Por Erik Sadao
Saí do Stedelijk Museum com a sensação de ter sido apresentado novamente a uma amiga que conheço há mais de vinte anos. Yayoi Kusama nos deixou em agosto de 2026, aos 97 anos, poucas semanas antes da abertura da última retrospectiva de sua obra.
Trata-se da última exposição montada ativamente pela artista japonesa. Esse detalhe muda toda a experiência, inclusive para quem, como eu, já visitou outras mostras dedicadas ao seu trabalho: Tate, Inhotim, Whitney, Tóquio e uma quantidade razoável de museus onde entrei sem procurar por ela e saí com mais uma abóbora na memória. Kusama é como aquela amiga que aparece em todas as festas.
Origem e transgressão
A entrada da exposição me levou imediatamente a uma reflexão. Uma flor gigante, recorrente em seus últimos anos, divide o espaço com um Narcissus Garden, a histórica instalação de 1966. A flor aponta para Matsumoto, onde Kusama cresceu entre os viveiros da família. As esferas apontam para Veneza, onde ela apareceu sem convite na Bienal e vendeu cada bola por dois dólares, oferecendo aos visitantes a chance de comprar a própria vaidade.
Origem e transgressão aparecem lado a lado, logo antes do letreiro com seu nome.
É também, desde o início, o primeiro momento Instagram da mostra — e digo isso sem ironia. Trabalhando com turismo e arte, arrisco dizer que Kusama inventou, querendo ou não, as salas perfeitas para alimentar uma tendência. Democratizou a arte contemporânea para quem nunca tinha entrado em um museu, décadas antes de existir a palavra selfie.
Se, em Veneza, ela nos convidava a levar o próprio narcisismo para casa dentro de uma bola espelhada, hoje somos nós que fabricamos o conteúdo em um retângulo de vidro e silício que cabe em uma das mãos.
A curadoria levou essa ideia a sério em outra frente. Há um percurso lúdico pensado para crianças, com um áudio-guia dedicado que transforma a obra de Kusama em uma caça ao tesouro. Kusama começou a desenhar seus pontos aos dez anos, em Matsumoto, para dar conta do que sentia. Para visitantes de todas as idades, suas aquarelas e colagens de infância alimentam a imaginação e dão força à narrativa de sua história.
A artista japonesa nunca deixou que contassem sua história por ela. Foi assim nos anos de Nova York, quando convocava a imprensa para os próprios happenings, e foi assim até o fim, com o estúdio em Tóquio acompanhando de perto cada exposição, fachada e bolsa Louis Vuitton.
Esta é a última vez que isso acontece. E Kusama montou a exposição sabendo disso.
As primeiras salas contam sua chegada aos Estados Unidos. Há pinturas figurativas do fim dos anos 1950, feitas ainda no Japão e logo depois do desembarque. Nelas, é possível ver a quantidade de arte ocidental que Kusama já havia absorvido antes mesmo das cartas trocadas com Georgia O’Keeffe, a artista da vanguarda americana a quem escreveu, quase às cegas, pedindo conselhos sobre como sobreviver em Nova York.
As cartas originais estão expostas e revelam uma vulnerabilidade difícil de imaginar para quem conhece apenas a imagem da senhora japonesa excêntrica, pintando em seu ateliê em Tóquio.
Nova York, anos 1960. A artista pinta bolinhas em corpos nus nos parques da cidade, costura protuberâncias de tecido em sofás e todo tipo de mobiliário e objeto, escreve cartas abertas a Nixon pedindo o fim da Guerra do Vietnã e distribui uma revista que convida para uma orgia cultural.
Warhol e Oldenburg se apropriaram de muitas de suas ideias. Ela ficou com a fama de louca; eles, com as capas de revista.
As redes infinitas e o nascimento do minimalismo
As Infinity Nets expostas no Stedelijk são enormes, do tamanho das obras dos expressionistas abstratos que eram populares quando Kusama desembarcou em Nova York. Apesar da referência clara, o gesto imortalizado por Kusama é outro: silencioso, repetitivo e quase tímido.
Donald Judd comprou uma de suas telas em 1959, deixando claro que a artista estava abrindo, sem alarde, a porta do minimalismo antes de a palavra se tornar popular.
Ao contrário do que vi no Whitney alguns anos atrás, esse período é apresentado aqui em diálogo com os anos de Kusama em Amsterdã. Ligada ao movimento Nul — formado por artistas tão obcecados pela repetição e pela monocromia quanto ela —, sua arte e suas performances foram aceitas, celebradas e levadas a sério na cidade décadas antes de Marc Jacobs consolidar sua onipresença também na moda.
Como amsterdamer, assumi aqui um bairrismo orgulhoso, sem nenhuma vergonha.
Contar a própria história pela última vez
Vou passar o restante do dia imaginando o que significa, para um artista, contar a própria história pela última vez. As retrospectivas costumam chegar depois, montadas por quem estuda a obra. O artista se transforma em personagem de uma narrativa que já não controla.
Assim como David Bowie, quando lançou o álbum-ópera-rock de despedida Blackstar, Kusama fez o contrário. Sala por sala, com o tempo curto e a lucidez de quem escolhe o que quer deixar na nossa memória.
Saio da exposição com a sensação de que sua obsessão encontrou ali uma finitude que ela nunca aceitou. Redes, bolinhas, falos e espelhos existem na obra de Kusama para se repetirem até que a visão desista de contar. Um memento mori — o lembrete clássico de que tudo termina — orquestrado pela artista para se confundir também com sua obsessão.
Anos atrás, em Tóquio, pedi para passar em frente ao hospital psiquiátrico onde ela vive por vontade própria desde o fim da década de 1970. O famoso estúdio fica do outro lado da rua. Não vi nada além de um prédio comum em uma rua de Shinjuku.
Ela atravessou aquela rua todos os dias durante quase cinquenta anos para pintar suas obsessões. A imagem que guardei voltou com força na última sala que visitei.
A Infinity Mirror Room exposta aqui é a última projetada pela artista em vida, criada especialmente para esta grande retrospectiva. Já entrei nesses quartos em diferentes continentes e sempre saí com a mesma boa vertigem, depois de observar meu reflexo se repetir até onde a vista alcança.
Desta vez, não foi diferente. Mas, além disso, senti que algo havia acabado.
Parecia uma despedida — e talvez fosse mesmo, do jeito que ela queria. Quando a porta se fechou atrás de mim, senti que ninguém voltará a olhar para uma abóbora amarela ou para uma bolinha preta sobre um fundo colorido da mesma maneira depois de passar por aqui.
A vida da artista acabou. Sua obsessão ficou para sempre.
E disso eu tenho certeza.
*A retrospectiva de Yayoi Kusama fica no Stedelijk Museum, em Amsterdã, até 17 de janeiro de 2027.































































































































































































