Por Gabriella Paschoal
No fim de novembro, a convite da revista UNQUIET, embarquei para Rapa Nui, nome indígena da Ilha de Páscoa, uma das ilhas habitadas mais remotas do planeta, a cerca de 3.700 km de Santiago e a aproximadamente 5h30 de voo da capital chilena.

Chegar à Ilha de Páscoa já é, por si só, uma experiência. São horas de voo sobre o Pacífico, sem ver praticamente nenhum sinal de terra, apenas água, céu e a sensação de estar suspensa. Até que, de repente, surge no horizonte o relevo vulcânico da ilha, território de um dos mais emblemáticos sítios arqueológicos do Pacífico e Patrimônio Mundial da Unesco. Ela aparece abrupta, quase como um segredo revelado.

Fui com minha amiga Paula Nazarian. A ideia da viagem, inclusive, partiu dela. Paula é dessas pessoas que se entregam completamente a cada destino, e a Ilha de Páscoa pede exatamente isso: entrega.
O que mais me marcou foi o silêncio.
Um silêncio real. Não é ausência de som, mas de ruído. A ilha parece pedir um respiro constante. Entre os moais e o mar, entre as falésias vulcânicas e os campos abertos, há uma paz contemplativa que reorganiza por dentro.
Ver os moais de perto é impactante. Grande parte dessa experiência acontece dentro do Parque Nacional Rapa Nui, onde a paisagem parece ampliar o silêncio da ilha. Mas foi em Rano Kau que senti algo mais profundo. Um dos vulcões que deram origem à Ilha de Páscoa, Rano Kau abriga uma cratera com mais de 1 km de diâmetro e um lago de água doce coberto por totora; ali também fica Orongo, sítio cerimonial central na história local. Há uma força ali que ultrapassa o racional.

Pensei muito na formação do povo Rapa Nui, de origem polinésia, e na coragem de florescer em relativo isolamento oceânico. A experiência foi menos histórica e mais espiritual. Para quem pretende visitar os principais sítios arqueológicos, vale consultar com antecedência os ingressos e regras de visitação.
A Ilha de Páscoa me deixou introspectiva. Dormi profundamente todas as noites, um sono raro, restaurador. Talvez porque ali, tão distante de tudo, me senti suspensa da realidade. Como se o mundo estivesse longe demais para interferir.
Exploramos cada canto juntas. Tivemos longas conversas ao entardecer, caminhadas sem pressa e um dia especial em Ovahe, pequena enseada a leste de Anakena. Alugamos um quadriciclo e cruzamos a ilha com vento no rosto, descobrindo paisagens costeiras e vulcânicas. Foi liberdade em estado bruto.

No meio dessa imersão, o Nayara Hangaroa foi nosso refúgio. Fui recebida com um cuidado genuíno, quase intuitivo. Com telhados verdes, volumes curvos e uma arquitetura inspirada em Orongo, o hotel se integra à paisagem vulcânica sem abrir mão da sensação de abrigo.

Era o lugar para voltar depois da intensidade dos sítios arqueológicos, para desacelerar, absorver e simplesmente estar.
Quando parti, tive a sensação de que a ilha continuaria ali, intacta, indiferente ao mundo.
E talvez seja essa a sua maior força.






























































































































































