Dos Grand Tours, que jovens aristocratas europeus faziam entre os séculos XVII e XIX, aos desbravadores de lugares inóspitos cujos diários foram publicados, as viagens sempre foram um marcador de classe e uma poderosa moeda social. Mas, se antes eram um privilégio de poucos, o avanço da tecnologia e a democratização dos deslocamentos ‒ levados à potência máxima graças à dinâmica competitiva das redes sociais ‒ elevaram as viagens ao patamar da hipermobilidade, glamourizada como nunca.
Cresci acreditando que viajar era importante para a minha formação. Que viajar era aprender. A maturidade também me fez perceber algo mais íntimo: um complexo de inferioridade, que me levou a buscar, na leitura e nas viagens, o repertório para conquistar algum respeito e admiração. Numa época em que discussões sobre a diversidade inexistiam, a Bahia não era um fetiche, a comida japonesa causava estranhamento e ser gay e filho de mãe nordestina e pai japonês estava longe de ser um conjunto de credenciais valorizado em São Paulo. A cultura, em grande parte por meio das viagens, acabou sendo um caminho de redenção.
Tendo vivido em uma época em que não havia filas nos aeroportos e eu viajava de Concorde para Nova York durante meus anos de faculdade em Londres, hoje me intriga o entusiasmo automático com que se fala de viagens, como se elas carregassem uma aura quase moral de virtude e profundidade. Todos “amam viajar”, mas ninguém quer ser turista (turistas são sempre os outros). As experiências ‒ cada vez mais comerciais e previsíveis ‒ se acumulam como os itens ticados de uma lista de compras: a bucket list, uma expressão que sempre me soou como uma redução empobrecedora da vivência humana.
G. K. Chesterton sugeriu que viajar pode, paradoxalmente, “estreitar a mente”. Ralph W. Emerson via nas viagens uma ilusão, a tentativa de escapar de si mesmo, mas que invariavelmente fracassa. Montaigne escreveu seus Ensaios ‒ tão belos quanto universais ‒ sem quase nunca ter deixado seu castelo, em Bordeaux, França. E, no Livro do Desassossego, Fernando Pessoa profetiza: “Ah, que viajem aqueles que não existem… Viajar é para quem não sabe sentir”.
Conheço viajantes incansáveis ‒ pessoas que atravessam continentes e têm acesso às experiências mais incríveis de cada lugar ‒ e que, ainda assim, parecem impermeáveis ao mundo. Autocentrados, amam culturas distantes desde que elas permaneçam à distância de seu círculo social. São capazes de visitar comunidades remotas do outro lado do planeta, mas não atravessariam a própria cidade para conhecer realidades que os confrontem de verdade.
As viagens me fizeram não conseguir ter convicções rígidas sobre qualquer assunto. Tem também a questão das muitas vulnerabilidades. Como a de estar preso em uma estrutura de metal pressurizada a 10 mil metros de altura ou em um país cujo idioma não domino, com um sistema de leis alienígenas ao meu modo de viver. Tem ainda as geradas pelo nosso próprio corpo, como a doença que decide se manifestar quando se está longe de casa. Por fim, tem os desconfortos: as cada vez mais complexas regras das companhias aéreas e os fusos, que desorganizam o tempo e a mente, quando não reconhece a cama do hotel nas primeiras noites.
Ainda assim, sigo apreciando o retorno humano e cultural, a ponto de ter transformado as viagens em trabalho. Seja nos textos, seja na curadoria de experiências para clientes, é gratificante compartilhar uma visão de mundo mais crítica, convidando a um olhar mais consciente sobre o próprio ato de viajar.
+ Leia outras crônicas de viagem publicadas na UNQUIET
Matéria publicada na edição 23 da revista















































































































































































