Por Beatriz Yunes Guarita
Lima, capital do Peru, na costa central do país, entra em estado de ebulição criativa durante a semana da Pinta Lima. A feira de arte contemporânea realizada na Casa Prado, em Miraflores, reúne artistas, galerias, curadores e colecionadores em torno da cena latino-americana e de suas conexões internacionais.
Mais uma vez, a viagem acontece ao lado do Le Spot, grupo criado na França que reúne grandes colecionadores e amantes da arte. É nesse contexto, feito de trocas sofisticadas, olhares atentos e experiências compartilhadas, que Lima se revela com mais profundidade, para além do olhar turístico.
A viagem, cuidadosamente concebida e orquestrada, foi curada por Paula Obligi, cofundadora do Le Spot, em colaboração com Daniela Marcuzzi Seguier. A aliança reuniu olhares, sensibilidades e paixões em torno da arte, da literatura e da gastronomia.

Há algo de cinematográfico na luz de Lima: difusa, levemente enevoada, quase melancólica. Caminhar por bairros como Barranco, Miraflores e San Isidro durante a semana da feira é testemunhar uma cidade em diálogo constante. Galerias efervescentes, artistas emergentes, colecionadores e instituições culturais renovam, juntos, o papel da arte na vida urbana.
Os ateliês também se abrem aos visitantes e colecionadores. Foi o caso do artista Ishmael Randall Weeks, cujo trabalho, muitas vezes desenvolvido a partir de materiais encontrados e referências arquitetônicas, propõe uma reflexão sensível sobre território, história e transformação. Suas obras parecem reconstruir paisagens físicas e simbólicas, criando um diálogo direto entre passado e presente.
A agenda artística se intensifica com a Pinta Lima, cuja programação se expande pela cidade com visitas a galerias, conversas, encontros e atividades voltadas ao circuito local. É nesse movimento que Lima deixa de ser apenas cenário e passa a operar como personagem central da experiência.
O Museo Larco é uma parada essencial. Instalado em uma mansão do século XVIII, abriga uma das coleções mais relevantes de arte pré-colombiana do continente. Já o MALI, Museo de Arte de Lima, apresenta um panorama abrangente da produção artística peruana, enquanto o MAC Lima consolida-se como um dos polos da criação contemporânea na cidade.

No coração de Barranco, o Hotel B tornou-se uma extensão natural da experiência artística de Lima e uma parada obrigatória durante a semana da feira.
Instalado em uma mansão republicana restaurada, o hotel combina arquitetura histórica e design contemporâneo em um ambiente sofisticado e intimista. Seu grande diferencial está na curadoria: o espaço é pontuado por obras de arte cuidadosamente selecionadas, transformando cada ambiente, do lobby aos quartos, em uma espécie de galeria viva.

Mais do que hospedagem, o Hotel B oferece uma imersão estética contínua. Colecionadores, artistas e curadores se encontram naturalmente ali. Durante a semana da feira, o hotel também se transforma em ponto de encontros informais, conversas espontâneas e trocas que muitas vezes se estendem noite adentro.
Gastronomia, o ponto alto
Se a arte alimenta o espírito, Lima é também um dos grandes destinos gastronômicos do mundo.
No Central, de Virgilio Martínez, a cozinha parte da biodiversidade peruana para construir uma leitura sofisticada do território. O restaurante fica em Barranco e funciona de segunda a sábado para almoço e jantar, segundo seu site oficial.
No Kjolle, Pía León trabalha a gastronomia peruana contemporânea com liberdade, cor e sensibilidade. Os ingredientes ganham protagonismo em composições delicadas e surpreendentes, que exploram texturas, biodiversidade e contrastes do país. Tubérculos andinos, frutos amazônicos e elementos marinhos aparecem em apresentações quase pictóricas.
O La Mar, em Miraflores, celebra a tradição das cebicherías peruanas. Ali, o ceviche ganha protagonismo absoluto: fresco, ácido na medida exata e vibrante. A combinação com batata-doce e milho resume bem o equilíbrio da cozinha local, entre acidez, doçura, textura e frescor.

El Mercado, de Rafael Osterling, traz um lado mais descontraído e contemporâneo da gastronomia de Lima, muito alinhado ao espírito vibrante da cidade. O serviço preciso e atento reforça a sensação de uma casa viva, generosa e bem conduzida.
Para uma imersão na tradição local, Isolina resgata a cozinha criolla em sua forma mais farta e afetiva. São pratos generosos, receitas familiares e sabores intensos, que revelam outra dimensão da identidade peruana, mais íntima e cotidiana.
O Maido, comandado por Mitsuharu Tsumura, segue como referência da cozinha nikkei em Lima. É daqueles endereços que exigem reserva com bastante antecedência, especialmente depois de sua projeção internacional recente.
O Osaka traz uma leitura contemporânea e vibrante da cozinha nikkei, enquanto o Rafael oferece uma experiência mais intimista. Entre os pratos que permanecem na memória, as vieiras se destacam como uma das melhores provas da viagem.
E La Gloria Miraflores, restaurante de Oscar Velarde, permanece como endereço clássico da cidade e ponto de encontro durante a semana da feira.
Colecionadores, galerias e a cena viva de Lima
Durante esses dias, Lima também revela a força de seus colecionadores, figuras fundamentais na construção e na projeção da arte latino-americana.
Entre eles, destaca-se Jackie Hoffman, cuja coleção é reconhecida pela consistência e pelo olhar atento à produção contemporânea internacional.

Outro nome central é Alberto “Tito” Rebaza, ao lado de Ginette Lumbroso. Juntos, eles criaram a Residencia de Al Lado, projeto dedicado ao intercâmbio entre artistas internacionais e a cena artística peruana, incluindo artistas, galeristas, críticos, curadores e colecionadores.
Completa esse panorama Carlos Marzano, cuja coleção reflete uma leitura sofisticada das transformações da arte na região.
Se os museus oferecem contexto, são as galerias que capturam o agora. Durante a semana da feira, elas se tornam laboratórios de ideias, lugares onde tendências, discursos e novas narrativas da arte latino-americana ganham corpo.
Visitar galerias em Lima nesse período não é apenas seguir um roteiro. É participar de uma experiência social e intelectual. Vernissages se transformam em encontros espontâneos, nos quais artistas, curadores e colecionadores trocam ideias de forma direta e orgânica.
Entre os endereços do circuito contemporâneo limenho estão Revolver Galería, Crisis Galería, 80m2, Forum e Livia Benavides, espaços que ajudam a desenhar o mapa vivo da arte na cidade.

Em Barranco, espaços como a Dédalo Arte y Artesanía ampliam esse panorama ao integrar arte, design e artesanato. Ao lado da loja, um café charmoso convida a uma pausa. Para encerrar o dia, a Blu Gelateria, nas redondezas, reforça a vocação de Lima como destino interessante em qualquer estação.
Volto com a certeza de que Lima não termina na viagem. Ela permanece discreta, mas viva, como uma obra que continua a ressoar e dá vontade de olhar de novo.






































































































































































