é o carro-chefe da casa. Parecia o cenário perfeito para trocarmos nossas impressões sobre a imersão em duas rodas. O consultor ambiental Edson Peters, 59 anos, resumiu o que todos pareciam querer expressar. “A bicicleta virou um símbolo de liberdade. Aproveitei para renovar meus pensamentos, meus sentimentos. Conciliar lazer, atividade física e natureza faz muito bem e me tira das situações de estresse. Concilio minha alma com meu espírito. Foi uma aventura calculada, mas bem aproveitada, com boa comida e boas companhias.”  

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SUSTENTABILIDADE

Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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Txai Resort

  • Aulas para os colaboradores aprenderem sobre reciclagem, compostagem, tratamento de água e esgoto.
  • Desenvolvimento e educação da comunidade local
  • Há 16 anos desenvolvendo projetos de agricultura local como fonte de renda
  • Projeto TxaiTaruga que visa proteger as tartarugas marinhas da região
  • Projeto Txai Pássaros visa a preservação das espécies nativas da região
  • Site: txairesorts.com

Clique aqui para ler a matéria na íntegra na edição 08 da Revista UNQUIET.

Ilustração: Antônio Tavares

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