Alex de Jesus tem 40 e poucos anos e nunca deixou a Praia do Bonete, em Ilhabela, a comunidade caiçara onde nasceu, aprendeu a pescar com o pai em canoas cavadas num só tronco e onde cria os três filhos. Nos últimos dias, porém, seu nome passou a circular além daquela enseada isolada no litoral norte de São Paulo.
Foi reconhecido pelo Ministério da Pesca como um guardião dos saberes tradicionais da pesca artesanal, título que homenageia mestres responsáveis por preservar técnicas e conhecimentos transmitidos entre gerações. O título, cuja concorrência foi acirrada, com mais de 300 participantes por todo o Brasil, ajuda a compreender a intenção do Instituto A.MAR, fundado e conduzido pelo empreendedor Rodolfo Vilar, em 2023, para valorizar a pesca artesanal e as comunidades que a mantêm.
Dorival Caymmi dificilmente imaginaria que, quase sete décadas depois de compor Suíte do Pescador, por meio da qual deu voz ao pescador artesanal, um projeto surgido em Ilhabela nasceria justamente para preservar o modo de vida que havia eternizado em sua canção. O A.MAR criou um ecossistema formado por laboratório, escola, restaurante e projetos sociais para garantir que a pesca artesanal sobreviva como uma atividade capaz de sustentar as comunidades que dela vivem – e não só como uma simples memória do cancioneiro popular brasileiro.
O instituto, que nasceu para fortalecer as comunidades pesqueiras tradicionais, está em expansão. Além do restaurante recém-aberto na ilha, que funciona apenas uma vez ao mês ou com reserva para pequenos grupos, são ferramentas do projeto o laboratório de pesquisa e desenvolvimento de produtos e a Escola de Alimentos do Mar, que capacita pescadores para obter peixes de melhor qualidade e com maior valor agregado.

Pescadores como Alex, de uma comunidade tradicional, sem energia elétrica, passaram a aprender técnicas como o ikejime, o método japonês de abate que melhora a qualidade do pescado e amplia seu valor comercial. “Aprendi muito com o Rodolfo. Com técnica, a gente tem um peixe melhor”, diz o caiçara. “E, com o peixe melhor, o preço também dá uma valorizada.” O instituto também distribui gelo gratuitamente, incentiva a venda direta, prepara familiares para produzir conservas e outros alimentos e desenvolve iniciativas de geração complementar de renda, como a criação de abelhas nativas.
O modelo deixou de ser exclusivo dessa comunidade, acessada somente por barco ou a pé. Depois de experiências no Ceará, onde pescadores artesanais receberam treinamento e passaram a vender diretamente a restaurantes, o instituto abre novas frentes na Bahia e negocia um projeto semelhante com o governo do Benim, na África. A lógica é replicar um sistema que combina a qualificação técnica, a agregação de valor ao pescado e a redução da dependência de atravessadores.
Um dos principais instrumentos desse trabalho é o laboratório instalado em Ilhabela, que realiza pesquisas de técnicas tradicionais de conservação de peixes fora do gelo, como salga, defumação, fermentação, charcutaria e conservas. Os estudos também deram origem a experiências pouco convencionais, como o envelhecimento de espumantes no fundo do mar em parceria com a Vivente, uma vinícola gaúcha. Os produtos desenvolvidos ajudam a financiar parte das atividades do instituto.

A Escola de Alimentos do Mar completa esse ciclo. Em cursos e imersões, profissionais e interessados aprendem desde boas práticas de pesca até a maturação, a fermentação e o aproveitamento integral dos pescados, levando adiante conhecimentos desenvolvidos ao lado das comunidades.
Esse percurso termina na sede do instituto, instalada de forma improvável em uma antiga vaga de barco na marina de Ilhabela. À noite, e em datas alternativas e esparsas, o espaço recebe pequenos jantares, preparados apenas com um fogão a lenha e ingredientes desenvolvidos pelo próprio laboratório.
O espaço funciona como uma extensão do instituto: uma maneira de mostrar, à mesa, tudo o que começa no trabalho dos pescadores e na conservação dos saberes antigos. “É um ambiente absolutamente rústico, mas com requinte nos detalhes”, diz Rodolfo. “Meu foco é que você coma bem, fique mais tempo na mesa e escute o que realmente importa: ‘O que é o Instituto A.MAR?’ Quero pegar as pessoas pelo estômago.”
Matéria publicada na edição 24 da Revista UNQUIET.
























































































































































































