Livrarias em Londres: Reading in Style

Londres é a cidade europeia com o maior número de livrarias especializadas em viagem. Uma tradição britânica que a UNQUIET traz até você

O excesso de chuvas de Londres não parece desestimular velhas manias, há muito arraigadas.

Incluam-se na lista a previsão do tempo, a jardinagem e os papéis de parede. Nenhuma dessas obsessões britânicas combina com a umidade, convenhamos. Livros também não. No entanto, apenas na principal biblioteca pública da cidade, a British Library, repousam 25 milhões de volumes. Lá estão relíquias como o manuscrito de Alice no País das Maravilhas (1864), de Lewis Carroll, e a letra original de “A Hard Day’s Night”, na caligrafia de John Lennon. A coleção ocupa nada menos que 600 quilômetros de prateleiras. Mais do que a distância entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Livrarias são outra mania londrina. O escritor americano Bill Bryson, que morou na Inglaterra, resumiu: “Londres é o melhor lugar do mundo para pôr uma carta no correio, caminhar, ver TV, comprar um livro, sair para tomar um trago, ir a um museu, usar dos serviços de um banco, perder-se, buscar auxílio ou ficar de pé numa colina observando a paisagem”.

Em uma metrópole com mais de 900 livrarias, é natural que várias se dediquem a um nicho bem específico: literatura de viagem. A seguir, as mais importantes.

Foto: Alamy

A mais bonita

O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) sempre imaginou o Paraíso como uma monumental biblioteca. Fãs do escritor costumam acreditar que ele estava se referindo à Daunt. Por fora, a entrada no prédio eduardiano, da primeira década do século 20, quando Eduardo 7º assumiu o trono do Reino Unido, parece até acanhada. Mas basta ultrapassá-la para se deslumbrar. Oito entre dez visitantes a fotografam e publicam no Instagram.

Do jardim de inverno no térreo já se divisam os três andares, guarnecidos por luz natural em virtude do generoso pé-direito e da encantadora claraboia. Tudo é elegante. Sobretudo as estantes, corrimãos e balaustradas, feitas do melhor carvalho. Um ambiente que é pura Belle Époque.

À diferença da Stanfords, a Daunt não se especializou em viagens. Mas esse é o seu forte. Tal como na concorrente, os títulos estão selecionados por continentes, países e cidades. Além dos guias de viagem, há guias de hotéis, história, biografias, livros de fotografia, de culinária. Também literatura. Nas estantes reservadas à França, por exemplo, lá está Paris É uma Festa, as lembranças de Ernest Hemingway de suas temporadas francesas na juventude.

A Daunt tem quatro filiais. Mas não se engane. O endereço certo é o da matriz, na Marylebone High.

dauntbooks.co.uk

Foto: Alamy

A mais famosa

A Stanfords é simplesmente a maior e mais completa livraria de viagens do planeta. Tem uma filial em Bristol, a 200 quilômetros da capital inglesa, mas sem o charme da matriz. A primeira loja foi inaugurada ainda em 1853, no bairro de Covent Garden, pelo célebre cartógrafo Edward Stanford. Dali transferiu-se em 1901 para a rua Long Acre, onde sobreviveu a um bombardeio nazista no ano de 1941. A mudança mais recente ocorreu em 2019, sempre em Covent Garden. O novo endereço, na Mercer Walk, segundo os proprietários, pode atender com mais rapidez e eficiência às compras pela internet.

Mudou de rua, mas não perdeu a majestade dos tempos em que o detetive Sherlock Holmes, em um dos romances de Conan Doyle (1859-1930), recomenda a Watson dar um pulo na Stanfords para adquirir um mapa da prisão de Dartmoor. De resto, a cartografia ainda é o forte, na companhia de globos de sortidas dimensões e dos 40 mil volumes dedicados a viagens. Para facilitar a consulta, as prateleiras estão divididas por continentes, países e cidades. Não são apenas guias, mas também livros que abordam a cultura de cada lugar, da culinária à literatura.

Para deixar bem claro que viajar é o tema princi­pal, a loja também oferece, entre outros objetos, adaptadores de tomadas, mochilas, bolsinhas pa­ra esconder dinheiro, bússolas modernas, a linha completa das cadernetas Moleskine e capas de chuva que, dobradas, ocupam mínimo espaço. Tudo, enfim, para manter a reputação de uma casa que também mereceu, ela própria, ser transformada em livro: The Mapmakers — A History of Stanfords, escrito por Peter Whitfield.

stanfords.co.uk

Foto: Reprodução

O presente ideal

Charing Cross Road é uma rua com várias livrarias, instaladas em casas estreitas de arquitetura vitoriana. Por exemplo: David Drummond e Marchpane’s. Nenhuma delas, no entanto, pode ser comparada à Goldsboro Books. Nenhuma outra do planeta, aliás.

A Goldsboro é a maior do mundo em sua especialidade: primeiras edições autografadas pelo autor. Atenção para o detalhe: são reconhecidas como tal apenas aquelas lançadas no país de origem do escritor.

Venerada por quem ama livros, foi criada por dois colecionadores amigos, David Headley e Daniel Gedeon. Eles abriram a loja em 1999 e se orgulham do olho clínico. Por exemplo: em 2013, adquiriram cópias autografadas de The Cuckoo’s Calling (O Chamado do Cuco), de Robert Galbraith. À primeira vista tratava-se apenas de um autor estreante. Mas Headley e Gedeon apostaram no talento do rapaz. Tanto que não se surpreenderam quando o Sunday Times revelou: Robert Galbraith era, na realidade, o pseudônimo de uma escritora de sucesso avassalador – J.K. Rowling, da série Harry Potter.

Para finalizar, lembre-se de que, para quem realmente gosta de livros, há poucos presentes
me­­lhores do que uma primeira edição. Principalmente autografada.

goldsborobooks.com

A mais descolada

Richard Curtis, o roteirista de Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), costumava frequentar a The Travel Book, especializada em viagens. Inspirou-se nela para escrever a história da estrela de cinema (Julia Roberts) que se apaixona por um desajeitado dono de livraria (Hugh Grant). No entanto, Curtis sempre deixou claro que a loja do filme foi montada em estúdio – não é a mesma do endereço do simpático bairro em que a cidade ainda paga tributo às fachadas coloridas da swinging London dos anos 1960. E daí?

Inaugurada em 1979, a Travel Books herdou os fãs do filme, que a tomam como genuína. E, de certa forma, é mesmo. Why not?

Isso não bastou, porém, para o verdadeiro do­no da livraria manter o negócio. Há duas décadas morando na França, ele tentou fazer o filho continuar seu legado. Não conseguiu. Assim, passou a casa adiante. Desde 2011, a The Travel Book está nas mãos de novos proprietários. Eles trocaram o nome. A livraria passou a se chamar The Notting Hill Books, para remeter ainda mais ao filme.

A rigor, foi a única mudança digna do nome. A loja continua idêntica e, da mesma maneira, tem no acervo guias, literatura de viagem, mapas, atlas, biografias – tudo organizado por países, como costuma ocorrer nos enclaves do ramo. Também vende, claro, edições diferentes do livro Um Lugar Chamado Notting Hill.

A propósito, a casa de fachada azul onde morava o personagem de Hugh Grant, ali pertinho, continua de pé e pintada da mesma cor. Quem residia ali, originalmente, era o próprio Richard Curtis. Sim, o autor da história.

thenottinghillbookshop.co.uk

Foto: Fotoarena
Foto: Reprodução

Para o chá da tarde

“Em determinadas circunstâncias, há poucas horas na vida mais agradáveis do que a cerimônia conhecida por chá da tarde.” Essa é a primeira frase do romance Retrato de uma Senhora, de Henry James (1843-1916), americano naturalizado britânico. Em Londres, você consegue conciliar o chá com a procura por livros de viagem. Assim acontece na Arthur Probsthain, livraria que tem, no andar de cima, a casa Tea & Tattle, dedicada às infusões vindas da Índia (o darjeeling, por exemplo), do Sri Lanka (o Royal English), do Quênia, da China, do Japão e de outros lugares. São servidas, claro, com scones, espécie de brioches, a serem preenchidos com clotted jam (creme de leite artesanal) e jam (geleias de morango ou framboesa, de preferência).

A Arthur Probsthain foi inaugurada em 1903, ainda nos idos colonialistas. Dois anos depois, mudou-se para o endereço atual. Já então dedicava-se a livros sobre a Ásia, a África e o Oriente Médio, ainda hoje o seu trunfo. Muitas das obras – algumas raríssimas – são encontradas em sua língua de origem.

Você não precisa, entretanto, atravessar a rua, entrar no British Museum — fica em frente — e consultar a Pedra de Roseta e outros documentos para decifrá-las. A maioria dos livros está em inglês, bastando tirá-los da prateleira, num ambiente aquecido pela bela e reconfortante lareira do salão principal. Boa parte dos títulos aparece listada no site da AbeBooks e pode ser comprada pela internet. Em tempo: a livraria ainda pertence à família do fundador.

teaandtattle.com

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