Depois de anos competindo em modalidades ligadas ao remo, tomei gosto pelas viagens que associam esporte, natureza e cultura. Com o meu projeto SUPtravessias, passei a explorar ilhas fora do circuito tradicional que ofereçam experiências por meio de um turismo sustentável e que dê voz a suas comunidades. Afinal, muito se aprende com quem vive cercado por água e tem locais naturais restritos.
Essa jornada me levou ao Timor, uma ilha localizada no sudoeste da Ásia, a 500 km da Austrália, com dois países no seu território: Timor Leste, que assim como o Brasil faz parte da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLC), e Timor Ocidental, que está sob a regência da Indonésia.
Não satisfeita, resolvi esticar até uma pequena ilha ao sul do Timor Ocidental chamada Rote, um lugar onde minhas pesquisas mostraram respostas como: “diamante” e “paraíso escondido ou remoto”. Confesso que o que me motivou a conhecê-la, além das belezas naturais, foram as ondas, sobre as quais ouvi relatos de terem ondulações incríveis e serem sem crowd (superlotação de surfistas). Mas o que encontrei por lá foi muito mais.
Chegar a um “paraíso escondido” não é fácil. São quase quatro dias, partindo de São Paulo, e para não chegar muito desgastado recomendo uma parada no caminho.
Fiz um voo de 15 horas até Dubai e depois um de nove até Bali. Passei dois dias por lá, até pegar mais um voo para Kupang (a cidade mais ao sul do Timor Ocidental). Depois são mais dois trechos de barco, até chegar à Ilha de Rote e mais duas horas de carro até a Praia de Nemberala.


Fora do circuito
A partir daí a sensação é a de que você passou por um portal e está realmente distante de tudo, apenas rodeado por formações naturais espetaculares, com muita vida marinha e uma pequena comunidade de pescadores. Rote está fora do circuito de turismo de massa, e a região por onde circulei possui poucas, mas ótimas opções de hospedagem ‒, em geral, com estrutura de logística completa e excelente gastronomia. Ao sair do hotel, há somente um restaurante e um vilarejo simples, com uma população muito receptiva.
Os rotinenses veem o turismo como algo positivo para a ilha e são muito acolhedores. As crianças aprenderam a dizer “hello” para os estrangeiros, então é comum ao andar pelas ruas ser abordado por crianças querendo interagir: “Hello, hello!”, com sorrisos tímidos.
A mímica se torna a linguagem universal e é incrível como é possível se comunicar dessa forma. Não se surpreenda se pedirem para tirar uma foto com você.
Eu me hospedei no T-land Resort, um aconchegante e charmoso hotel em Nemberala, com oito bangalôs, todos com vista para o mar e serviços exclusivos para que seus hóspedes conheçam os atrativos da ilha.

Meu plano era explorar o oceano de stand-up paddle, então minha rotina incluiu remadas diárias, intercaladas com snorkel e dias de muito surfe. As remadas aconteceram em cenários paradisíacos: praias de areia branca, água azul-turquesa, grandes estrelas-do-mar laranja e embarcações rústicas e coloridas no horizonte. As fazendas de algas também proporcionam uma atmosfera única em função de seu visual simétrico no fundo do mar. Elas são comuns nas ilhas da Indonésia e abastecem o mercado asiático, incluindo o Japão, para a produção de cosméticos. Em Rote, elas foram implementadas há poucos anos para completar a renda da população.
Foi durante minhas remadas que pude conhecer um pouco mais do cotidiano dos pescadores e cultivadores. Há muitas mulheres nessa jornada dura de trabalho, e todas sempre com um sorriso no rosto, com o alimento do dia garantido. Por meio das mulheres é possível mergulhar mais um pouco na cultura timorense: são elas que dominam a arte do ikat, uma tecelagem artesanal sagrada, passada das avós para as filhas e netas. Os fios são tingidos com tinturas feitas de raízes e flores, em uma técnica única, que transforma figuras geométricas em peças lindas ‒ uma excelente recordação de viagem.



A remada mais especial que fiz no Timor foi em uma formação que eu nunca tinha visto: um corredor azul de águas transparentes, de cerca de um 1 km e 20 m de largura, que leva a uma lagoa de água salgada, rodeada por paredões rochosos e uma floresta intacta, onde é possível ouvir o som de macacos por todos os lados. Esse foi um dos lugares mais incríveis que já remei na vida. Essa lagoa se chama Nirwana e fica na vila de Oeseli. É possível fazer a visita de caiaque, alugado na praia, com o serviço organizado pelos hotéis. Quando fui, estive sozinha o tempo todo, pois o local é lindo e ainda pouco conhecido e visitado.
O surfe na região também é espetacular, com ondas consistentes e de classe mundial. Na frente do meu hotel está a mais famosa, a T-Land, uma esquerda longa, potente e manobrável. Há diversas opções para diferentes níveis de surfe e com toda a estrutura para chegar até elas.

Além de belezas naturais intocadas, com praias desertas, mangues, cavernas e florestas para desbravar, a vida cultural dessa ilha é muito rica e proporciona uma experiência autêntica, com uma comunidade resiliente e calorosa. Com recursos hídricos escassos e períodos de seca, a população usa todas as partes de uma palmeira chamada lontar para a sua subsistência, com a construção de casas e cercas e também como alimento, com seu fruto e a produção de açúcar. Nada é descartado! Ela também cria pequenos animais, então é bastante comum ver cabras e galinhas pelas ruas.
Ao visitar uma escola, fiquei impressionada com a qualidade da educação. As instalações são bem estruturadas e me surpreendeu o fato de uma semana por mês ser totalmente dedicada a estudos e atividades culturais. São aulas de história e artesanato, apresentações musicais e de dança, construção de instrumentos e toda forma de expressão cultural. O intuito é fazer com que as crianças se conectem com suas raízes desde cedo e tenham orgulho da sua origem, consigam uma forma de renda no futuro e propaguem esse conhecimento por gerações. Que lição!







Praticar stand-up paddle, meu esporte preferido, em um paraíso intocado já seria suficiente para uma viagem transformadora, mas sair de lá com tantos aprendizados e levar essas mensagens adiante é ainda mais gratificante. Como me disseram em Rote: “Coisas grandes acontecem em pequenas ilhas”
Se essa abundância de vida e movimentos já não bastasse para me encantar, fui agraciado por Netuno como a testemunha de uma cena raríssima. Em um mergulho no qual o desafio era ter que escolher para onde olhar e filmar, com tanta natureza pulsando, decidi mirar minha lente para o suave nadar de uma tartaruga-de-pente. Eis que ela começa a ir em direção à minha tutora, Ângela.
De repente, ela avança por cima da mergulhadora, em um movimento inimaginável. Ela então abaixa em direção ao rosto protegido com a máscara, troca um rápido olhar de ternura e concede um especialíssimo beijinho, como se fosse um afago ou uma bênção, um ato que celebra uma relação de confiança mútua.
Essa interação inusitada foi um presente para Ângela e para mim, que assisti (e registrei) emocionado. A cena singela é simbólica: o beijinho da paz nas águas de Palau mostra que, ao tratarmos a natureza com o máximo respeito, nos tornamos parte de uma harmoniosa simbiose. Em Palau, o carinho contagia!
Clique aqui para ler a matéria na edição 18 da Revista UNQUIET.