Ruy Tone: o grande encontro

Um encontro em Pokhara que atravessou décadas e revelou a dura realidade de uma refugiada tibetana no Nepal

Foi o acaso? Ou o popular “quem procura acha”? Há quase 30 anos, em minha primeira incursão pela Ásia e pelo Himalaia, fiz um trekking pelos Annapurnas e, ao final, vi-me em Pokhara, perambulando no entorno do Lago Phewa. Observei, de forma curiosa, as desventuras de algumas vendedoras que trajavam vestimentas que, até então, me eram desconhecidas.

Abordando os turistas que chegavam para ver a beleza do lago, mas sem sucesso nas vendas, sugeri a elas que almoçassem comigo em um restaurante próximo. Uma indenização pela não-compra.

Uma delas aceitou e, durante a refeição, contou-me que os trajes eram de origem tibetana: eram moradoras de um acampamento de refugiados tibetanos. Minha curiosidade aguçou e, ao indagar a possibilidade de uma visita, ela foi simpática e afirmativa e me conduziu para o Parjoling Refugee Camp, onde, entre as pessoas que me apresentou, havia uma menina tímida de 5 anos, Tsering Tsomo, filha de uma refugiada tibetana no Nepal.

Dali nasceu uma relação que perdura até hoje. Foram várias visitas acompanhando a evolução escolar, saindo desde a pequena escola do campo de refugiados até a escola internacional, em Kathmandu, e a faculdade de enfermagem, em Bangalore. Houve um ponto de inflexão maior, um trekking pelo reino de Mustang, um enclave no Nepal, para celebrar a maioridade dela, em um dos poucos territórios que poderia adentrar de posse apenas do RC (refugee card).

Nessa caminhada, houve um processo de amadurecimento de relação de pai e filha, de escolhas e caminhos possíveis na vida. Um percurso de mais de 200 km, em altitude, duríssimo, mas que fortaleceu o relacionamento que passou a existir entre nós. E definiu também a escolha da profissão: enfermeira.

Entender o porquê de se dedicar a uma pessoa que não é biologicamente ligada a você apenas amadurece e fortalece o entendimento de como é difícil, às vezes, a vida de alguém diante da burocracia instalada neste planeta.

Nascida sem direito à cidadania e sem passaporte, ela não poderia trabalhar de forma legal no Nepal, mesmo se graduada em uma universidade do país. Por isso, pela possibilidade de legalidade de trabalho, buscou a graduação na Índia.

No entanto, pouco após o início, ligou um dia, triste e consternada, disposta a abandonar o curso. Tinham baixado na Índia a mesma tipologia de lei, dificultando o acesso ao trabalho legalizado a pessoas como ela, perdidas entre a diáspora da migração forçada e a origem de nascença como refugiada no destino escolhido. Ela, assim como eu, é a terceira geração no país da diáspora. Ela, em um tom de cortar o coração, questionou-me que mundo era esse, que lhe negava, sucessivamente, o direito a uma cidadania e a um passaporte para circular de forma livre por aí. Ela nasceu na negação de direitos. Não pude responder.

A volta por cima aconteceu como fruto da pandemia e da profissão escolhida, que a colocou na rota do trabalho legalizado, mesmo sem passaporte, no Reino Unido. Trabalhando na profissão formada, em um hospital de Manchester, se sustentando e ajudando a família, ela é uma demonstração de que podemos participar ativamente na melhora do mundo ao nos envolvermos mais com as pessoas dos destinos visitados

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Matéria publicada na edição 22 da revista

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