Efervescência Coletiva em Montreux

Uma carta de amor ao Montreux Jazz Festival 2021 (e como Woodkid me fez sentir felicidade de um jeito que não lembrava - Parte 3

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Meu professor e amigo Arthur Veríssimo, lá no alto das Himalaias, uma vez me explicou sobre a “efervescência coletiva”, termos cunhado pelo sociólogo francês Émile Durkheim para explicar a sensação de catarse em grupo frequentes em demonstrações, celebrações e festejos populares, como o nosso carnaval. Acompanhávamos um grupo no Maha Khumba Mela, o maior e mais antigo festival do mundo, e nos tornamos espectadores de como a energia do lugar transcendia barreiras de língua, religião e cultura. 

Se você chegou à terceira parte desse especial produzido sobre o Montreux Jazz Festival 2021, já sabe o quanto sou movido pela efervescência coletiva. Há algo de mítico nos festivais e shows em geral. Dividir os sons de uma orquestra ou riffs de guitarras e vocais, que tocam nossa alma, com estranhos, nos torna mais humanos. Perceber que as músicas da trilha sonora da nossa vida são também tema das jornadas de outras pessoas é mágico.

Gaidaa | Foto: Divulgação
Scene du Lac | Foto: Divulgação

A pandemia tirou de nós esses momentos. Depois de um ano e meio sem ver um show, me vi disputando um ingresso para a apresentação que o francês Woodkid fez na segunda noite do festival como para a última concorrida turnê da Madonna, realizada em pequenos teatros, os últimos shows que vi antes do mundo fechar. 

Quando ouvi seu hit “Run Boy Run” pela primeira vez, tive uma reação mista. Os arranjos quase barrocos de cordas e percussão, orquestradas com mão pesada para puxar coro em estádio, não me convenceram de imediato. Mas o disco The Golden Age, lançado em 2013, me pegou, provavelmente, pela sensação de que crescemos ouvindo os mesmos sons. As influências de sensíveis do britpop como Babybird e Tindersticks, as experimentações à la Björk e os vocais que parecem querer chegar ao timbre da Nina Simone de Antony and the Johnsons e Hercules & The Love Affair estavam lá, e foram implementados em singles classudos como Iron e, mais recentemente, no álbum S16, lançado durante a pandemia

Show no Jardins a noite| Foto: Divulgação

Cheguei ao Montreux Jazz Festival meio apreensivo. Para quebrar a tensão, vi dois shows legais no começo da noite. Destaque para a holandesa-sudanesa Gaidaa, no aconchegante Petit Thèâtre, do Montreux Palace. Como o show era sentado, o público extravasava a emoção com batidas de pé e aplausos entre as músicas, emocionando, também, a artista. Como praticamente todo o line up, ela fazia ali sua primeira apresentação em mais de um ano. 

“durante a pandemia, sem música, a vida não seria só um erro, mas impossível.”

Woodkid | Foto: Divulgação
Woodkid | Foto: Divulgação

No caminho até ao idílico palco Scene du Lac para a apresentação do Woodkid, headliner da noite, me percebi admirando grupos de amigos conversando animados nos lounges do festival. Sem máscaras, afinal, como todos, fui testado na entrada, me senti dragado por um portal do tempo me levando para uma outra dimensão. 

O casal que me vendeu o ingresso – salve os anos de experiência e conexões com os concierges – me encontrou enquanto pegava uma gin tônica. Ela suíça, ele sérvio. Perguntei se gostavam do Woodkid e para minha surpresa, estavam lá por causa da possibilidade de finalmente ouvir música ao vivo. Ele nem conhecia o francês. Conforme caminhávamos para nossos lugares, providencialmente na segunda fileira, o sérvio sugeriu que pegasse os protetores auriculares disponibilizados na entrada, porque tinha ouvido falar que o som era potente. Safo, recusei porque “precisava sentir cada decibel”.  

Les Jardins | Foto: Divulgação

Para quebrar o gelo, os organizadores colocaram funcionários do Montreux Palace demonstrando as regras de segurança, incluindo a de permanecer sentado durante todo o espetáculo e a hilária proibição de nadar para encontrar os artistas no palco. As luzes se apagaram e o final da noite de verão marcou as linhas dos Alpes acima do palco. A água reluzente estremeceu com a introdução da banda que acompanha Woodkid. Vestidos com macacões, numa vibe meio apocalíptica, aumentaram minha percepção de estar em uma dimensão diferente. 

As projeções tomaram conta do palco, o som da instrumental Goliath aumentou e o francês entrou arrancando aplausos, direto para o segundo andar do palco montado em dois níveis. Vieram Iron, I Love You e The Golden Age. A esta altura, um sorriso, comum a quem revisita uma paixão, tomou conta do meu rosto. O sérvio e a suíça ao meu lado me olhavam com cumplicidade, sorrindo de volta. A banda, menor do que a orquestra da apresentação feita em 2016 no Miles Davis Hall, formada por um quarteto de cordas, sax, trompete, um percussionista animado, fazendo as vezes de backing vocal, um baterista e um DJ, emanava uma energia de quem, também, revisitava sua grande paixão.

Show no Jardins | Foto: Divulgação
Ibrahim Malouf | Foto: Divulgação
Jay Fase Jardin | Foto: Divulgação

Com uma performance energética, movimentando entre os níveis do palco e cantando próximo da plateia em diversos momentos, o músico estava disposto a literalmente levantar o comportado público suíço, maioria absoluta neste Montreux Jazz. E conseguiu. Foi difícil permanecer sentado. Quem quebrava a regra (culpado!), levantando-se para dançar um pouquinho, ao invés de ser repreendido, gerava a faísca da efervescência coletiva que meu professor Arthur Veríssimo adora citar. 

Dentro da dimensão a que fui transportado, entre uma lágrima e outra, me vi agradecendo pelos arranjos que um dia chamei de quase barrocos. Em meio as projeções e a animação da banda, me dei conta que o Woodkid era o artista certo para ver neste momento. Quando o hit “Run Boy Run” começou, eu, e o público, no ápice da efervescência coletiva, já cantávamos em coro como em um estádio. A música parou, mas ninguém parou de cantar, deixando a banda visivelmente emocionada

Vista do evento | Foto: Divulgação

O momento de troca entre artista e público é sempre mágico. Mas neste Montreux Jazz Festival, teve ares de comunhão. Como se experimentássemos ali, naquela dimensão diferente criada pela Suíça, um pouco da vida que tínhamos antes do mundo fechar. Me encheu de esperança de que dias melhores virão. E que você lendo este texto irá, em breve, também, viver de novo suas paixões.

PS: 

Nietzsche disse que “sem música a vida seria um erro”. Depois de um ano e meio impedidos de viver nossas vidas como as conhecíamos, faço um adendo à frase do alemão: “durante a pandemia, sem música, a vida não seria só um erro, mas impossível.” 

Após o show, enquanto me dirigia para a pista montada ao ar livre, encontrei com os músicos da banda e fiquei batendo papo. Adoraram saber que era brasileiro e que estava em Montreux para o show deles. 

No dia seguinte, enquanto almoçava no Jazz Café (sempre o lugar!), esbarrei com o Woodkid passeando com o marido e o cachorro. Agradeci o show que vi na noite anterior e deixei claro, em bom inglês, que era tudo o que a gente precisava. Ele foi um querido, me agradeceu, sorriu e desejou boa viagem de volta. Para manter a aura de conexão entre público e artistas do Montreux Jazz Festival, não rolou foto, mas entrou para minha história

Fatoumata Diawara | Foto: Divulgação

Acesse Parte 1 e Parte 2 aqui!

Agradecimentos:

Switzerland Tourism Board Brazil,
Switzerland Consulate Brazil,
Fairmont Montreux Palace,
Montreux Riviera,
Montreux Jazz Festival,
Fabien Clerc,
Fernanda Maldonado,
Natália Leal e
Corinna Sagesser

Woodkid-3-divulgação.jpg
Woodkid | Foto: Divulgação

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