Museu reflexivo

Há algo de mítico, e sombrio, no Mona, o extraordinário centro de arte e cultura inaugurado pelo empresário australiano David Walsh na Tasmânia, o pequeno território da ilha continente

museu mona Tasmânia Austrália

Arte, arquitetura e natureza em harmonia são a receita de alguns dos melhores novos museus do planeta. Mas parece irreal que eu finalmente esteja pisando aqui. O Mona, o maior ícone da Tasmânia, o excepcional centro de arte e cultura idealizado por David Walsh, esteve na minha bucket list por muito tempo. 

Como quase todo mundo, fui apresentado à segunda maior ilha da Austrália pelo Taz, o diabo mais adorável dos cartoons e um embaixador informal de sua terra. Foi para saber um pouco mais sobre a espécie do meu personagem preferido que fiz uma das primeiras pesquisas da vida na enciclopédia de casa, num tempo em que internet e inteligência artificial só existiam nos Jetsons.  

Décadas mais tarde, quando comecei a pesquisar sobre David Walsh, já havia aposentado a Barsa e colecionava museus a céu aberto na bagagem. A Wikipedia me apresentou o perfil de um bilionário quase excêntrico, cuja fortuna fora conquistada após o desenvolvimento de um software utilizado nos centros de apostas de corridas de cavalo e outros esportes. Apesar de a sigla para Museum of Old and New Art soar um pouco pretensiosa, a pegada disruptiva dos eventos e festivais com sua assinatura davam a ele uma aura de enfant terrible, quase um diabo-da-tasmânia.

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The Tasman, a Luxury Collection Hotel, Hobart

Na atraente Hobart, capital da Tasmânia, o The Tasman, a Luxury Collection Hotel, funciona como ponto de convergência das muitas qualidades que a pequena cidade reúne. Localizado à beira-mar, o hotel habita edifícios georgianos e art déco da década de 1840 instalados entre o moderno Pavilion Building, onde fica a suíte Aurora, na cobertura com terraço e vista para o porto, e o Heritage Building, onde a arquitetura original foi preservada, entre lareiras restauradas, móveis de época e obras de arte. O hotel conta, ainda, com um restaurante de inspiração italiana, o Peppina, que prestigia ingredientes locais e frescos no melhor estilo farm to table, e um charmoso bar.

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museu mona Tasmânia Austrália
Obra Girls Rules

Minhas impressões se desconstroem quando abordo o assunto com os amigos que me acompanham na visita ao Mona, em um drinque no novíssimo The Tasman, um charmoso hotel butique, inaugurado há apenas um ano na charmosa Hobart. A capital da Tasmânia tem um quê de Reykjavik (a hypada capital da Islândia) e exala uma aura cosmopolita, apesar das dimensões diminutas. Habitués da Tasmânia e dos festivais e da bienal de arte organizados pelo museu me contam entusiasmados que David pode ser visto bebendo em pubs da ilha ou circulando entre os palcos de seus festivais de música no bom e velho descompromissado jeito de ser australiano. Todo mundo aqui parece ter alguma história que envolve uma esbarrada no fundador do Mona.

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Obra Grotto, de Randy Polumbo

Experiência artsy completa

Apesar da diferença de fuso horário, reforçamos as xícaras de café antes de seguirmos em direção ao píer de onde sai o MR-I, o ferry que nos levará ao museu. O barco, coberto por uma camuflagem de pegada moderna, não passa despercebido no Rio Derwent. As escadas que levam ao deck superior, onde um bar serve vinhos das propriedades de David, são decoradas com grafites de artistas da urbaníssima Melbourne. Estátuas de ovelhas fazem as vezes de bancos panorâmicos, vigiadas por uma imensa vaca, que parece admirar a vista. 

A paisagem é impactante e a duração do minicruzeiro foi planejada para garantir que se explorasse a arte do barco, brindando entre amigos com um surpreendente vinho australiano. O desenho das colinas de Hobart, com a baía formada pelo encontro do Rio Derwent e o mar, é de tirar o fôlego, e a primeira vista da ilhota do museu revela a arquitetura contemporânea de concreto armado, misturada à vegetação e às rochas de uma montanha que vai dar na água. Uma passagem secreta se abre e um grande corredor, saído das memórias de algum arqueólogo egiptólogo, se revela. É através dela que chegamos ao elevador que nos leva ao piso subterrâneo do Mona.  

MR-I, os ferries que levam os visitantes até o museu
museu mona Tasmânia Austrália
Parede com obras no Mona

Imersão no universo de David Walsh

A experiência do Mona é uma viagem ao universo de David Walsh. O visitante é tragado por sua estética hiperbólica e, possivelmente, se sentirá incomodado por sua fascinação pela morte. A grandiosa construção, em uma caverna de diversos níveis, abriga obras que remetem a temas, por vezes, sombrios. Por isso, os bares, lounges e áreas para descanso são fartos. Algumas são verdadeiras instalações, com artistas ao piano, em bandas ou DJs, produzindo música em tempo real, o que parece ser a especialidade dos australianos, vide o pavilhão do país na última Bienal de Veneza, assinado pelo celebrado Marco Fusinato, presente aqui também. No Mona, David Walsh utiliza a arte sonora para nos dar espaço para refletir sobre suas inquietações. 

Preciso mencionar que não há painéis ao lado das obras. Assim que chegamos, é preciso baixar o The O (mona.net.au/museum/the-o), um aplicativo que dá acesso às informações e também reserva algumas exposições com limite de visitantes. Logo na entrada, uma área escura revela esculturas de grandes nomes contemporâneos, incluindo algumas do belga Jan Fabre, um dos meus artistas preferidos. Nas paredes, fotos de fotógrafos sul-americanos e asiáticos abordam o erotismo e, claro, a efemeridade. No meio de imagens contemporâneas, um Monet e um Matisse aparecem em destaque. O Mona foi projetado como uma passagem das trevas ao céu, como os tons desde o chiaroscuro até a Luz, usando os termos dos pintores do século XVII.

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A obra Crucifix, de Sidney Nolan

Uma galeria de Cindy Sherman surge para trazer um pouco de luminescência em meio à crítica dos costumes, como se nos convidasse a refletir sobre as idiossincrasias do dia a dia. Cloaca Professional, do belga Wim Delvoye, remete a um sistema digestivo mecânico, capaz de transformar comida em fezes artificiais, em uma crítica à cultura do consumismo e ao excesso de desperdício do nosso modo de vida. Snake, da australiana Patricia Piccinini, é hiper-realista, uma cobra coberta por pelos, e com olhos humanos e expressão intimidadora, parece nos desafiar sobre a ideia de perfeição estética. 

A instalação de The Grotto, do americano Matthew Barney, é composta de sete salas, com objetos elaborados e simbólicos, que exploram a mitologia, o corpo e o simbolismo cristãos da cultura eurocêntrica. Já Black Balls, do festejado britânico Anish Kapoor, é formada por milhares de esferas pretas, de efeito hipnotizante e imersivo, confundindo nossa noção de profundidade e perspectiva. E Untitled, de Ai Weiwei, o chinês mais popular da atualidade, convida a experimentar um pouco das condições desumanas experimentadas por presos políticos de todo o mundo ao se transitar em 21 celas prisionais, moldadas à mão pelo artista. 

Quando chego ao andar superior, imagino que a experiência catártica e sombria se esvaiu. De repente, reconheço a batida de Proud Mary em uma instalação posicionada em uma iluminada sala de estar. Nela, o australiano Daniel Mudie Cunningham dança o hit de Tina Turner em três cenários, incorporando três personas distintas. Sem perceber, me sento em um sofá que faz parte de outra obra, chamada My Beautiful Chair, assinada por Greg Taylor, também australiano. De propósito, instalada bem na frente da solar Proud Mary, uma máquina real de eutanásia indica os sintomas experimentados pelo corpo durante a prática do procedimento que leva ao término da vida. Fico hipnotizado, entre os movimentos de dança frenética e a tela, que indica que, a partir daquele momento, meu cérebro acaba de morrer. 

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White House, de Ai Weiwei

Quase atordoado, sigo buscando a luz e dou de cara com uma sala com 30 monitores antigos, nos quais as vozes de fãs de Madonna entoam Open Your Heart e Like a Prayer à capela. Trata-se de The Queen, assinada pela sul-africana Candice Breitz. Meus amigos recomendaram que, se a experiência pesasse, essa instalação cumpriria o papel de animar. E é para lá que eu e muitos retornam para ver e ouvir a cantoria desafinada e apaixonada, típica dos fãs, que alternam hits da Rainha do Pop em loop eterno. 

O The O alerta que chegou a minha vez de ver a múmia e o sarcófago de Pausiris, uma relíquia do período ptolemaico, que data de 100 anos de Cristo. O monitor me avisa para tomar cuidado na entrada porque o tanque de água onde a múmia flutua é realmente profundo. A sala é escura, com iluminação rebatida, e recebe somente um visitante por vez. Ao lado do sarcófago, uma instalação visual reflete pergaminhos e um holograma com imagens da múmia em seu estado original. Completamente cercado por água, foi preciso me manter alerta para não pisar em falso, enquanto assimilava projeções em reverência aos restos mortais de Pausiris.
Sigo por outro labirinto até dar de cara com o sol. Incomodado com a luz forte, vejo de longe as famosas estruturas do americano James Turrell. O caminho entre elas é conectado por passarelas, que cobrem áreas verdes abundantes. Perto dali, alguns bares e restaurantes dão vista para o palco principal do Mona. É aqui que grande parte dos visitantes vem passar o final do dia. 

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Museum of Old and New Art – MONA

Provocação e disrupção da arte e da vida 

Meu aplicativo deixa claro que passei por quase todo o acervo, cruzando intermináveis labirintos, que formam deleites visuais e, como toda boa arte, geram incômodo e reflexão. Meus amigos estão curiosos para saber sobre a minha experiência e só consigo dizer que é peculiar que um bilionário tenha se envolvido tanto na experiência de seu centro de artes. Ficou claro que a essência de David Walsh foi incluída em cada detalhe do museu. Do momento em que embarcamos no ferry, na Baía de Hobart, aos restaurantes e bares de extrema qualidade. Do número impressionante de obras, abrangendo praticamente todos os períodos da história da arte, aos temas que costuram sua curadoria, com ênfase na reflexão da efemeridade.

 
Parafraseando o filósofo Byung Chul-Han, em seu ensaio A Salvação do Belo, algumas experiências artsy parecem ter sido criadas para gerar conteúdos em rede, com instalações visuais e com um alto compromisso com a estética do belo, sem atrito, arredondadas e feitas para refletir o reflexo do espectador. O Mona, de David Walsh, proporciona justamente o contrário. O belo está aqui para gerar pequenos alívios e, por que não, doses de dopamina, necessárias para que a reflexão sobre a nossa própria existência não nos torne niilistas.

Graças a essa jornada, além do Taz, tenho na Tasmânia agora dois diabos preferidos. 

Ilustração: Antônio Tavares

mona.net.au

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SUSTENTABILIDADE

Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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The Tasman (Grupo Marriott)

Para apoiar a resiliência e o desenvolvimento sustentável dessas comunidades, os hotéis da rede Marriott investem na vitalidade de suas comunidades e recursos naturais, além de fornecer ajuda e apoio, especialmente em momentos de necessidade.

Vitalidade das Crianças
Mobilização de hospedes e associados no fornecimento de suporte a um seleto grupo de organizações sem fins lucrativos que lideram o caminho para apoiar crianças em todo o mundo. 

Envolvimento da Comunidade
“Servir Nosso Mundo” é um dos valores fundamentais e orienta como fazem negócios. Através do voluntariado, arrecadação de fundos, dinheiro e doações em espécie, os hotéis e associados em todo o mundo estão empenhados em fazer o bem em suas comunidades e causar um impacto significativo.

Auxílio em desastres
Quando ocorre um desastre, trabalham com os hotéis locais e organizações de socorro estabelecidas para avaliar, responder e fornecer ajuda.

Investimento em Capital Natural
Investimentos em iniciativas de biodiversidade, como restauração de corais, proteção de florestas tropicais e esforços de reflorestamento.

Reduzir os impactos ambientais
Minimização da pegada ambiental gerenciando de forma sustentável o uso de energia e água, reduzindo os resíduos e emissões de carbono e aumentando o uso de energia renovável. Emprego de tecnologias inovadoras para planejar, implementar, rastrear e comunicar como operar de forma responsável para mitigar os riscos relacionados ao clima, beneficiando os negócios e as comunidades nas quais operam.

Fonte responsável
O objetivo é reduzir o impacto ambiental e social negativo das atividades comerciais, concentrando-se no fornecimento sustentável, responsável e local.

Juventude
A Marriott trabalha para ajudar a resolver a questão global do desemprego juvenil e garantir um futuro melhor para a juventude do mundo, fazendo parcerias com organizações sem fins lucrativos para identificar, treinar e orientar jovens para carreiras significativas no setor hoteleiro.

“Viajar é uma das ferramentas mais poderosas para promover a paz e o entendimento cultural. Com uma presença global, é imperativo que realmente entendamos, respeitemos e acolhamos a todos. Por meio de parcerias, treinamento e educação, trabalhamos para elevar as viagens como catalisadoras da paz e da compreensão cultural – garantindo que nossos hotéis sejam um local de inclusão e conforto para todas as pessoas.”

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