Desde a sua primeira edição, em 2023, o C6 Fest vem mostrando uma qualidade rara entre os festivais contemporâneos: a capacidade de transformar o público no meio do caminho. Afinal, você pode até estar ali movido por um headliner específico, um show que você aguarda há anos, mas dificilmente sai do Parque Ibirapuera, em São Paulo, sem a experiência de ter conhecido e escutado novidades ou clássicos que à época do sucesso passaram batido. Como poucos, ele mantém o verdadeiro espírito de um festival.
Parte disso vem da curadoria comandada por Monique Gardenberg, que usa a mesma tática de festivais históricos, como Free Jazz e Tim Festival, ao apostar na precisa combinação entre nomes consagrados e apostas.
A edição de 2026 começou com um charme adicional: artistas como o tunisiano Anouar Brahem e a lenda do jazz norte-americano Branford Marsalis ministraram masterclasses a alunos interessados, reforçando a sensação de que o festival queria ser mais do que uma sequência de shows.

E, por falar neles, ambos tocaram na noite de abertura (quinta-feira, 21 de maio), a primeira a ter os seus ingressos esgotados e que contou também com o jovem Julius Rodriguez.
Na sexta-feira (22), seguindo a linha entre o jazz e as experimentações sonoras, o Knower encerrou os trabalhos com sua mistura de funk, jazz, eletrônico e metal, em quase uma rave tocada por músicos de conservatório, numa noite que contou também com Brandee Younger e uma homenagem ao mestre brasileiro feita pela Hermeto Pascoal Big Band. A precisão instrumental impressionava tanto quanto a energia caótica do show.
Ficou para o final de semana a parte mais pop, digamos assim.

Shows épicos
Nos palcos, entre a Tenda MetLife (coberta e mais intimista) e o Palco Heineken, o trio feminino de Chicago, Horsegirl, iniciou os trabalhos com seu indie rock cru e elegante. As mulheres, aliás, dominaram boa parte dos momentos mais fortes do festival. Como mostrou a cantora ganense-americana Amaarae, ao dominar sozinha a plateia na abertura do descoberto e chuvoso palco principal.
O inglês Baxter Dury (outro golaço da programação) já havia feito seu show no momento em que o festival começou a ganhar contornos épicos.
Quando Mano Brown entrou no palco principal, uma atmosfera quase palpável de êxtase tomou conta. Com uma trupe de mais de 20 pessoas – entre músicos e dançarinos – e acompanhado de Rincon Sapiência. O “baile do chefe”, como foi intitulado, contou com músicas de Rincon e da carreira solo de Brown, encerrando com hits dos Racionais, as duas partes de Vida Loka e o trecho inicial de Capítulo 4, Versículo 3.


Na sequência, o BaianaSystem elevou ainda mais a temperatura ao convidar os tanzanianos Makaveli e Kadilida para um verdadeiro caldeirão sonoro.
Na tenda mais intimista, o Wolf Alice fez um dos shows mais carismáticos do festival. Ellie Rowsell conversava com a plateia o tempo inteiro, agradecia, sorria, improvisava comentários e recebia tudo de volta, numa troca imediata: banda e plateia estavam emocionadas de estarem ali.
No mesmo palco, o líder do The National, Matt Berninger, trilhou pelo intimismo elegante. Em determinado momento, desceu para a plateia e passeou até fora da tenda, aquecendo ainda mais os corações de quem estava lá. Um show que parecia concebido para ser assistido apreciando uma boa taça de vinho.

Poesia musical e sabores afetivos
Aliás, poucas experiências gastronômicas dialogam tão bem com música quanto no C6 Fest. Entre cervejas, drinques e vinhos, o público circulava entre restaurantes italianos assinados por chefs, comida japonesa, sorvete italiano, culinária árabe e hambúrguer.
A noite foi encerrada em grande estilo, com os britânicos do The XX entregando hits não só da carreira, mas também de seus trabalhos solo, fazendo o público pular e se emocionar na mesma proporção.
Já no domingo, outra data com ingressos rapidamente esgotados, o dia estava mais seco e o festival significativamente mais cheio. A explicação era simples: todos aguardavam “o pai de todos”. O cantor Robert Plant, a voz do histórico Led Zeppelin, pairava sobre a programação inteira como uma entidade fundadora, um pontífice de tudo o que apareceu nos palcos ao longo do fim de semana.


Antes disso, porém, houve delicadezas importantes. O brasileiro Samuel de Saboia abriu os trabalhos para a soul intensa e poética de Benjamin Clementine. Na sequência, a francesa Oklou aqueceu a tenda com sua ambient intimista para a sueca Lykke Li, dona do hit I Follow Rivers e que homenageou Caetano Veloso com uma versão de Sozinho (de Peninha). Poucos minutos antes, no outro palco, o Beirut fazia o mesmo ao apresentar Leãozinho em seu concerto cheio de melodias e paisagens sonoras. Ainda tivemos o sempre excelente Paralamas do Sucesso em companhia da Nação Zumbi e, mais cedo, o synthpop do duo Magdalena Bay.

Mas o encerramento pertencia mesmo a Robert Plant. Aos 77 anos, o cantor continua recusando a própria condição de monumento. Em vez de simplesmente reproduzir nostalgia, dá novos arranjos a canções de artistas clássicos, como Neil Young e Moby Grape, e, com a banda Saving Grace e a cantora Suzi Dian, reinventa o próprio repertório em hinos como Ramble On, Four Sticks, Friends e Rock and Roll. Segue sendo relevante.

Como festa boa não tem hora para acabar, as noites ainda trouxeram agradáveis encerramentos. No espaço Pacubra, DJs colocaram o povo para chacoalhar.

No auditório, pelo C6 Lab, Cameron Winter, líder da banda Geese e o novo queridinho do rock, fechou o domingo (no sábado, havia sido a vez da guatemalteca Mabe Fratti). De certa forma, aos 24 anos, Cameron carrega o legado iniciado por Plant quase seis décadas atrás.
O C6 Fest carrega a tradição como sendo um movimento contínuo. Por isso, em 2026, consolidou de vez a sua posição como uma das programações musicais mais interessantes do Brasil.
Clique aqui para ler a matéria na edição 23 da Revista UNQUIET.

















































































































































































