Desvendando a Mauritânia

O Saara, entre ecos da cultura berbere, paisagens dramáticas e rituais do povo mauritano

“O Deserto do Saara, formado por um mar de areia infinito, é o lugar onde o sol arde como fogo, onde a paisagem é vasta e árida, sem fronteiras. 

Onde o vento sussurra segredos antigos, onde dunas se erguem como ondas de um oceano petrificado e se estendem até o horizonte sem jamais encontrar um fim. Um labirinto de areia e pedras onde encontramos a paz interior. 

O Saara é um lugar de magia, onde o espírito se eleva e se liberta.”  

Foi esse trecho poético que me inspirou e me levou até a Mauritânia para conhecer o maior deserto quente do planeta. Foram dias de pura aventura, num dos países menos visitados no mundo. 

Mauritânia: localização e cultura

Banhada pelo Oceano Atlântico, a Mauritânia faz fronteira com a Argélia, o Mali e o Senegal. A população é formada por 99% de muçulmanos e as principais atividades econômicas são a mineração (ferro e cobre) e a pesca, com mais de 130 mil toneladas exportadas por ano. A cultura local é profusa, com uma mistura de influências árabes, berberes e africanas. A língua oficial é o árabe, mas o francês também é utilizado, especialmente para negócios, já que a região foi um protetorado da França entre 1903 e 1960, quando se tornou independente.

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Os barcos que, segundo a tradição, quanto mais coloridos, mais sorte atraem aos pescadores

Entre o deserto e o mar: chegada a Nouakchott 

Em um voo saído de Paris, cheguei à capital, Nouakchott, onde comecei a minha viagem. Nosso grupo era formado por sete pessoas, mais três carros com motoristas, um guia e um cozinheiro, com a proposta de oferecer o máximo de conforto possível, em um destino tão incomum e com quase nenhuma estrutura turística. 

O primeiro dia começou com uma visita ao mercado de peixes, onde centenas de barcos de pesca coloridos chegavam para descarregar os pescados, em meio a uma multidão de pessoas vendendo, comprando ou apenas sentadas, em conversas informais. Segundo o costume local, quanto mais coloridos são os barcos e as pirogas, mais sorte trazem para uma boa pescaria. 
Saindo de lá, colocamos o pé na estrada, rumo à Praia PK 100, onde nosso almoço aconteceu à beira-mar, brindado pelo espetáculo do contraste entre as dunas alaranjadas e o céu incrivelmente azul. Após o almoço, seguimos por estradas off-road até o hotel em Chami, onde ficaríamos por uma noite. Saímos cedo para conhecer o Parque Nacional Banc d’Arguin, um Patrimônio Mundial da Unesco. Embarcamos num barco a vela típico, chamado de tamunanet, ou faluca, e navegamos num silêncio completo até a Ilha de Tidrat, um santuário com mais de 120 espécies de aves migratórias. Na volta, almoçamos no pequeno vilarejo e de lá rumamos à cidade de Akjoujt. 

Barcos de pesca rumo a mais um dia de atividades

A Imensidão do Saara: o deserto de Amatlich

No dia seguinte, tomamos o café da manhã e pegamos a estrada novamente, rodando 350 km pelo deserto, entre cânions e pequenos oásis. No caminho, fizemos uma parada num acampamento nômade, onde fomos convidados para a cerimônia do chá. Uma coisa interessante é que, em todos os lugares onde parávamos, sempre nos eram oferecidos chá e tâmaras, parte do ritual diário dos mauritanos. E o chá é sempre servido com muito açúcar, outro costume local. E, quanto mais doce, melhor.  

Nesse trajeto, fomos contemplados com uma das paisagens mais incríveis da viagem: o Deserto de Amatlich e suas dunas gigantescas. Foi um momento de pura contemplação e silêncio. A viagem seguiu por paisagens que lembravam muito a Chapada Diamantina, na Bahia, entre montanhas e cânions, de uma beleza ímpar, a cada trecho percorrido.

Venda de peixes no mercado de Nouakchott
A Praia Pk 100, totalmente deserta
Cerimônia tradicional do chá em uma tribo berbere

Chinguetti:: a cidade do saber  

Nossa jornada culminou com a chegada à cidade de Chinguetti, fundada no século XII e considerada também um Patrimônio da Unesco. Ela foi uma importante rota de comércio de sal, tecidos e livros, além de um percurso para as caravanas que cruzavam o Saara em camelos, vindas do Mali, da Argélia e do Marrocos. Considerada a sétima cidade mais importante do Islã (é conhecida como “a cidade do saber”), Chinguetti tem museus e bibliotecas que guardam versões do Corão (o livro sagrado dos muçulmanos) com mais de mil anos. Muitos desses livros e manuscritos pertencem à mesma família por 16 gerações ou mais e são verdadeiros tesouros. 

Caminhamos em ruas de areia com casas feitas de pedras, numa atmosfera mágica e repleta de histórias. Visitamos o souq e fomos recebidos por mulheres que falavam sem parar, enquanto vendiam seus tecidos e artesanatos, sempre muito coloridos. 

Ao final do dia, fizemos um passeio de camelo sob um pôr do sol vermelho, no melhor estilo berbere. Para fechar com chave de ouro, fomos convidados a participar de uma festa típica, com muitas danças e tambores, acompanhados de canções femininas e alegria.

Passeio até o Parque Nacional Banc d’Arguin em uma faluca tradicional

Guelb er Richât: o olho da África 

No dia seguinte bem cedo, seguimos viagem, dessa vez em direção a Ouadane. Antes de chegar à “cidade oásis”, fizemos algumas paradas em vilarejos berberes no meio do deserto. Ouadane é o oásis mais remoto da Mauritânia, com casas de pedras parcialmente em ruínas. Fundado em 1147, o vilarejo também foi um entreposto para as caravanas que cruzavam o Saara e nos serviu de pernoite antes de um dos momentos mais esperados da viagem: visitar o lendário Guelb er Richât. Conhecido como o “olho da África”, ele é formado por três círculos concêntricos, com mais de 50 km de diâmetro, que só podem ser avistados em sua totalidade no espaço. A teoria mais recente sobre o surgimento dessa estrutura é que ali havia um vulcão, que colapsou mais de 70 milhões de anos atrás e formou uma cratera gigantesca, com rochas que remontam a mais de 1 bilhão de anos. Nesse momento, me emocionei e me senti pequena e agradecida por poder conhecer um lugar único no planeta.

Vista espacial do fenômeno “olho da África”
As formações de Guelb er Richât, o lendário “olho da África”
Mesquita do século XII nos arredores de Chinguetti
Textos do Corão

Arqueologia no Passo de Amojjar

De Ouadane, no dia seguinte, fomos para Atar, de novo desbravando uma região de montanhas, cânions e desfiladeiros, sempre acompanhados de um céu azul absurdo. Fizemos uma parada no caminho para conhecer o Passo de Amojjar, um sítio arqueológico com pinturas rupestres de 6 mil anos. Ele abriga vestígios de desenhos geométricos e de animais, como girafas e crocodilos, que foram pintados usando sangue e pó de pedras vermelhas. Esse tipo de pintura confirma que, no passado, o lugar era uma savana com uma variada vida animal e que, no decorrer dos séculos, ela virou um deserto. No mesmo trajeto, paramos no Oásis El Berbara, que, segundo o naturalista e explorador francês Theodore Monod, seria “o lugar mais isolado, o mais indiscutivelmente distante do que chamamos de mundo”. 

Livro com mais de mil anos entre as relíquias de museu em Chinguetti
Nômades cruzam o deserto na companhia de seus camelos
Estrutura de pedra da cidade antiga de Ouatane, do século XII

Em Atar, visitamos o mercado, onde há uma profusão enorme de tecidos, especiarias e utensílios, para logo seguirmos a estrada. Passamos por planaltos rochosos, mais cânions e dunas, dessa vez em direção a Azougui, cidade fundada no século XI, de onde tribos berberes saíram rumo ao norte africano para estabelecer as cidades de Marrakesh e Sevilha, esta na região da Andaluzia. Partimos bem cedo, pois o dia seria longo ‒ mais de dez horas de viagem, passando pelo Vale Branco, em direção a Nouakchott, nosso destino final. 

Inscrições rupestres de 6 mil anos atrás no Passo de Amojjar

Na capital, conhecemos o Museu Nacional, que tem uma incrível coleção de artefatos arqueológicos e tecidos, que datam desde a pré-história até os dias de hoje. Finalizamos uma longa viagem pelo tempo e pela história milenar da Mauritânia, um lugar que me ensinou a apreciar a simplicidade e a grandiosidade do deserto.    

Todo o trajeto é feito por estradas que passam por entre cânions e chapadas

mundus.com.br  
@mundustravel

Matéria publicada na edição 22 da Revista UNQUIET.

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