O ciclo da vida

A experiência de conhecer Botsuana em seu aspecto mais selvagem é enriquecida pela hospedagem em três lodges do grupo Wilderness, que se encarrega de fazer de cada hóspede um espectador da natureza e proporcionar memórias eternas

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Wilderness

  • Além de todos os serviços incluídos, de acordo com a estação, uma experiência sob medida será preparada para os leitores da UNQUIET, incluindo café da manhã à beira da água e/ou em pontos fora do comum e/ou piquenique ao pôr do sol nas melhores áreas de observação.
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Vida. Essa é a palavra que me vem à mente, ao coração e à alma depois dos dias magníficos que passei em Botsuana. Pode parecer curioso sentir a vida de forma tão intensa numa terra em que a morte é um evento natural, corriqueiro e cotidiano. 

Aqui prevalece a lei da natureza. 

Nesse pedaço do planeta, a cada minuto a vida pulsa intensamente, mostrando sua beleza, sua força, suas cores, seus cheiros e até mesmo seu lado brutal, que nada mais é do que seu próprio ciclo infinito: criação, desenvolvimento e finitude. Minha primeira parada no país, que fica na África Austral, tem as áreas selvagens mais isoladas do continente e está entre os menos povoados do mundo, foi o lodge Wilderness Jao Camp. Esse era o primeiro entre os três lodges programados para a jornada, além do Wilderness Mombo e do Wilderness DumaTau, que completariam a tríade africana.

Hóspedes observam uma manada de búfalos do jipe da Wilderness
Leopardo, um dos Big Five da savana africana

O poder da água 

É possível sentir a vida pulsando no instante que nos aproximamos do Jao Camp, que fica no coração do Delta do Okavango, o maior delta interior do planeta e Patrimônio Natural da Unesco. A região é formada por rios, canais, lagos, pântanos e ilhas, uma terra banhada pela água, a fonte da vida, que vibra na região, e a responsável pelo ciclo e pelas migrações dos animais. 

Aqui a água não corre para o mar. Toda a água que atinge o delta “vive e morre” aqui. Isso porque ela nasce, transpira e evapora a partir das chuvas torrenciais, do calor e das leis naturais que regem todo esse ambiente extraordinário. 

Chegamos ao Jao Camp numa época mágica. A água, trazida pela chuva ao norte, em Angola, tinha chegado dois dias antes. Tudo é alegria nesse período. Pessoas e animais em festa.

O conceito é tão moderno e elegante que é preciso ver de perto para entender como foi concebida toda a exuberância do espaço, que conta com um gigantesco pé-direito, o que torna os ambientes sempre frescos e belos.

Passeio de mokoro, uma canoa típica local, promovido pelo Jao Camp

Além da grande área principal, onde são servidas as refeições (deliciosas e muito bem apresentadas), o Jao Camp tem uma biblioteca, com um imponente e autêntico esqueleto de girafa, que associa toda a atmosfera do safári em Botsuana ao conhecimento que se pode adquirir nos livros ali oferecidos.

Cada uma das cinco suítes e duas vilas privativas para famílias tem sua própria estrutura independente, com piscina e todas as facilidades que um hotel cinco estrelas pode oferecer, num ambiente de luxo e extremo bom gosto.

A rotina da savana  

Mas vamos ao que interessa. Vamos ao que nos trouxe a Botsuana: a vida selvagem! Nessa região, ela é extraordinariamente abundante. Como em todos os lodges, as atividades são regidas pelo horário da natureza.

O dia começa bem cedo, pouco depois das 5 da manhã, antes de o Sol raiar. Depois de um farto café da manhã (para quem não tem fome, como eu, o hotel oferece lanches, que você pode levar no safári), partimos com o coração aos pulos, sempre na expectativa sobre o que o dia nos reservava.

A grandiosidade e doçura de uma família de elefantes se banhando no Rio Linyanti, em DumaTau
Uma família de girafas cruza a savana em busca de água
Um bom safári exige, além de uma terra rica em vida, um pouco de sorte e muita experiência dos guias. Os guias da Wilderness são, em geral, nascidos e criados em tribos próximas. Em outras palavras, eles conhecem a terra, a vida e os hábitos dos animais profundamente. 

Em Jao, vimos cachorros-selvagens em ação, caçando um pequeno antílope. A velocidade e a tática de caça desses animais impressiona. Eles trabalham em conjunto, cercando a presa sem que ela tenha chance de escapar. Caçam pela manhã bem cedinho, sempre em bandos de quatro a seis, e são maiores e mais imponentes do que eu imaginava. A caça, uma vez abatida, é imediatamente estraçalhada e dividida pelo grupo, de machos e fêmeas.

O mais estarrecedor ao presenciar uma cena dessas não é a morte da presa, já que nesse ambiente ela é apenas a refeição que permite a sobrevivência do caçador.
Um leão desfila sua majestade em DumaTau
O majestoso baobá Bob, na região de Mombo, tem 1,2 mil anos

O que chama a atenção aos nossos olhos e ouvidos, pouco habituados a essa luta por comida, é a rapidez com que tudo acontece e o estalar dos ossos sendo devorados pelos cães. Em questão de minutos, do pequeno animal, que saltava na pradaria verde instantes antes, só resta a lembrança. Carne, pele e ossos… Tudo foi transformado em sobrevivência pela vida dos cães-selvagens.

Nossos momentos em Jao ainda nos reservaram a plácida e elegante visão de grupos de girafas, os mergulhos dos reservados, porém ferozes, hipopótamos, muitas águias e pássaros e os sempre numerosos antílopes.

Os dias em Jao nos permitiram também acompanhar uma manada de elefantes e zebras se dirigindo para beber água em um lago recém-formado.

São infinitas as maravilhas na savana. As zebras são de uma beleza ímpar, desenhadas por um divino e criativo artista plástico. Mas os elefantes… Ah, os elefantes, admito, são a minha paixão. Como é maravilhoso observar essas reuniões de família, em que esses majestosos gigantes se comportam de forma quase humana, protegendo as crias e se divertindo na água do Okavango. 

botsuana safári
Um grupo de hipopótamos se banha em uma das lagoas formadas pelas planícies alagadas

Hipopótamos: os donos da água 

Nesse ambiente de água abundante, uma das atividades que você só encontra em Jao é o mokoro, um passeio de canoa entre canais e lagoas. Trata-se de uma canoa fina, que exige muito equilíbrio. Qualquer movimento brusco pode fazê-la virar e o tripulante cair na água. 

Nosso maravilhoso guia, Gift (que privilégio um guia com esse nome!), explicou tudo o que poderíamos ou não realizar no passeio. O silêncio, a placidez da água, os aromas daquele momento vão estar para sempre na minha memória. Tudo corria em paz, quando Gift nos explicou que teríamos que mudar os planos: dois grandes hipopótamos, que não foram convidados para o mokoro, tinham resolvido se banhar justo naquelas águas. Os hipopótamos são os animais mais temidos pelos africanos. 

Eles são muito territorialistas e perigosos. Apesar de se alimentarem apenas de vegetação, atacam os humanos para matar assim que sentem que seu território aquático está sendo invadido. Apesar da tensão, com destreza e rapidez, Gift deu meia-volta na pequena canoa. Nesse momento, confesso, eu mal respirava. Todos os guias são treinados e experientes para intercorrências de qualquer natureza. A ideia é que os hóspedes interajam com a natureza sem nenhum impacto, mas com toda a segurança, e os guias nos ajudam a sentir muito seguros quanto a isso.

botsuana safári
Terra da fartura 

O Sol já ia alto quando levantamos voo, deixando para trás toda a beleza da região de Jao. Um voo rápido, de 15 minutos, nos levou ao nosso novo destino, o Wilderness Mombo Camp, um dos mais cobiçados em Botsuana. Logo percebi por quê: ao pousarmos em Mombo, senti mais uma vez que a palavra “vida” era mais forte e poderosa do que qualquer outra.  

Vale saber que o Mombo Camp é um lugar muito especial, mas é bem diferente de Jao. Trata-se de uma faixa de terra seca, rodeada de grandes áreas alagadas. 

Justamente por ser mais seca, a região de Mombo tem como característica ser uma área preferida pelos grandes mamíferos predadores. Eles não gostam de áreas inundadas, nas quais precisam se molhar para caçar. Aqui basta que esperem até a presa vir beber água.
O Mombo Camp é a “terra da fartura” e percebemos rapidamente. Logo no primeiro safári, lá estavam eles, majestosos, tranquilos, seguros de sua potência. Encontramos primeiro um leopardo macho, um dos Big Five, e depois acompanhamos um cheetah macho, que circulava por uma área, marcando o território com sua urina. Esses animais precisam de grandes espaços. Em Mombo, eles se sentem confortáveis, percorrem extensas áreas e deixam suas marcas. Uma forma de dizer aos outros felinos: “Essa área é minha”.

As extensas savanas de Mombo são perfeitas também para abrigar imensas manadas de búfalos, outro dos Big Five da África. Esses animais têm cara de poucos amigos e, se confrontados, enfrentam até mesmo leões, os predadores mais mortais. Em geral, andam em grandes grupos como uma forma de proteger os búfalos jovens, os doentes e os mais velhos.
botsuana safári
O avistamento de animais próximos às tendas é um dos destaques do Mombo Camp
Suite do Mombo Camp

Voltar para o lodge depois dos safáris é sempre uma festa. Somos recebidos com muitos sorrisos, carinho e alegria pela equipe, que na chegada oferece uma toalha fresquinha, úmida e cheirosa. No calor da África, esse gesto simples tem um valor inestimável.  

Entrar na suíte do Mombo Camp é como entrar numa máquina do tempo e voltar ao início do século XX. Toda a decoração nos remete aos safáris do princípio do século passado. Sofás e cama de couro, espelhos de cristal, uma grande banheira antiga de bronze e latão, chuveiro, as torneiras e ferragens fazem a gente sentir como vivia a aristocracia inglesa dessa época. Mas não se engane, pois nesse clima total de Out of África (se você não viu esse filme, corra agora para assistir e volte depois para continuar lendo), o hotel oferece o luxo e as comodidades da vida moderna, e a tecnologia do século XXI.

Outra coisa muito positiva, e que nos traz a sensação de pertencimento, é que cada hóspede Wilderness ajuda a proteger os lugares selvagens que visita: 12% do valor de todas as reservas é destinado a conservar e proteger essas áreas. A Wilderness financia e apoia vários projetos de proteção da vida animal, como elefantes, leões e cães-selvagens. Mais de 90% de suas equipes vêm de comunidades adjacentes. Tudo para retribuir à terra o que ela oferece e garantir um futuro mais verde e próspero.

Foi em Mombo que vi os mais extraordinários baobás, a árvore sagrada da África, que me emocionam desde que eu era criança, quando li pela primeira vez O Pequeno Príncipe. 

Aqui eles são tão especiais a ponto de receber nomes. Meu preferido foi o Bob, um majestoso espécime, que tem suas raízes fincadas nesse solo há mais de 1,2 mil anos.

Reino do leão 

Partimos rumo ao DumaTau Camp, cujo significado é “o rugir do leão”, que seria nosso derradeiro lodge em Botsuana. 

Na chegada a DumaTau, o que mais impressiona é a exuberância da vegetação. Estamos na Bacia do Rio Linyanti, uma região abundante em água, formada por várias lagoas, canais e rios, sendo os principais o Kwando e o Linyanti. 

A piscina social do Wilderness DumaTau
botsuana safári: dumatau
Hóspedes fazem observação da vida selvagem no Wilderness DumaTau, às margens do Rio Linyanti
botsuana safári
Ilustração: Antônio Tavares

As oito suítes e a vila, ideal para uma família de quatro pessoas, ficam maravilhosamente posicionadas de frente para o rio. Todas têm piscinas privativas e decoração de extremo bom gosto, uma ode aos animais selvagens. Nesse, como em todos os outros 58 lodges da Wilderness na África, a energia e o aquecimento da água são à base de painéis solares. Além disso, existem sistemas especiais para um aproveitamento eficiente e sustentável de toda a água usada nos hotéis. A Wilderness utiliza um modelo sustentável de negócio, que não compromete o meio ambiente e oferece empregos, treinamentos e esperança ao grupo social em que ela se insere. E isso vale para toda a operação, das instalações às propostas de experiências dos hóspedes.

Adoro os aromas daqui. Em DumaTau, assim como em Jao, conseguimos sentir o cheiro fresco da água cristalina. Tudo provoca os sentidos. Com uma localização privilegiada, o hotel oferece, além do safári, passeios de barco. Entre os diversos programas, tivemos um almoço maravilhoso a bordo de uma embarcação, de onde pudemos ver bem de perto como os magníficos elefantes-africanos, um dos Big Five, se comportam na água. Eles amam o frescor que o Linyanti proporciona. Os elefantes são uma das estrelas do lodge: os que passam por DumaTau fazem parte da maior população do continente africano. Sem se importar com fronteiras, são a última grande manada da África.

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SUSTENTABILIDADE

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Wilderness

Missão:  dobrar a quantidade de terras que ajudam a conservar até 2030. Hoje já protegem 2,3 milhões de hectares (6 milhões de acres) de terra.

Educação
Fazem isso por meio de clubes ecológicos, currículo escolar e melhorias na infraestrutura, centros de alfabetização e outras iniciativas de educação ambiental.

Fortaleceminto de laços
O emprego e o apoio a pequenas empresas locais reduzem a dependência de recursos naturais. Isso atenua o impacto indireto sobre a natureza e a vida selvagem.

Proteção
A coexistência entre homem e meio ambiente e os programas de segurança da vida selvagem. Proteger as pessoas da vida selvagem e a vida selvagem das pessoas.

Projeto Children in the Wilderness
É uma organização sem fins lucrativos apoiada pelo grupo, cujo objetivo é facilitar a conservação sustentável por meio do desenvolvimento da liderança e da educação de crianças na África.

Projeto Wilderness Wildlife Trust
Uma entidade independente sem fins lucrativos associada ao grupo, apoia uma grande variedade de projetos em toda a África. Os projetos e pesquisadores que apoiam atendem às necessidades das populações de vida selvagem existentes, buscam soluções para salvar espécies ameaçadas e oferecem educação e treinamento para a população local e suas comunidades.

O grupo concentra seu trabalho em três áreas principais:

Pesquisa e conservação – incluindo estudos de espécies, monitoramento de populações e compreensão de conflitos entre humanos e animais.

Capacitação e educação da comunidade – como a elevação da comunidade e o programa Children in the Wilderness.

Combate à caça ilegal e gerenciamento – incluindo pesquisas aéreas, unidades de combate à caça ilegal e aumento da capacidade dos pesquisadores em geral.

Dezenove de seus Lodges já são 100% alimentados por energia solar, e o objetivo é reduzir ainda mais a dependência de combustíveis fósseis, investindo em mais energia solar e em outras fontes de energia renováveis e eficientes. Também adotam soluções eficientes em termos de água em todas as propriedades, prestando muita atenção ao uso diário para preservar cada gota de água que os ecossistemas fornecem. As robustas estações de tratamento de esgoto trabalham para proteger os lençóis freáticos naturais dos resíduos que produzem. Também dizem não aos plásticos de uso único, à água engarrafada e ao desperdício de alimentos, fornecendo aos hóspedes garrafas de água reutilizáveis e adquirindo ingredientes do cardápio e outros suprimentos localmente, quando disponíveis.

wildernessdestinations.com/impact

Clique aqui para ler a matéria na íntegra na edição 11 da Revista UNQUIET.

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