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Por Beatriz Yunes Guarita, com fotos de acervo pessoal
Há muitas maneiras de visitar a Bienal de Veneza.
Mas poucas transformam, de fato, a experiência.
Atravessar esta edição ao lado do grupo da Bienal de São Paulo, em diálogo com mecenas e curadores do Centre Pompidou, desloca o olhar. A visita deixa de ser apenas um percurso entre pavilhões e se torna uma conversa contínua, feita de interpretações, silêncios e descobertas compartilhadas.
Talvez seja justamente esse o gesto que esta Bienal propõe.
Sob o título In Minor Keys, a 61ª edição abandona o espetáculo e se aproxima de outra frequência, mais baixa, mais lenta, mais sensível.
Longe das grandes afirmações visuais que marcaram outras edições, esta é uma Bienal que pede tempo, que exige atenção e não se revela de imediato.
Concebida por Koyo Kouoh, a mostra nasce de um gesto raro. Após a morte da curadora, em maio de 2025, sua equipe manteve o projeto vivo, preservando o espírito da proposta original. Há algo de profundamente comovente nessa decisão, como se toda a exposição fosse, ao mesmo tempo, presença e permanência.
Aqui, trabalhar em “tons menores” não significa diminuir.
Significa depurar.
Uma Bienal que se atravessa

Se os Giardini organizam a experiência em fragmentos, o Arsenale a transforma em percurso.
O antigo complexo naval, longo, contínuo, quase silencioso, funciona como um corpo expositivo onde as obras não se impõem, mas se acumulam. Caminhar por ele é entrar em um ritmo distinto, em que o tempo desacelera e a percepção se ajusta.
Instalações imersivas, paisagens sonoras e materiais frágeis constroem um ambiente em que o olhar deixa de buscar impacto e passa a sustentar presença.

É ali que In Minor Keys deixa de ser conceito e se torna experiência.
Essa expansão não se limita ao Arsenale. Ela atravessa a lagoa.
A Bienal se estende para além da Veneza insular e inclui Forte Marghera, na parte continental do município. O deslocamento é sutil, mas decisivo: sair do centro histórico saturado para encontrar outros ritmos, outras escalas, outras formas de relação com a cidade.
Se Veneza carrega a memória, Forte Marghera introduz outra ideia de presente.
Pavilhões e novas centralidades

Essa mudança se reflete também nos pavilhões.
A criação de novos espaços e a presença de países como o Marrocos, que participa com seu primeiro pavilhão nacional na Bienal de Arte de Veneza, apontam para uma mostra em transformação, menos centrada, mais distribuída.
No Reino Unido, Lubaina Himid constrói uma narrativa que reposiciona histórias silenciadas com uma força contida, mas incontornável.
Na Argentina, Matías Duville apresenta paisagens instáveis, quase em dissolução, territórios que escapam de qualquer fixação.
No Egito, Armen Agop propõe o silêncio como linguagem, criando uma pausa rara no percurso.
O Brasil articula corpo e território com intensidade e sensibilidade, reunindo Rosana Paulino e Adriana Varejão em uma leitura que atravessa memória, violência histórica e reconstrução.
Já o pavilhão francês, com Yto Barrada, constrói um ambiente onde natureza, memória e conhecimento se entrelaçam com delicadeza.
Estados Unidos, tensão e representação
No Pavilhão dos Estados Unidos, a escolha de Alma Allen se inscreve em um contexto de tensão.
O artista apresenta Call Me the Breeze, exposição que reúne obras recentes e novas esculturas criadas para o espaço. Sua presença na Bienal ganhou outra dimensão justamente pelo debate em torno do processo de seleção norte-americano, marcado por controvérsias institucionais e mudanças de orientação.
Conhecido por esculturas orgânicas em madeira, pedra e bronze, Allen trabalha a matéria como transformação. No pavilhão, essa linguagem ganha escala e se aproxima de ideias como elevação, instabilidade e permanência.
O espaço deixa de funcionar como vitrine e passa a operar como campo de tensão simbólica.
Na Argentina, o destaque é o trabalho de Matías Duville. Na Albânia, o artista Genti Korini apresenta sua proposta ao lado de Karolina Ziebinska. Já o pavilhão da Ucrânia traz a obra de Zhanna Kadyrova, incluindo trabalhos presentes na coleção do museu.
Na Itália, o percurso se completa com um encontro com a artista Chiara Camoni e a curadora Cecilia Canziani, aprofundando a experiência por meio da conversa.
A Bienal expandida
Palazzi históricos também entram no circuito expandido de arte contemporânea
Fora dos pavilhões, a Bienal continua.
Artistas como Nina Katchadourian e Torkwase Dyson reforçam a dimensão sensorial da mostra.
Trevor Paglen e Lee Ufan aprofundam investigações sobre imagem, tempo e percepção.
Na Fondazione Querini Stampalia, Nigel Cooke estabelece um diálogo entre pintura e instituição.
No Museo Fortuny, Erwin Wurm desloca o corpo para o centro da escultura.
Na Casa dei Tre Oci, Joseph Kosuth transforma linguagem em espaço.

O dia começa no Palazzo Grassi, com Michael Armitage. Suas pinturas, entre o real e o imaginado, tocam temas urgentes, como política, violência e migração, mas sempre com uma delicadeza que amplia o olhar para questões de identidade e memória.
Em seguida, na Accademia, Marina Abramović convida a desacelerar. Em Transforming Energy, o público não apenas observa, mas participa. Deitar, sentar, permanecer: gestos simples que transformam a experiência em algo quase meditativo.

Ao meio-dia, a Peggy Guggenheim Collection revisita a formação de uma das maiores colecionadoras do século XX. Mais do que uma biografia, a exposição revela encontros, como Duchamp e Beckett, que ajudaram a moldar seu olhar e sua influência.
À tarde, a atmosfera muda. Na Scuola Grande dei Carmini, Anna Peter Breton cria um universo inspirado em cosmologias antigas, onde cada obra conecta planeta, cor e virtude humana, em diálogo com a tradição veneziana.
Entre esses movimentos, Dries Van Noten inaugura sua fundação com uma exposição em que arte, moda e artesanato se encontram, reafirmando a beleza como gesto.
Após quatro décadas redefinindo a ideia de independência na moda, o designer inaugura um novo capítulo com a criação da Fondazione Dries Van Noten, instalada em um palazzo histórico às margens do Grande Canal.
Sua exposição inaugural, The Only True Protest Is Beauty, reúne mais de 200 peças entre arte, moda e artesanato, em diálogo direto com a arquitetura do espaço, onde a escala monumental amplifica a delicadeza das obras. A mostra fica em cartaz em Veneza de 25 de abril a 4 de outubro de 2026.
O título, inspirado em uma frase do músico Phil Ochs, funciona quase como um manifesto silencioso: em tempos de excesso e tensão, a beleza não é fuga. É posicionamento.
Van Noten não propõe ruptura.
Propõe continuidade.
San Giorgio Maggiore, o intervalo

Na ilha de San Giorgio Maggiore, a Bienal encontra outra pausa.
A exposição de Georg Baselitz introduz uma dimensão quase espiritual, enquanto Barry X Ball tensiona tradição e tecnologia no interior da basílica.
A ilha funciona como intervalo, um lugar onde o tempo se expande e a experiência se reorganiza.
Em Veneza, a Bienal não termina nas exposições.
Ela continua nos trajetos, na luz que atravessa os canais, no som da água contra a pedra. A cidade prolonga o que foi visto.
Onde ficar

A hotelaria veneziana acompanha essa mudança de frequência.
O Airelles Palladio, Venice propõe isolamento e contemplação na ilha da Giudecca, em um antigo complexo do século XVI voltado para a lagoa.
O Orient Express Venezia, no Palazzo Donà Giovannelli, transforma um palácio do século XV em experiência de hospedagem pela primeira vez em quase seis séculos.
O Hotel Danieli prepara seu retorno sob a bandeira Four Seasons, em uma das reaberturas mais aguardadas da hotelaria veneziana.

O Rosewood Hotel Bauer redesenha outro clássico de San Marco, entre o Grande Canal e a Piazza San Marco, após uma ampla renovação.
Também vale olhar para o The Venice Venice Hotel, moderno, artístico e com restaurante à beira do canal.
Aqui, o luxo não se impõe.
Ele se revela.
Onde comer

Entre os clássicos, Harry’s Bar, Da Ivo, Da Arturo e Antiche Carampane ajudam a manter viva uma Veneza de mesas tradicionais, serviço atento e receitas que atravessam gerações.
Entre os contemporâneos, Local, Glam e Lineadombra ampliam o repertório da cidade, cada um à sua maneira: cozinha autoral, leitura veneziana atual e mesas que permitem olhar a cidade por outro ângulo.
Também entram no roteiro a Antica Trattoria Poste Vecie, um clássico perto do Rialto, a Ostaria Boccadoro e o Ristorante Santi Apostoli, bom nome para um jantar ao ar livre.

Para pausas, Vino Vero e o bar do The St. Regis Venice funcionam como endereços de passagem entre uma exposição e outra. O restaurante do Il Palazzo Experimental também merece atenção, assim como o Do Farai, que volta ao circuito como ponto de encontro de artistas, galeristas e gente da cidade.
Em todos, o tempo é o elemento central.
O verdadeiro luxo

Talvez seja essa a força desta edição.
Em um mundo que acelera, Veneza propõe o oposto: desacelerar.
Olhar com atenção.
Permitir que as coisas permaneçam.
A Bienal não busca impacto imediato.
Ela permanece.
Se a Bienal propõe uma nova frequência, Veneza a incorpora. A cidade continua sendo um dos raros lugares onde o tempo não é otimizado, mas vivido.






































































































































































