Por décadas, Dublin foi apresentada ao mundo por meio de seus escritores. As ruas georgianas da capital irlandesa ainda carregam as marcas de Oscar Wilde, James Joyce, W. B. Yeats e Samuel Beckett, enquanto bibliotecas centenárias, livrarias independentes e pubs históricos alimentam uma das tradições literárias mais ricas da Europa.
Nas últimas décadas, a cidade encontrou uma nova linguagem. Sem abandonar sua herança intelectual, ela se consolidou como um dos principais polos europeus de tecnologia e economia criativa, uma transformação que impulsionou uma notável renovação cultural. Hoje teatros, grandes coleções de arte, museus contemporâneos, bairros artísticos e uma arquitetura que dialoga com o passado e o futuro fazem de Dublin uma das cenas mais vibrantes da Europa.
Uma pequena West End às margens do Liffey
O teatro talvez seja o melhor retrato da transformação de Dublin. Em menor escala, a cidade faz um paralelo com o West End londrino, combinando grandes produções internacionais com uma tradição dramatúrgica profundamente ligada à identidade irlandesa. O principal símbolo dessa nova fase é o Bord Gáis Energy Theatre, nos Docklands. Projetado por Daniel Libeskind, o edifício se tornou um ícone da revitalização da região e consolidou Dublin no circuito europeu dos grandes musicais, recebendo produções da Broadway e do West End.
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Seguindo o Rio Liffey em direção ao centro histórico, surgem as raízes do teatro irlandês. O Abbey Theatre, fundado em 1904 por W. B. Yeats e lady Gregory, ajudou a moldar a identidade cultural do país. A poucos minutos dali, o Gate Theatre é uma referência em montagens clássicas e contemporâneas, enquanto o histórico Gaiety Theatre, inaugurado em 1871, continua a receber musicais, óperas, balés e concertos.
Percorrer esses palcos é acompanhar a evolução cultural de Dublin. Mais do que uma alternativa ao West End, a cidade oferece uma experiência teatral própria, intimista e profundamente conectada à cultura irlandesa.
Coleções que contam a história da Europa
Estive em Dublin pela primeira vez há muitos anos, quando era estudante na vizinha Galway. Lembro de caminhar pela cidade quase sem roteiro, entrando em museus e descobrindo coleções que jamais imaginava haver na Irlanda. Ao revisitá-las, percebi que Dublin não é apenas a cidade de Joyce e Yeats, mas também um dos grandes destinos europeus para as artes visuais.


A National Gallery of Ireland reúne mais de 17 mil obras, que percorrem sete séculos de arte. Caravaggio, Rubens, Vermeer, Velázquez, Goya, Turner, Monet e Picasso dividem espaço com artistas irlandeses, especialmente Jack B. Yeats.
A visita teve um significado especial. Depois de acompanhar importantes retrospectivas de Vermeer e Caravaggio em Amsterdam e Roma, reencontrei em Dublin o único Vermeer da Irlanda, Woman Writing a Letter with Her Maid, e The Taking of Christ, redescoberta na cidade na década 1990. Longe das multidões, a experiência reforçou a convicção de que algumas das coleções mais extraordinárias da Europa estão justamente nos destinos menos óbvios.
A poucos minutos dali, o Museu Nacional percorre 5 mil anos da história da ilha por meio de joias celtas, espadas da Idade do Bronze, objetos litúrgicos e os impressionantes corpos preservados nas turfeiras, revelando o papel da Irlanda na preservação do conhecimento durante a Idade Média.
Seguindo alguns quarteirões, a Chester Beatty reúne manuscritos islâmicos iluminados, pergaminhos chineses, pinturas japonesas, papiros egípcios e livros raros. Uma coleção que celebra o encontro entre culturas e confirma que, apesar de suas dimensões, Dublin abriga alguns dos mais notáveis acervos artísticos da Europa.



Teatros, grandes
coleções de
arte, museus
contemporâneos,
bairros criativos e
uma arquitetura que
dialoga entre passado
e futuro marcam a
cena de Dublin
Entre Bacon e o futuro
Se a história ocupa um lugar de destaque, a arte contemporânea revela uma Dublin permanentemente voltada para o futuro. Depois de anos, dirigi novamente na mão-inglesa para descobrir o Irish Museum of Modern Art (Imma), o principal museu de arte contemporânea da Irlanda. Instalado em um edifício do século XVII, onde funcionou um hospital, o Imma reúne milhares de obras produzidas desde os anos 1940, incluindo nomes fundamentais, como Marina Abramovic, Lucian Freud, Sean Scully e Dorothy Cross, além de exposições temporárias voltadas aos grandes debates da produção artística contemporânea.
Antes de entrar nas galerias, passei um bom tempo percorrendo o jardim de esculturas, onde obras contemporâneas dialogam com a arquitetura clássica do antigo hospital e sua paisagem. Frequentados por moradores, estudantes e visitantes, ambos revelam uma das maiores qualidades do Imma: um museu que faz parte da cidade, sofisticado, mas sem excessos, criativo e profundamente conectado ao cotidiano de Dublin.

Outra visita indispensável é à Hugh Lane Gallery, responsável por preservar o estúdio completo de Francis Bacon, um dos artistas que mais marcaram a minha formação. As figuras distorcidas e os trípticos monumentais, marcas registradas de Bacon, carregados de uma intensidade quase brutal, ocupam um lugar indiscutível na história da arte do século XX. Curiosamente, sua pintura nunca pareceu tão atual. Nas últimas décadas, uma nova geração de artistas voltou a explorar a potência da figura humana, o corpo fragmentado e a carga psicológica da pintura. Nomes como Adrian Ghenie, Jenny Saville e Cecily Brown dialogam, cada um à sua maneira, com o legado deixado por Bacon e por Lucian Freud, reafirmando a força da pintura figurativa em plena era digital.
Em Dublin, porém, o reencontro acontece de forma completamente diferente. Em vez das telas, é possível entrar em seu universo criativo. O ateliê foi transferido peça por peça de Londres para a Hugh Lane Gallery*, preservando mais de 7 mil objetos exatamente como Bacon os deixou. A experiência é quase arqueológica. Em vez de contemplar a obra acabada, acompanham-se os vestígios do pensamento do artista, compreendendo referências, obsessões e experimentações que deram origem a algumas das pinturas mais inquietantes do século passado. Para quem admira Francis Bacon, poucos lugares do mundo oferecem uma aproximação tão íntima com o seu processo criativo, em meio ao aparente caos de seu estúdio.

* A Hugh Lane Gallery passará por um amplo processo de renovação e permanecerá fechada até 2028. Durante esse período, parte da coleção pode ser visitada em outras galerias e museus da cidade ou por meio de visitas virtuais, disponibilizadas pelo museu.
A cidade como galeria
Ao longo do Liffey, esculturas e instalações dialogam naturalmente com a arquitetura ao redor. O Spire, na O’Connell Street, tornou-se um dos novos símbolos de Dublin, enquanto bairros como Smithfield, Temple Bar e Docklands concentram galerias, estúdios, arte urbana e pequenos centros culturais, que mantêm viva a produção local. Em uma caminhada pelos Docklands, encontro a melhor tradução da transformação de Dublin. Antigos armazéns portuários deram lugar a edifícios contemporâneos, que hoje abrigam sedes de unicórnios de tecnologia, cafés, espaços de coworking e uma expressiva coleção de arte pública, que compõem uma paisagem de reinvenção da cidade.



Dublin Hotel

Se os Docklands representam a Dublin voltada para o futuro, o Temple Bar continua sendo seu coração cultural. Internacionalmente conhecido pelos pubs e pela atmosfera festiva, o bairro, localizado no sudoeste do Rio Liffey, batizado a partir de seu mais famoso pub, é há décadas o epicentro da animada vida noturna irlandesa.
Mas basta me afastar das ruas mais movimentadas para descobrir outro lado do distrito. Entre vielas de paralelepípedos, encontro instituições fundamentais para a cultura irlandesa, como o Irish Film Institute e o Project Arts Centre, além de galerias independentes, livrarias, ateliês, mercados e músicos de rua, que alimentam diariamente sua efervescência criativa. Sinto que pisei em uma Dublin onde a tradição e a contemporaneidade convivem de forma espontânea. O Temple Bar é muito mais do que um endereço para um obrigatório pint de Guiness. Trata-se de um dos maiores símbolos da vida cultural irlandesa.
Voltei de Dublin com a sensação de que a cidade dos escritores continua tão viva quanto da primeira vez em que a visitei. Mas hoje ela divide o protagonismo com as novas gerações, que aprenderam a transformar antigos portos em bairros criativos, hospitais em museus de arte contemporânea, teatros centenários em espaços de experimentação e suas ruas em uma galeria a céu aberto. Poucas cidades conseguem integrar arte, arquitetura, literatura e inovação de maneira tão natural. Em Dublin, a cultura faz parte da vida cotidiana e continua sendo escrita todos os dias.
Anantara The Marker Dublin Hotel
Localizado nos Docklands, o bairro que melhor representa a transformação urbana da cidade nas últimas décadas, o hotel coloca o visitante a poucos minutos de alguns dos principais teatros, museus, galerias e restaurantes. Mais do que uma excelente localização, o hotel oferece uma oportunidade de experimentar Dublin da mesma forma que ela se reinventa: conectando patrimônio histórico, criatividade, arquitetura, gastronomia e arte contemporânea.
Matéria publicada na edição 24 da Revista UNQUIET.

Anantara
Ações ambientais
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Certificações Green Growth 2050 e Bioscore – hotel certificado por seu compromisso com gestão ambiental e turismo sustentável.
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Iluminação LED em todo o hotel – redução do consumo de energia por meio de iluminação de alta eficiência.
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Eficiência energética – sistemas de climatização e aquecimento de baixo consumo em quartos e áreas comuns.
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Redução de plásticos descartáveis – substituição dos cartões-chave de plástico por cartões de madeira.
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Garrafas de água sustentáveis – parceria com W.B. Yeats Water, utilizando embalagens cartonadas recicláveis em vez de garrafas plásticas.
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Gestão eficiente da água – equipamentos economizadores de água e programa de reutilização de toalhas e roupas de cama.
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Reciclagem e redução de resíduos – reciclagem de materiais, eliminação de plásticos de uso único e recipientes reutilizáveis para amenities.
Ações sociais
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Dollars for Deeds – hóspedes podem doar €1 por noite, e o Anantara dobra o valor para projetos sociais locais.
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St. Andrew’s Resource Centre – apoio ao centro comunitário que oferece programas para jovens, empregabilidade e inclusão social em Dublin.
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Compra de alimentos de produtores locais – priorização de fornecedores irlandeses e produção agrícola sustentável, fortalecendo a economia local.
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Gastronomia sustentável – o chef Gareth Mullins implementa controle de porções, reaproveitamento de ingredientes e redução do desperdício alimentar.
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Experiência Spice Spoons – passeio gastronômico em Howth com pescadores e produtores locais, valorizando a pesca responsável e a culinária irlandesa.
























































































































































































