“O Deserto do Saara, formado por um mar de areia infinito, é o lugar onde o sol arde como fogo, onde a paisagem é vasta e árida, sem fronteiras.
Onde o vento sussurra segredos antigos, onde dunas se erguem como ondas de um oceano petrificado e se estendem até o horizonte sem jamais encontrar um fim. Um labirinto de areia e pedras onde encontramos a paz interior.
O Saara é um lugar de magia, onde o espírito se eleva e se liberta.”
Foi esse trecho poético que me inspirou e me levou até a Mauritânia para conhecer o maior deserto quente do planeta. Foram dias de pura aventura, num dos países menos visitados no mundo.
Mauritânia: localização e cultura
Banhada pelo Oceano Atlântico, a Mauritânia faz fronteira com a Argélia, o Mali e o Senegal. A população é formada por 99% de muçulmanos e as principais atividades econômicas são a mineração (ferro e cobre) e a pesca, com mais de 130 mil toneladas exportadas por ano. A cultura local é profusa, com uma mistura de influências árabes, berberes e africanas. A língua oficial é o árabe, mas o francês também é utilizado, especialmente para negócios, já que a região foi um protetorado da França entre 1903 e 1960, quando se tornou independente.





Mundus Travel
Benefício: 10% de desconto para leitores UNQUIET para reservas diretas com a Mundus Travel
- Use o código: UNQUIET
- Validade: Março de 2027


Entre o deserto e o mar: chegada a Nouakchott
Em um voo saído de Paris, cheguei à capital, Nouakchott, onde comecei a minha viagem. Nosso grupo era formado por sete pessoas, mais três carros com motoristas, um guia e um cozinheiro, com a proposta de oferecer o máximo de conforto possível, em um destino tão incomum e com quase nenhuma estrutura turística.
O primeiro dia começou com uma visita ao mercado de peixes, onde centenas de barcos de pesca coloridos chegavam para descarregar os pescados, em meio a uma multidão de pessoas vendendo, comprando ou apenas sentadas, em conversas informais. Segundo o costume local, quanto mais coloridos são os barcos e as pirogas, mais sorte trazem para uma boa pescaria.
Saindo de lá, colocamos o pé na estrada, rumo à Praia PK 100, onde nosso almoço aconteceu à beira-mar, brindado pelo espetáculo do contraste entre as dunas alaranjadas e o céu incrivelmente azul. Após o almoço, seguimos por estradas off-road até o hotel em Chami, onde ficaríamos por uma noite. Saímos cedo para conhecer o Parque Nacional Banc d’Arguin, um Patrimônio Mundial da Unesco. Embarcamos num barco a vela típico, chamado de tamunanet, ou faluca, e navegamos num silêncio completo até a Ilha de Tidrat, um santuário com mais de 120 espécies de aves migratórias. Na volta, almoçamos no pequeno vilarejo e de lá rumamos à cidade de Akjoujt.

A Imensidão do Saara: o deserto de Amatlich
No dia seguinte, tomamos o café da manhã e pegamos a estrada novamente, rodando 350 km pelo deserto, entre cânions e pequenos oásis. No caminho, fizemos uma parada num acampamento nômade, onde fomos convidados para a cerimônia do chá. Uma coisa interessante é que, em todos os lugares onde parávamos, sempre nos eram oferecidos chá e tâmaras, parte do ritual diário dos mauritanos. E o chá é sempre servido com muito açúcar, outro costume local. E, quanto mais doce, melhor.
Nesse trajeto, fomos contemplados com uma das paisagens mais incríveis da viagem: o Deserto de Amatlich e suas dunas gigantescas. Foi um momento de pura contemplação e silêncio. A viagem seguiu por paisagens que lembravam muito a Chapada Diamantina, na Bahia, entre montanhas e cânions, de uma beleza ímpar, a cada trecho percorrido.



Chinguetti:: a cidade do saber
Nossa jornada culminou com a chegada à cidade de Chinguetti, fundada no século XII e considerada também um Patrimônio da Unesco. Ela foi uma importante rota de comércio de sal, tecidos e livros, além de um percurso para as caravanas que cruzavam o Saara em camelos, vindas do Mali, da Argélia e do Marrocos. Considerada a sétima cidade mais importante do Islã (é conhecida como “a cidade do saber”), Chinguetti tem museus e bibliotecas que guardam versões do Corão (o livro sagrado dos muçulmanos) com mais de mil anos. Muitos desses livros e manuscritos pertencem à mesma família por 16 gerações ou mais e são verdadeiros tesouros.
Caminhamos em ruas de areia com casas feitas de pedras, numa atmosfera mágica e repleta de histórias. Visitamos o souq e fomos recebidos por mulheres que falavam sem parar, enquanto vendiam seus tecidos e artesanatos, sempre muito coloridos.
Ao final do dia, fizemos um passeio de camelo sob um pôr do sol vermelho, no melhor estilo berbere. Para fechar com chave de ouro, fomos convidados a participar de uma festa típica, com muitas danças e tambores, acompanhados de canções femininas e alegria.

Guelb er Richât: o olho da África
No dia seguinte bem cedo, seguimos viagem, dessa vez em direção a Ouadane. Antes de chegar à “cidade oásis”, fizemos algumas paradas em vilarejos berberes no meio do deserto. Ouadane é o oásis mais remoto da Mauritânia, com casas de pedras parcialmente em ruínas. Fundado em 1147, o vilarejo também foi um entreposto para as caravanas que cruzavam o Saara e nos serviu de pernoite antes de um dos momentos mais esperados da viagem: visitar o lendário Guelb er Richât. Conhecido como o “olho da África”, ele é formado por três círculos concêntricos, com mais de 50 km de diâmetro, que só podem ser avistados em sua totalidade no espaço. A teoria mais recente sobre o surgimento dessa estrutura é que ali havia um vulcão, que colapsou mais de 70 milhões de anos atrás e formou uma cratera gigantesca, com rochas que remontam a mais de 1 bilhão de anos. Nesse momento, me emocionei e me senti pequena e agradecida por poder conhecer um lugar único no planeta.




Arqueologia no Passo de Amojjar
De Ouadane, no dia seguinte, fomos para Atar, de novo desbravando uma região de montanhas, cânions e desfiladeiros, sempre acompanhados de um céu azul absurdo. Fizemos uma parada no caminho para conhecer o Passo de Amojjar, um sítio arqueológico com pinturas rupestres de 6 mil anos. Ele abriga vestígios de desenhos geométricos e de animais, como girafas e crocodilos, que foram pintados usando sangue e pó de pedras vermelhas. Esse tipo de pintura confirma que, no passado, o lugar era uma savana com uma variada vida animal e que, no decorrer dos séculos, ela virou um deserto. No mesmo trajeto, paramos no Oásis El Berbara, que, segundo o naturalista e explorador francês Theodore Monod, seria “o lugar mais isolado, o mais indiscutivelmente distante do que chamamos de mundo”.



Em Atar, visitamos o mercado, onde há uma profusão enorme de tecidos, especiarias e utensílios, para logo seguirmos a estrada. Passamos por planaltos rochosos, mais cânions e dunas, dessa vez em direção a Azougui, cidade fundada no século XI, de onde tribos berberes saíram rumo ao norte africano para estabelecer as cidades de Marrakesh e Sevilha, esta na região da Andaluzia. Partimos bem cedo, pois o dia seria longo ‒ mais de dez horas de viagem, passando pelo Vale Branco, em direção a Nouakchott, nosso destino final.

Na capital, conhecemos o Museu Nacional, que tem uma incrível coleção de artefatos arqueológicos e tecidos, que datam desde a pré-história até os dias de hoje. Finalizamos uma longa viagem pelo tempo e pela história milenar da Mauritânia, um lugar que me ensinou a apreciar a simplicidade e a grandiosidade do deserto.

Matéria publicada na edição 22 da Revista UNQUIET.

Mundus Travel
Turismo responsável e preservação ambiental
- Promoção de turismo de baixo impacto em destinos naturais remotos, incentivando o respeito ao meio ambiente e às comunidades visitadas.
- Experiências de conscientização ambiental, especialmente em regiões sensíveis como a Amazônia, estimulando viajantes a compreender a importância da preservação desses ecossistemas.
- Viagens focadas na natureza e na simplicidade, valorizando paisagens preservadas e formas de vida sustentáveis.
Valorização de culturas e comunidades locais
- Interação respeitosa com comunidades tradicionais e indígenas, promovendo vivências culturais autênticas e aprendizado sobre saberes ancestrais.
- Experiências de etnoturismo, que aproximam viajantes de povos indígenas e incentivam o respeito às suas tradições e modos de vida.
- Conexões culturais profundas durante as expedições, incentivando o entendimento da diversidade cultural dos destinos visitados.
Impacto social e desenvolvimento local
- Geração de renda para comunidades locais, por meio da contratação de guias regionais, hospedagens locais e serviços comunitários durante as expedições.
- Incentivo à economia regional, valorizando produtos, experiências e serviços oferecidos por moradores dos destinos visitados.
- Promoção de viagens transformadoras, que estimulam responsabilidade social e consciência global entre os viajantes.
Educação e conscientização
- Viagens com propósito educativo, que estimulam reflexão sobre natureza, cultura e sustentabilidade.
- Experiências imersivas que incentivam o autoconhecimento e a conexão com diferentes culturas e ambientes naturais








































































































































































