Eram 5h50 da manhã. Ancorados no Rio São Lourenço, os passageiros do barco Akaia já haviam tomado café da manhã e vestiam os coletes salva-vidas para embarcar em um pequeno bote de alumínio chamado Coração Pantaneiro. As orientações foram dadas pelo guia e biólogo Fred Crema, que acompanhava o grupo. Com cuidado, todos atravessaram uma pequena passarela presa ao barco e entraram no bote, abastecido com garrafas de café, coolers com refrigerantes e potes com frutas.
Devidamente acomodados, lá fomos nós, rapidamente, pelo rio, sob a luz rosada do dia, que clareava. Começava ali a minha experiência no Pantanal River Cruise ‒ o primeiro cruzeiro no Pantanal a realizar o trajeto entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, de Porto Jofre a Corumbá.
Não era a minha primeira vez nessa região, mas era a primeira em que me hospedava em um barco que me mostraria um novo Pantanal, ao longo de um rio.
O Akaia é um barco de madeira, clássico da região pantaneira, com propulsão mecânica e sete cabines, que acomodam, com conforto, até 14 passageiros. A tripulação é formada por dez profissionais, a maioria da própria região. A exceção é o guia, que veio de São Paulo, estuda o Pantanal há muito tempo e acabou se tornando um pantaneiro de coração.
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Éramos sete passageiros: três australianos, um britânico e três brasileiros. Por ser pequeno, o barco permitia que a tripulação estivesse sempre atenta a cada um de nós. Uma dupla cuidava do serviço de restaurante e procurava agradar aos gostos mais variados.
Estar embarcada traz uma grande vantagem para a observação da vida selvagem. Essa é uma das regiões com maior concentração de animais por metro quadrado no mundo! Por isso, a diferença no tempo de deslocamento entre quem está embarcado no rio e quem está hospedado em terra pode parecer pequena, mas faz muita diferença para quem deseja respirar mais profundamente a natureza, tem pouco tempo de viagem ou busca um melhor posicionamento para observar os animais nos primeiros minutos do dia ‒ quando, por exemplo, é possível avistar um grande felino em um tronco à margem do rio. E foi exatamente isso que aconteceu com o nosso grupo.
A rotina da onça
Saímos logo cedo do ponto de ancoragem do Akaia, no Rio São Lourenço, e a bordo do bote entramos pelo Corixo Negro, um famoso braço de rio na região. Poucos minutos depois, avistamos a primeira onça-pintada da viagem.

Embora tivéssemos saído do barco antes das 6 da manhã, quando encontramos a onça já havia três botes bem posicionados entre nós e o felino, bloqueando a nossa observação. Tivemos de lidar com a interferência tanto para observar o animal quanto para captar as imagens. Menos de uma hora depois, mais de 20 botes haviam se aproximado, e terminamos praticamente aprisionados junto à margem, diante do local onde a onça repousava.
Estar a poucos metros de uma onça-pintada provoca uma emoção indescritível, que se confunde entre o lúdico e o real. A onça é o predador da cadeia alimentar na região e, embora os seres humanos não façam parte do circuito, ela poderia perfeitamente nos incluir, caso quisesse.
No nosso bote, ainda impactados pela beleza e pela força daquele animal de mais de 120 kg, com uma força mandibular de mais de 150 kg, observávamos os sinais de que ela alternava entre o sono e a preguiça, sem demonstrar o menor desconforto com a presença de mais de uma centena de pares de olhos, que a observavam simultaneamente, como se todos estivéssemos magnetizados por aquela oportunidade.



Os observadores, quase em uma coreografia organizada, disparavam o obturador das câmeras fotográficas ao mesmo tempo, ao seu mais leve movimento sobre o tronco de uma árvore caída bem próxima do corixo. Ficamos cerca de duas horas diante dela, em silêncio, até que ela resolveu se levantar e deixar a cena.
Ao longo do dia, passeamos de barco pelos Rios Cuiabá, Piquiri e Três Irmãos. Também exploramos lindos corixos, como o Corixo da Ilha, o São Pedrinho, o Corixo Negro, e o próprio Rio São Lourenço. Atravessamos aguapés e camalotes, observamos revoadas de aves e encontramos diversos animais terrestres.
Para coroar a aventura, fomos brindados não apenas com a observação da Medrosa ‒ a onça-pintada que vimos sobre o tronco pela manhã ‒, mas também com a Marcela, nadando, a Kayvera, avistada no mato e mais tarde deitada no barranco, e o Pantaneiro, que estava na praia e depois entrou na água, diante de nós.
Ali todos os indivíduos têm nome. A identificação é feita principalmente pelo padrão único de suas manchas, chamadas rosetas. Assim como uma impressão digital é única, o desenho no corpo de cada animal também é exclusivo, o que permite aos pesquisadores catalogar, reconhecer e monitorar cada um deles.

Existem também as onças-pretas (ou panteras-negras), embora elas não sejam encontradas nessa região. É importante saber que, na verdade, são indivíduos melânicos e que também possuem o padrão de rosetas, visível apenas sob uma luz adequada. Outra curiosidade é que o leopardo-africano apresenta na pelagem um padrão diferente e de fácil reconhecimento. Ao contrário das onças-pintadas brasileiras, ele não tem uma pinta no interior das rosetas.
Inverno pantaneiro
Voltamos ao barco para almoçar e esperar que o dia refrescasse um pouco, já que a temperatura média ‒ considerando que a viagem aconteceu durante o inverno ‒ variava entre 27 e 30 °C. Todas as tardes, voltávamos ao bote para uma nova excursão pelo rio e pelos corixos.
O dia foi repleto de sons e avistamentos de pássaros: registramos 66 espécies de aves pela manhã e outras 44 à tarde. Depois do jantar no barco, o nosso guia conversava com os passageiros, compartilhando curiosidades sobre a biologia local. À noite, o céu escuro, livre da iluminação das cidades, nos brindava com uma imensidão de estrelas.

Ao lembrar dos três barcos que haviam atrapalhado a nossa observação na véspera, embarcamos no bote Coração Pantaneiro 15 minutos mais cedo na manhã seguinte e seguimos rumo ao Corixo Negro. O dia ainda não havia clareado, e ver a luz do Sol pintar o céu com tons intensos de laranja foi um presente que recebemos. Quando chegamos ao ponto onde a onça estava no dia anterior, ela já não se encontrava ali. Ao longo do dia, porém, vimos outras, identificadas como Makala, Jaju, Kayvera e Baguá. Avistamos 78 espécies de aves pela manhã e outras 45 durante a tarde. No Pantanal, só não vemos muitas aves durante o dia se estivermos de olhos fechados.
Encontro das águas
Seguimos nossa navegação fluvial a bordo do Akaia, rumo a Corumbá, até alcançarmos o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense. Pelo caminho, muitos reflexos na água e revoadas de garças e colhereiros nos faziam sentir parte de uma natureza exuberante.
Ao nos aproximarmos da Serra do Amolar, a paisagem mudou, e nos deparamos com a majestosa e remota cadeia de montanhas localizada na borda oeste do Pantanal. Com cerca de 80 km de extensão, a serra fica na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, próxima à fronteira com a Bolívia, e possui picos que chegam a quase 1.000 m de altura.
Era o terceiro dia da nossa jornada, e a programação seria diferente. Logo cedo, desembarcamos e caminhamos por 3 km em uma trilha na Reserva Acurizal.


Diferentemente dos outros dias, quando observávamos a natureza a partir do rio, naquele momento olhávamos o rio a partir da terra. Conectamo-nos com a natureza regional em terra firme e ouvimos as explicações de uma pesquisadora. Ela utilizava os levantamentos da equipe local como base para as atividades dos Programas de Conservação da Natureza.
Caminhamos pela trilha do macaco zogue-zogue e conseguimos avistá-lo, embora o encontro tenha sido muito rápido. A trilha, além de oferecer possibilidades de muitos avistamentos, apresenta uma grande densidade de cipós, de formatos bastante inusitados.
Na barra do Rio São Lourenço, visitamos o projeto Renascer Pantanal, onde é desenvolvido um artesanato à base da fibra do aguapé. O material é trançado por artesãs ribeirinhas, que, dessa forma, promovem o desenvolvimento econômico local e preservam as tradições culturais. Durante o almoço, a bordo e imersos na paisagem observada no terraço do barco, fomos surpreendidos pelo encontro das águas no Pantanal: o Rio São Lourenço, de águas marrons e carregadas de sedimentos, encontrava-se com as águas escuras do Rio Paraguai.



Ao fundo, a emblemática Serra do Amolar emoldurava um cenário digno de cartão-postal. A cadeia de morros, com cerca de 80 km de extensão, está localizada no norte do Pantanal, na divisa entre Mato Grosso do Sul (na altura de Corumbá) e Mato Grosso, próxima à fronteira com a Bolívia. Tivemos a oportunidade de visitar uma região de difícil acesso e conhecer a sede do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, uma unidade de conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O parque tem como objetivo proteger uma área de grande riqueza ecológica, considerada Patrimônio Natural Mundial pela Unesco.
O Pantanal apresenta uma extrema fragilidade e é suscetível a queimadas severas e incêndios de grandes proporções. Naquela região, o solo acumula antigas camadas de matéria orgânica, que ao secar mantêm brasas ocultas difíceis de extinguir. Com a escassez de chuva, descargas elétricas durante tempestades secas podem iniciar focos de incêndio de forma espontânea, o uso irregular do fogo para renovar pastagens e as queimadas, autorizadas ou não, muitas vezes fogem do controle devido a ventos fortes e à falta de aceiros adequados. Por isso, o monitoramento constante e a agilidade na contenção do fogo são imprescindíveis.

Percorremos 40 km de barco até a Lagoa Gaíva, em Corumbá, onde vimos magníficos desenhos rupestres ‒ petroglifos cuja datação, entretanto, ainda não é conhecida.
Depois do almoço no barco, fizemos um safári fluvial próximo à sede do Parque Nacional do Pantanal. O entardecer foi de tirar o fôlego, diante de tanta beleza. Jantamos enquanto a jornada continuava rio abaixo, agora navegando pelo Rio Paraguai.
Grande parte dos turistas vai ao Pantanal para ver onças-pintadas. Na prática, porém, não é essa a experiência que mais nos toca profundamente. Ao contabilizar os 700 km de navegação pelos rios e os 170 km percorridos de bote, durante os quais observamos sete onças-pintadas diferentes e 152 espécies de aves, além de toda a rica fauna pantaneira, concluo que o último dia dessa imersão foi, para mim, o maior destaque. Durante essa parada a bordo do Coração Pantaneiro, não estávamos sozinhos. Aguapés, vitórias-régias entre camalotes, diversos peixes, de cores e formatos diferentes, e uma raia nos saudaram. Um improvável casal de araras-azuis cruzou o céu, enquanto uma família de bugios nos observava de uma grande árvore.

Percorremos o Rio Paraguai-Mirim e o Rio Taquari. Pude mergulhar em suas águas cristalinas e admirar o Pantanal em todo o seu esplendor. Foi impossível resistir a um mergulho inesquecível em um dos lugares mais remotos e bonitos do Brasil.
Matéria publicada na edição 24 da Revista UNQUIET

























































































































































































