“O maior luxo da vida é a sua saúde.” Era essa a frase que encerrava a carta que recebi, em agosto de 2019, do The Ranch Malibu, o refúgio escolhido para a minha primeira experiência em um retiro de bem-estar. Um dos mais prestigiados espaços de wellness dos Estados Unidos, ele é meticuloso em cada detalhe. A preparação começa semanas antes da chegada, com a recomendação de eliminar álcool, açúcar, cafeína, refrigerantes e tabaco da rotina e um aviso direto aos futuros hóspedes: os primeiros dias de detox podem trazer dores de cabeça, náuseas e oscilações de humor.
Há também outra dica curiosa: avisar familiares e amigos sobre a ausência de contato. Celulares e laptops não são confiscados no check-in, mas seu uso é desencorajado. A proposta é simples e radical: pausar. No mês que antecede a viagem, os hóspedes recebem orientações sobre exercícios preparatórios, ajustes na rotina de sono e práticas de meditação e awareness.
Confesso que achei tudo um pouco excessivo, mas bastaram poucas horas no The Ranch para entender que cada prescrição tinha uma razão. Os hikes somavam pelo menos 20 km por dia. O despertar acontecia de madrugada. A alimentação era integralmente baseada em vegetais, e sem cafeína, e o chamado Nobre Silêncio era esperado nos espaços comuns.
Benefícios Exclusivos UNQUIET: Spirit Rock, Califórnia, US
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Spirit Rock
Benefício: Amenity Especial de Boas Vindas, criado sob medida, para participantes dos programas retreats superiores a cinco noites.
Use o código: UNQUIET
Validade: Setembro de 2027
Resiliência e disciplina
Desde o check-in, ficou evidente que o The Ranch combina a hospitalidade de um hotel de luxo com o rigor de uma clínica de medicina preventiva. Havia shots de clorofila na recepção, avaliações médicas completas e até a inspeção das bagagens para evitar “contrabandos” gastronômicos. Segundo a equipe, não são raros os hóspedes tentando esconder leite condensado em frascos de condicionador… Tudo envolto em uma estética californiana minimalista: tons de areia, madeira clara, linhas discretas e as montanhas de Santa Mônica compondo o cenário.
Antes mesmo de receber a chave do quarto, passei por exames laboratoriais e avaliações físicas. Tudo seria repetido na saída para medir os efeitos da semana. O grupo tinha apenas 25 participantes, a capacidade máxima do retiro.
Naquela noite, sem telefone, computador ou conversas, recolhi-me cedo. Levava comigo um exemplar de Sapiens, de Yuval Noah Harari, imaginando que seria uma boa companhia literária para uma semana de introspecção. Descobri rapidamente que havia subestimado o cansaço, pois, nos dias seguintes, segurar um livro de mais de 500 páginas depois do jantar seria um desafio maior do que qualquer trilha.
Na primeira manhã, o som delicado de um sino ecoou pela propriedade às 5 horas. O desjejum era leve. O café preto, inexistente. A política de no coffee talvez tenha sido o meu maior desafio. Vieram as dores de cabeça, a irritabilidade e a sensação incômoda de um corpo aprendendo novos hábitos. Um integrante da equipe resumiu a experiência em uma frase, que não esqueço: “É menos sobre a cafeína e mais sobre a disciplina”. No momento, detestei ouvi-la. Hoje percebo que ele tinha razão.


O programa inteiro gira em torno desta ideia: as mudanças profundas exigem uma nova relação com a disciplina. Ainda mantenho pequenos rituais aprendidos ali, como fazer a cama todas as manhãs e praticar períodos de jejum. São gestos simples, mas funcionam como lembretes silenciosos de que a disciplina também é um músculo ‒ e precisa ser exercitado.
Eu e eu mesmo…
As caminhadas eram fantásticas. Não só pelas vistas de Malibu, com o mar de um lado, a montanha do outro, mas também por estar conectado comigo mesmo por tanto tempo. Harmonizar meus pensamentos com meus movimentos. Prestar atenção na respiração. Perceber como cada músculo e cada nervo trabalham em conjunto. Os pensamentos vinham em ondas, algumas suaves, algumas turbulentas, algumas quase como um tsunami.
Durante a semana, comecei a notar que não só estava me sentindo melhor fisicamente, mas me conhecendo mais. Foi quase como desenvolver uma nova amizade, só que comigo mesmo, com o meu corpo.

Nas massagens e tratamentos da tarde, aprendi a arte do permitir. Com o passar dos dias, meu corpo parecia aprender a receber a pressão e os movimentos de forma diferente. Até minha relação com a comida mudou. Sentia meu corpo absorvendo os nutrientes. Ao final, surgiu o sentimento de conquista. Os exames mostraram a prova dos esforços: perdi
4 kg, o colesterol baixou e alcancei vários outros indicadores positivos.
Confesso que fiquei impressionado por como sete dias tiveram tanto efeito tangível no meu corpo. O verdadeiro ganho, porém, não foi físico. Foi na alma. Comecei a entender o poder de estar presente. Comecei a entender que não somos nossos pensamentos, já que consegui passar a observá-los como em terceira pessoa. Entendi que, se eu tivesse como prioridade estar bem, faria escolhas melhores. Foi a partir desse momento que o wellness passou de uma trend para uma filosofia de vida. É a saúde preventiva. É a longevidade. Foi assim que comecei a perceber que cuidar de mim dessa maneira era também uma forma de ativismo sutil, algo que, cinco anos depois, seria o catalisador da minha mudança de carreira.



Costumo brincar que já fui “the king of the night” e hoje sou “the king of having a good night”. Os retiros foram um potencializador para as minhas mudanças de hábitos e de vida. Viver no silêncio é cura. Desde o Ranch, já participei de dezenas de retiros. Sem telefone, sem TV e computador, sem livros e, em alguns casos, sem poder falar com ninguém, a única saída é buscar o encontro consigo mesmo, olhar para dentro e (re)criar uma relação de intimidade com o corpo e a alma.
O silêncio como prática
Robert Chubrich, filantropo e investidor norte-americano, voltou ao Spirit Rock, na Califórnia, três vezes em uma década. Não por insatisfação com a experiência anterior, mas pela consciência de que o silêncio não é um destino. É uma prática. “Os retiros são a base que integra todas as outras modalidades de cura que faço. Voltar é uma forma de aprofundar o autoconhecimento e honrar tudo aquilo a que tive acesso.” Também destaque entre os hóspedes ilustres e as pessoas que buscam mudanças reais na vida, o Spirit Rock, localizado em Woodacre, segue o protocolo Vipassana: dez dias de Nobre Silêncio, que envolve não apenas deixar de falar, mas aquietar também a mente e os estímulos externos.
Robert conta que o momento mais difícil acontece poucas horas depois de entregar o telefone no check-in. Surge uma inquietação quase física: a garganta parece coçar e a vontade de falar se torna irresistível. Com o passar dos dias, porém, o silêncio deixa de ser ausência e passa a ocupar um espaço inesperado. “As refeições viraram o acontecimento do dia. Eu chegava a contar os grãos de quinoa no prato.”


Área para massagens do Kalamaya

O que ele trouxe de Woodacre não foi a paz no sentido vago da palavra, mas um hábito. Inspirado na meditação Metta, ele passou a substituir os julgamentos automáticos por uma breve oração de gentileza, especialmente no lugar onde menos imaginava precisar dela: o trânsito de Los Angeles. “‘May you be well. May you be happy’. Essa prática tem me ajudado a não desregular o meu sistema nervoso por qualquer coisa”, afirma.
Ele faz apenas uma ressalva: os retiros longos não são para todos. “Nem todo trauma está pronto para embarcar em dez dias de silêncio. Para algumas pessoas, isso pode até atrapalhar o processo terapêutico. Vale experimentar o Nobre Silêncio, mas em doses homeopáticas. Você descobre aspectos de si que talvez nunca tenha observado.”
O que a ciência confirma
Estudos científicos vêm demonstrando que o silêncio produz efeitos mensuráveis sobre o corpo e o cérebro. Eles apontam a redução da pressão arterial e dos níveis de estresse, além de benefícios para regiões ligadas à memória, ao aprendizado e à neuroplasticidade.
Para o neurocientista Michel Le Van Quyen, autor de Cérebro e Silêncio, existem duas formas igualmente importantes de silêncio: a exterior (marcada pela ausência de ruído) e a interior (quando o fluxo incessante de pensamentos começa a desacelerar). É nesse espaço, segundo ele, que o cérebro encontra condições para se reorganizar e recuperar a energia.



Um guia para desacelerar
Há lugares em que o silêncio não é um detalhe da experiência, mas a sua própria razão de existir.
Eremito | Úmbria, Itália
Instalado em um mosteiro do século XIV, cercado por 3 mil hectares de natureza preservada, ele dispensa wi-fi, televisão e sinal de celular. À noite, o jantar é servido à luz de velas, em um silêncio absoluto, enquanto cantos gregorianos ecoam pelo refeitório. Como resumem os proprietários: “Antes o silêncio era um luxo para poucos. Hoje as pessoas chegam precisando dele”.

Ananda in the Himalayas | Uttarakhand, Índia
No antigo palácio do marajá de Tehri Garhwal, com vista para o Rio Ganges, o silêncio faz parte dos programas personalizados de aiurveda. Em sânscrito, recebe um nome próprio: “mouna”.
Six Senses Vana | Dehradun, Índia
Um retiro contemporâneo, que integra aiurveda, ioga e terapias integrativas em meio à floresta. Cada programa é desenhado individualmente, com consultas médicas, tratamentos diários e acompanhamento contínuo.
Kamalaya | Koh Samui, Tailândia
Construído ao redor de uma caverna onde monges budistas meditaram por séculos, o retiro resume sua filosofia em uma frase simples: “Você pode estar sozinho e ainda assim cercado de distrações. O silêncio não é ausência. É presença”.
Matéria publicada na edição 24 da Revista UNQUIET.
SUSTENTABILIDADE
Saiba mais
Spirit Rock
Ações ambientais
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Conservação de 411 acres de natureza – preservação de bosques de carvalhos, campos nativos e habitats da fauna local.
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Restauração de ecossistemas – remoção de espécies invasoras e recuperação da vegetação nativa da Califórnia.
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Gestão sustentável da água – irrigação eficiente, jardins com plantas nativas e redução do consumo de água.
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Energia renovável – uso de painéis solares para abastecimento parcial das instalações.
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Redução de resíduos – compostagem, reciclagem e eliminação gradual de plásticos descartáveis.
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Alimentação vegetariana – refeições predominantemente vegetarianas, com ingredientes orgânicos e de produtores locais.
Ações sociais
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Bolsas de estudo (Scholarships) – apoio financeiro para ampliar o acesso aos retiros de meditação.
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Programa de Diversidade, Equidade e Inclusão – retiros e cursos voltados para comunidades negras, indígenas, asiáticas, LGBTQIA+ e outros grupos historicamente sub-representados.
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Community Dharma Leader Program – formação de líderes comunitários em práticas de mindfulness e compaixão.
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Parcerias com agricultores locais – compra de alimentos de pequenos produtores da Califórnia.
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Voluntariado (Seva) – hóspedes e participantes podem contribuir voluntariamente em atividades do centro, fortalecendo a comunidade.


























































































































































































