Projeto Cabocla, Goiás

Um dos trechos mais conhecidos da obra de Cora Coralina traduz, hoje, o ideal de um projeto de reinserção social para presidiários, desenvolvido com bordados na cidade natal da poetisa

“Recria a tua vida, sempre, sempre” – Cora Coralina

A cidade de Goiás é uma graça. Não estivesse distante 300 quilômetros de Brasília, motivaria um turismo bem menos acanhado. Fundada pelos bandeirantes no século 18, guarda um adorável casario em ruas de pedra, guindado a Patrimônio Histórico pela Unesco em 2001. Pacata, com menos de 25 mil moradores, foi a primeira capital do estado homônimo até 1935 e mantém diversos chamarizes, de igrejas a museus, incluindo a casa da poetisa Cora Coralina (1889-1985), dona de lírica visão do cotidiano. Pertinho dali, na Rua Moretti Foggia, número 13, desponta outra atração: a loja Cabocla.

“Está instalada na antiga casa da Mestra Silvina, a única professora que Cora Coralina teve”, lembra Milena Curado, a proprietária. Não é esse, no entanto, o principal atrativo da Cabocla. Suas roupas, bordadas à mão com minúcias, são o ponto forte da loja. Em especial quando se sabe como são feitas: cada peça é fruto do trabalho de presidiários da Unidade Prisional da Cidade de Goiás, a cadeia pública local.

“O Projeto Cabocla – Bordando Cidadania tem várias funções: ocupa o tempo ocioso dos detentos, ensina uma atividade, diminui a pena e, claro, remunera”, explica Milena, autora da ideia. “É um dia a menos de detenção para cada três dias trabalhados”. 

projeto cabocla: Almofadas bordadas por Braga
Almofadas bordadas por Braga | Foto: Divulgação
Milena com vestido bordado | Foto: Divulgação

O projeto teve início em 2008. Um ano antes, Milena, que é formada em gestão pública, estava insatisfeita, trabalhando em um cartório de registros de imóveis. “Sempre fui ligada às artes e estava frustradíssima naquela função burocrática”, resume. Deu-se a luz quando viu a avó Wanda, sua vizinha, bordando com capricho. “Minha mãe havia aprendido a ocupação com ela, e eu também”, relembra. “Decidi abrir uma loja de roupas desenhadas por mim e bordadas por nós três.” Deu certo. Tanto que a demanda se tornou maior que a capacidade de produção. Seria preciso recorrer à mão de obra exterior.

Milena lembrou-se de uma moça que trabalhava em um projeto social com presidiários em Goiânia. Foi procurá-la. Pouco depois, ficou sabendo que havia um presídio na própria cidade. Acabou juntando as informações e iniciando o Projeto Cabocla – Bordando Cidadania. Claro que foi aconselhada a desistir da solução. Entre outros empecilhos, diziam, os presidiários eram não só perigosos, como incapazes de assumir compromissos. Milena resolveu encarar – e teve a melhor das surpresas. “Jamais passei por qualquer constrangimento nas minhas idas e vindas ao presídio para levar fios e tecidos”, diz. “Os detentos que aderiram ao projeto não só são comprometidos como bastante caprichosos nos bordados. Tudo funciona muito bem”.

projeto cabocla: detentos bordando
Detentos bordando | Foto: Divulgação

Iniciado há 13 anos, o Bordando Cidadania jamais sofreu interrupções. Milena calcula que ao menos 400 detentos e ex-detentos participaram da iniciativa. Diversos deles, já em liberdade, passaram a trabalhar com bordados ou similares, sem reincidência criminal. “Muitos só queriam um braço estendido, uma chance de se reintegrar”, diz a autora do projeto. 

É o caso de Denis Carlos Braga, 43 anos. Ele cumpria a condenação a cinco anos e três meses de detenção por tráfico de drogas, quando começou a bordar para o projeto. Foi motivado pela redução da pena. De fato, em virtude dos bordados, deixou o presídio um ano e três meses antes do prazo. Mas não é só isso.

“A cabeça fica ocupada no bordado e isso ajudou muito”, diz. “Além disso, consegui dinheiro para deixar com minha esposa e ainda para pagar as despesas dentro da cadeia, com sabonete, pasta de dentes e outras coisas do dia a dia”.

Terminado o cumprimento da pena, Braga bordou almofadas com a mulher para vender. Há dois anos conseguiu um emprego no fórum. “Faço serviços gerais. Quem me indicou foi a dona Milena”, conta. Braga considera-se reintegrado à sociedade, embora sofra na pele o preconceito contra ex-presidiários. “Muita gente continua me olhando torto”, queixa-se.

Evidentemente, um Projeto Cabocla como o Bordando Cidadania, sozinho, está longe de resolver os problemas da população carcerária e da reinserção na sociedade de ex-detentos. Mas Milena Curado se orgulha de ter inspirado outras iniciativas. “Isso só me fortalece”, suspira. Segundo ela, se outras pessoas decidirem estender uma mão e dar oportunidade a quem está vivendo à parte do convívio social, tanto melhor para o país.

Não só. Melhor também, pessoalmente, para quem toma essa iniciativa. Milena confessa: “Depois do Projeto Bordando Cidadania, mudei minha posição de estar no mundo e de ver o outro. Isso me fez um bem danado”.  
https://artesol.org.br/cabocla

Cora Coralina | Foto: Divulgação

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