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Por Francisco Bosco
Eram aproximadamente 17h30. O sol já caía quando atravessamos de quadriciclo a Praia Nova. À beira-mar, barcos de madeira pintados com cores vivas anunciavam uma pequena comunidade de pescadores, como tantas outras que vêm diminuindo: as novas gerações nem sempre desejam seguir a tradição dos pais e avós. Do outro lado, porém, a comunidade nos revelou um cenário de espanto: casas parcialmente soterradas pelo avanço da areia, empurrada pelos ventos fortes e constantes do norte do Ceará. De algumas, já só se pode sair pelas janelas. O tempo se encarregará do resto.
À medida que subíamos as dunas, a comunidade dava lugar a uma espécie de deserto alvíssimo, sob um céu azul platônico. Não havia vivalma ao redor; só o ronco do quadriciclo rasgava a paisagem. O conjunto parecia uma mistura de Bacurau com planos de Terrence Malick. Eu estava sóbrio, mas me sentia sob o efeito de alucinógenos.

Como uma miragem…
No alto da duna, o guia, Maciel, tirou duas cadeirinhas — daquelas de diretor de cinema, como convinha a quem vinha lidar com imagens —, uma mesinha, uma garrafa térmica com água de coco e uma cesta de frutas. Posicionou tudo no ponto perfeito para contemplar aquela espécie de miragem, realíssima. Na volta, já sob um céu escuro e estrelado, com o vento adormecido — todas as noites ele cessa —, levantei a viseira do capacete e acelerei o quadriciclo à beira-mar. Foi uma das maiores sensações de liberdade que já experimentei.
Isso aconteceu no terceiro dia. Mas recomecemos pelo começo.
A Oiá Casa Daia é uma hospedaria instalada em uma fazenda de 220 hectares, na região de Barroquinha, a cerca de uma hora e meia do aeroporto de Jericoacoara. Há voos diretos diários partindo de São Paulo. A fazenda foi regenerada e abriga uma agrofloresta, uma lagoa incrustada em um bosque seco de carnaúbas e caminhos que levam a manguezais habitados por garças de tons azulados, a dunas esplêndidas e à praia da Barra dos Remédios — ponto ideal para a prática de kitesurf. De lá, também se pode caminhar até uma lagoa que parece um oásis. É surra de beleza.
Os encantos naturais da fazenda e de seu entorno encontram rival à altura no design dos espaços privativos e comuns da Oiá Casa Daia. Com apenas quatro bangalôs e três suítes, cada detalhe parece receber um esmero rigoroso. Cheguei a me propor o desafio de encontrar um único objeto, detalhe arquitetônico ou solução espacial a que pudesse fazer alguma objeção. Não encontrei.
Tudo parece pensado para ser aproveitado sem pressa. O cuidado dedicado à fazenda e à decoração também se revela nos passeios, na escolha dos guias e na atenção com que são preparados. A navegação pelos rios termina com outro pôr do sol cinematográfico, no alto de uma duna. A catação de sururu inclui aprender todo o processo de preparo com os catadores Manoel e Priscila; depois, a chef Jucineia faz diante de nós um espaguete ao sururu com o melhor refogado que já provei. Um passeio de bicicleta pela fazenda permite entrar no carnaubal, onde, no período das chuvas, a lagoa cresce até alcançar o meio dos troncos.
Na última noite, para fechar com chave de ouro, tivemos um churrasco de frutos do mar na praia. Éramos só eu e Ana, minha esposa, diante de uma fogueira, sob a abóbada reluzente de um céu sem luzes urbanas. Paulo preparou a melhor lagosta que já comi; Félix, suas melífluas caipirinhas de caju. A comida da Oiá Casa Daia alterna entre o excelente — pão de queijo delicioso, carnes e peixes variados —, o revigorante — sucos de frutas, caju e jatobá colhidos no pé, PANCs direto da horta — e o magistral, como o camarão na moranga e a arraia gratinada com baião de dois. Tudo fresquíssimo.
Menciono o kitesurf apenas de passagem porque nunca pratiquei o esporte e achei melhor deixar para uma próxima oportunidade, com mais tempo. Vi alguns grupos passando diante de mim, singrando o mar raso e se lançando a dez metros de altura. Na hora, nasceu a vontade de aprender. Deve ser uma experiência extraordinária.
O que mais nos tocou, porém, foi o convívio com os funcionários. Letícia, de relações com os hóspedes, e Meire, gerente de hospitalidade da Casa, são de uma gentileza e atenção incomparáveis. Elizana, Carol, Kauan e Félix, no atendimento, idem. Os guias — Felipe, Magno, Maciel, Marquinhos e Davi, que estiveram conosco — são competentes, simpáticos, bons de conversa e de silêncio.
A todas e todos, meu abraço e agradecimento. São essas pessoas que fazem desse lugar magnífico uma Casa. E isso não tem preço.





























































































































































































