London Will Rock You

David Bowie é a inspiração de um roteiro musical pela capital inglesa, num tour emocionante que revisita lugares emblemáticos e evoca personagens icônicos do pop e do rock mundial

Deitado na grama do Hyde Park, ainda úmida com uma chuva recente, eu me lembro de que um dos shows mais incríveis que vi em Londres foi ali mesmo, o da turnê MDNA, de Madonna, em 2012. Eu iria entrevistá-la no dia seguinte e estava atento a tudo. Mesmo assim, enquanto esperava que ela entrasse no palco, me dei conta de como a história do pop e do rock, da minha própria paixão pela música, já passara tantas vezes pela capital inglesa. Começo a sentir minhas roupas um pouco molhadas e decido que vou rever alguns dos lugares históricos que fizeram daqui um destino de fãs de música do mundo inteiro. No momento só quero esperar a claridade ir embora para, como sugere Caetano Veloso em London, London, procurar discos voadores pelo céu. “Green grass, blue eyes, gray sky, God bless”, canta o mestre. E eu respondo: “Indeed”.

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Site: hyatt.com/andaz-london

Hyde Park | Foto: Fotoarena
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Bairro de Camden Town, onde Amy vivia | Foto: Getty Images
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A casa onde David Bowie nasceu, em Brixton
Foto: Getty Images

Não estou largado no parque por falta de abrigo. Pelo contrário: na primeira parte dessa visita, estou hospedado num dos melhores hotéis da cidade, o icônico Brown’s, agora da rede europeia Rocco Forte, num quarto que é certamente um dos mais espaçosos e elegantes que fiquei na minha vida. No dia em que cheguei, minha mala foi desfeita (e as roupas mais amarrotadas foram passadas) por mãos que nem me perguntaram se eu queria tamanha atenção. Era simplesmente algo que eles faziam quase por reflexo, para ampliar a experiência de quem se hospeda lá. Logo eu voltaria para aquele espaço de aconchego e conforto, com a lareira na frente da cama certamente acesa. Mas era ali, naquela grama úmida, que eu queria esboçar meu roteiro rock’n’roll em Londres.

No rastro de Bowie 

Minha primeira inspiração para a viagem surgiu quando vi o recente documentário sobre David Bowie, Moonage Daydream. Tive a sorte de assistir ao filme na rápida semana em que ele esteve numa tela Imax, em São Paulo. Além do carisma de Bowie em cada show, em cada entrevista, o diretor, Brett Morgen, conseguiu me transportar para uma Londres que até hoje faz parte da imaginação de muitos meninos e meninas apaixonados por rock: aquela que gostamos de ver como o centro de gravidade da melhor música de todos os tempos.

Isso certamente vale para David Bowie. Sua história com a cidade não começa exatamente na região do Brown’s, Mayfair, mas em Brixton. Localizada ao sul de Londres, a vizinhança, que já foi identificada com uma população de imigrantes de então colônias inglesas no Caribe, fica ao lado de Clapham, onde muitos brasileiros escolhem viver. Brixton não é especialmente charmosa, mas um fã de Bowie como eu certamente se emociona ao visitar a casa onde ele nasceu, os primeiros lugares onde tocou e até o memorial que o artista ganhou depois que morreu, em 2016. O lindo mural retrata Bowie em uma de suas encarnações mais conhecidas, Aladdin Sane, aquela em que aparece com um raio pintado do meio do rosto, e hoje está um pouco abandonado. Fãs ainda deixam flores e mensagens para o ídolo, mas a pandemia causou um aspecto triste à homenagem. Nem por isso deixei de me emocionar quando passei novamente por ali.

A mesma emoção que senti quando visitei uma placa inaugurada em 2017 na frente do estúdio Trident, no Soho, a apenas uma caminhada de poucos minutos do Brown’s. Londres está cheia delas, sempre num azul-escuro, marcando lugares da história política, social e cultural da cidade, mas essas de Bowie parecem tocar música. São ecos de uma carreira musical que reverbera até hoje, e que se desdobra em muitas outras superestrelas que fizeram daqui sua casa. Londres recebeu a todos e os projetou para o mundo.

roteiro musical londres: estátua de Amy Winehouse em Camden Town
Estatua de Amy Winehouse | Foto: Fotoarena
roteiro musical londres: camden town
O movimento da Camden High Street | Foto: iStock
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O ritmo urbano da Shoreditch High Street | Foto: iStock

Capital da música 

Dos Beatles aos Sex Pistols, de Spice Girls a Amy Winehouse, de Pink Flyod a Oasis, de Sade a Adele, em todas as épocas da música pop, Londres foi uma referência. No inverno de 1983, minha segunda vez na cidade, me lembro bem, antes, muito antes da internet, de ver perplexo uma figura tão andrógina quanto Boy George ser escolhida como o cantor do ano pelas revistas especializadas em música. No mesmo ano, Annie Lennox, do Eurythmics, perguntava, num clipe onde aparece mais masculina que feminina: “Who’s that girl?”, o single que saiu na esteira do grande sucesso Sweet Dreams (Are Made of This). Androginias assim simplesmente seriam impossíveis se David Bowie não tivesse existido.

Aliás, a própria imagem que loucos por música como eu construímos de Londres passa sempre por Bowie, direta ou indiretamente. Nas minhas visitas à cidade naquele início dos anos 1980, eu andava por todos os cantos onde eu sabia que era possível encontrar alguma “vibe” musical. Andei aquela King’s Road inteirinha, por exemplo, atrás do antigo endereço da loja Sex, onde Malcolm McLaren e Vivienne Westwood inventaram o estilo punk, rebatizada então de World’s End. Sempre garimpei a Oxford Street atrás de discos que eu ainda nem tinha dinheiro para comprar, não apenas nas superlojas da HMV, mas também nas independentes.

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A icônica Abbey Road | Foto: Getty Images

Nas minhas viagens seguintes, encontrei mais dessas megalojas, que ampliavam meu “parque de diversões” musical: Virgin Records, também na Oxford com a Tottenham Court, Tower Records em Picadilly Circus… Esses lugares eram pontos de peregrinação para mim. Por isso mesmo, não foi sem certa tristeza que, na última viagem, quando eu fazia o caminho de volta ao hotel, percebi que os endereços tinham mudado radicalmente. A Virgin virou uma loja de telefones. Na esquina nobre da Tower, primeiro uma loja de roupas populares e hoje alguns painéis artísticos dão força à especulação de que o lugar, um dos pontos comerciais mais caros da cidade, está abandonado. E na aparentemente imbatível HMV, na Oxford desde 1921, há prateleiras recheadas de doces da Candy World.

Tudo muda nessa cidade, eu dizia para mim mesmo. E, a caminho de um jantar estupendo no The Edition, enquanto visitava alguns sobreviventes independentes ‒ a Sounds of the Universe (música do mundo) e a Sister Ray (bandas alternativas) ‒, encontrei indícios de que o espírito musical de Londres ainda estava muito vivo. No restaurante, com suas paredes cobertas de quadros antigos até o topo de seu pé-direito altíssimo, revezava pratos tradicionais revisitados (sopa de cogumelo, um bacalhau fresco cozido no ponto perfeito!) e lembranças de shows, entrevistas e reportagens que fiz pela cidade. Como a vez em que entrevistei o pai de Amy Winehouse, logo depois de a cantora ter sido encontrada morta em sua casa, em Camden Town. Deu vontade de voltar a esse cenário, e me agendei para fazer isso nos dias seguintes.

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As barracas do Old Spitalfields Market | Foto: iStock
Naquela noite, minha última no Brown’s, tratei de aproveitar não só a beleza do hotel, que na última renovação ganhou cores e texturas com a assinatura do bom gosto do estilista Paul Smith (que tem uma loja, talvez a mais elegante delas, logo ali em frente), como também mergulhar no passado desse prédio. Foi dali que Graham Bell fez a primeira ligação de telefone da história da Inglaterra e foi num de seus quartos também que o grande escritor Rudyard Kipling escreveu alguns de seus livros mais conhecidos. Pensava em tudo isso enquanto tomava um último dry martini no bar do hotel, decorado com as fotos do sensacional Terence Donovan (que empresta seu nome ao local), antes de subir e me entregar aos travesseiros mais macios que já experimentei em Londres.
A cosmopolita Brick Lane | Foto: iStock
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Grafite na região de East London | Foto: Andaz London Liverpool Street
Ambiente do moderno Andaz London Liverpool Street
Foto: divulgação
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O lobby do hotel The Edition
Ilustração: Antônio Tavares

Miscelânea cultural 

No dia seguinte, já teria outro lugar para experimentar. A paisagem urbana mudaria radicalmente no meu novo endereço, o impossivelmente trendy hotel Andaz. Eu estava me preparando para dias (e noites) mais rock’n’roll, mas sem perder nada no estilo. Afinal, era uma viagem com esse espírito musical e o Andaz prometia uma estadia ao mesmo tempo luxuosa e alternativa. Por uma triste coincidência, num roteiro tão recheado de artistas, foi justamente quando estava indo de um hotel ao outro que recebi uma ligação do Brasil, me informando que a incomparável Gal Costa tinha morrido. De dentro do meu black cab, o clássico táxi preto, tão espaçoso e típico de Londres, comecei a receber pedidos de portais de notícia para me conectar e comentar uma perda tão grande. Gal, numa triste coincidência, tinha vivido em Londres entre o final dos anos 1960 e início dos 70, e as conexões musicais logo vieram à minha memória.

Assim que cheguei ao Andaz, a princípio mal tive tempo de reparar na incrível recepção, com suas paredes recheadas de arte contemporânea, inclusive com vários grafites. Pedi logo uma conexão de internet e em questão de segundos já estava no meu novo quarto, falando com o Brasil e prestando minhas homenagens a Gal. No fim do dia, pude passear pela região e sentir as ruas em torno de Liverpool Street. Eu estava então em East London, uma área que nos últimos anos viveu uma rápida mudança urbana. Antes um endereço ultra-alternativo (Jamie Oliver foi um dos primeiros corajosos a abrir seu Fifteen por lá, em 2002), hoje a região não deixa nada a dever ao centro de Londres.


Clique aqui para ler a matéria na íntegra na edição 10 da Revista UNQUIET.

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Ações de conservação do meio ambiente e ações sociais

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Brown’s Hotel, a Rocco Forte Hotel 

  • Medidas  para monitorar e melhorar o consumo de energia, água, papel e desperdício de alimentos, bem como avançar para a erradicação de plásticos descartáveis ​​e não recicláveis.
  • Apoio a instituições de caridade locais e promoção do turismo em cada uma de localidades por meio de parcerias e campanhas diferenciadas.

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Andaz London Liverpool Street

  • Reconhecido pela Association of Energy Engineers com um prémio em 2018 pelo projeto Monitor & Save,  em vigor até os dias atuais.
  • Em 2018, criação do Andaz London Green Team com o objetivo de liderar os esforços de sustentabilidade do hotel, formado por colaboradores de todos os departamentos.
  • Uso do Hyatt EcoTrack para rastrear métricas de sustentabilidade, incluindo emissões de gases de efeito estufa, energia, água, resíduos e reciclagem.
  • Operação do prédio com eficiência para reduzir as emissões e o uso de água.
  • Trabalho em estreita colaboração com fornecedores que se comprometam a reduzir ou abandonar completamente as embalagens plásticas

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