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Entre paisagens cobertas de neve, florestas silenciosas e encontros com renas, a Lapônia revela uma das experiências mais fascinantes do Ártico
Por Kity Ramos
Viajar pela Lapônia é entrar em um universo de neve, florestas, auroras boreais e tradições ancestrais. No extremo norte da Finlândia, a região convida a desacelerar, observar a natureza e viver experiências únicas sob o céu iluminado do Ártico.
A cena das renas galopando em sincronia rumo a um grande horizonte branco parece uma produção dirigida por um cineasta de Hollywood. Algumas vezes, durante essa jornada pela Lapônia, eu me via dentro da história de Doutor Jivago, romance de fotografia dramática ambientado na Rússia da Primeira Guerra Mundial; em outras, sentia-me como Elsa, personagem do filme Frozen, da Disney, em suas aventuras glaciais. Na maior parte do tempo, porém, era tomada pelo sentimento de pequenez e perplexidade diante de paisagens geladas de grandes proporções, repletas de vazio e silêncio absoluto, quebrado apenas pelas rajadas de vento e pelo trotar do rebanho.

A vida do povo Sámi, único povo indígena reconhecido pela União Europeia, acontece ali, em movimento, enquanto pastores e rebanhos atravessam, juntos, cenários moldados por estações do ano incomuns: durante o verão, o sol não se põe por semanas, enquanto o auge do inverno é iluminado apenas pela icônica aurora boreal.
Localizada acima do Círculo Polar Ártico, a Lapônia é uma região transnacional conhecida por suas paisagens congelantes e singulares. Embora o turismo frequentemente associe o local à magia da “Terra do Papai Noel”, esse território ancestral guarda uma história milenar, que não tem relação com o bom velhinho do Natal, mas ainda assim ostenta seus próprios mistérios. Entre eles, destacam-se o sol da meia-noite e a ilusão de óptica criada pela falta de contraste na neve infinita.
Entre visuais hipnotizantes, experimentei a intensidade de um lugar onde a imensidão branca ofusca e cria distorções visuais: tudo parece mais próximo do que realmente está por causa da falta de contraste. Ao começar a caminhar, as distâncias se alongam, revelando declives inesperados, enquanto os passos afundam na neve fofa. É assim que, há séculos, o povo Sámi atravessa tundras, rios congelados e florestas boreais nas regiões árticas com seus rebanhos, mesmo em meio a tempestades.
Mas quem são os Sámi, afinal?
Os Sámi constituem um povo indígena cujo território tradicional, Sápmi, estende-se pelo norte da Noruega, da Suécia e da Finlândia, alcançando também a Península de Kola, na Rússia.
Com crenças espirituais próprias, técnicas de sobrevivência no gelo e ofícios tradicionais, como o pastoreio e a pesca em rios glaciais, os Sámi viveram por milênios relativamente à margem da influência da sociedade ocidental, em função das condições extremas da região. Realizavam rituais com tambores sagrados, pescavam salmões e trutas e mudavam constantemente de localização com suas renas para fugir das intempéries do clima. No inverno rigoroso, os termômetros despencam para -30 °C, enquanto o curto período de calor mantém médias bem mais toleráveis, em torno de 10 °C.

Os tempos, porém, são outros. Nos últimos dois séculos, integrantes do povo foram convertidos por missionários noruegueses ao protestantismo e proibidos de praticar o xamanismo e até de falar sua língua nativa. Passaram também a viver de forma mais estável em cidades ou vilas de montanha, em casas de madeira.
Ainda assim, muitos preservam um modo de vida profundamente ligado à natureza hostil do Ártico, alternando períodos do ano entre suas residências e as travessias pelos campos de gelo. A noção de passagem do tempo, no caso deles, não está ligada apenas aos ciclos solares, mas também a algo muito mais importante: o movimento das renas rumo aos pastos de verão, onde a vegetação resiste. São elas que ditam o ritmo da vida.

Os pastores Sámi, inclusive, autodenominam-se boazovázzi, termo que pode ser traduzido como “aquele que caminha com as renas”. Antigamente, acompanhavam esses animais ágeis a pé ou sobre esquis de madeira, enquanto buscavam as melhores pastagens por centenas de quilômetros. Hoje, porém, os Sámi recebem áreas específicas de pasto em períodos determinados do ano e utilizam motos de neve, as chamadas snowmobiles, para viajar com grandes rebanhos até essas propriedades coletivas.
Uma expedição genuína
A proposta das expedições Sámi pelo planalto de Finnmark, no extremo norte da Noruega, é acompanhar essa aventura bastante rústica e mergulhar na vida cotidiana dos povos nativos, cuja resiliência impressiona.
Não há um itinerário definido durante a migração, pois tudo acontece no ritmo da natureza. Essa jornada extraordinária é guiada pelos instintos das renas, que, durante a primavera, realizam sua migração anual das pastagens de inverno, no interior, para as áreas de verão, na costa do Oceano Ártico.

São esses animais que indicam o caminho, enquanto os pastores seguem seus movimentos, guiados unicamente pelo ritmo do rebanho. O percurso e a velocidade da viagem nunca são predeterminados: são definidos exclusivamente pelas necessidades das renas. É um ritmo vivo, que se estabelece dia após dia. Às vezes, elas permanecem paradas por um ou dois dias; em outras ocasiões, seguem caminhando continuamente.
Dormindo em uma lavvu
As noites são passadas ao redor de uma fogueira, sob o céu do Ártico, cercadas pela impressionante imensidão branca da tundra coberta de neve. Esses momentos eram ainda mais especiais pela companhia de nossos anfitriões Sámi, que preparavam chá e carne de rena para o jantar improvisado, em meio a muitas histórias intrigantes sobre o extremo norte do mundo. É uma verdadeira experiência de vida desacelerada em plena natureza.
Na hora do descanso, dormíamos em uma tradicional lavvu, tenda Sámi. Essa moradia coletiva é feita com diferentes camadas de pele de rena, para que seja possível suportar os ventos implacáveis, mas o chão é coberto apenas com gravetos da tundra.

A convivência próxima com essas famílias, nesse ambiente, impressiona pela hospitalidade calorosa, mesmo em meio aos poucos recursos de um “deserto” de neve. A cumplicidade desse povo com seus rebanhos também é emocionante de observar. Os animais são fonte de alimento, abrigo temporário e vestuário, além de fornecerem chifres usados na produção de ferramentas. Para além do interesse por sua funcionalidade e versatilidade, há um afeto espontâneo que transparece na rotina e na relação com eles. Os Sámi cuidam das renas, e as renas cuidam dos Sámi.
Apesar das transformações dos últimos tempos, existe um forte movimento de retomada cultural na região, e a estética é um fator importante nesse contexto. As vestimentas tradicionais do povo Sámi, chamadas gákti, são muito valorizadas, especialmente pelos mais velhos, que não escondem o orgulho de suas raízes. Feitas de lã ou feltro azul-escuro e decoradas com faixas brilhantes em vermelho, amarelo e verde, são muito mais do que roupas protetoras para o frio extremo. São símbolos de identidade, status e origem geográfica. O design desses trajes revela a história de quem os usa. Detalhes como o formato das golas, os padrões de trançado e os broches indicam a região exata da Lapônia de onde a pessoa vem, além de seu estado civil e de sua filiação familiar. Botões e grandes adornos circulares de prata são comuns no peito, servindo como proteção espiritual.
Além da valorização das vestimentas, existe uma articulação política pela reconstrução da identidade que começou a ganhar força entre as décadas de 1970 e 1980. Impulsionado por protestos contra a exploração comercial de seus territórios, o povo Sámi conquistou direitos fundamentais, como a criação de parlamentos próprios na Noruega, na Suécia e na Finlândia. Essa conquista abriu caminho para a retomada de suas línguas nativas, que haviam sido proibidas nas escolas, e para o resgate de expressões antes censuradas, como o yoik, canto sagrado de conexão com a natureza.
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Seguindo o ritmo das renas
As renas são animais semidomesticados. Vivem em estreita relação com as pessoas, mas continuam seguindo seus próprios instintos, mantendo seu ritmo natural e atendendo às necessidades do rebanho.
A migração corresponde ao deslocamento sazonal das renas em direção às pastagens de verão, após o longo inverno. À medida que a primavera se aproxima, seu comportamento muda. Tornam-se mais inquietas, começam a se deslocar espontaneamente e iniciam a caminhada em direção às áreas onde as condições são mais favoráveis.

Segundo Nils, pastor Sámi de Finnmark que nos conduziu nessa experiência, a primavera já não se comporta como antigamente. As mudanças climáticas tornaram as condições muito menos previsíveis. Pequenas alterações meteorológicas podem modificar significativamente a qualidade da neve, o acesso às áreas de pastagem e o ritmo do rebanho.
Para quem visita a região, compreender isso transforma completamente a experiência: deixa-se de procurar uma data perfeita e passa-se a valorizar o privilégio de testemunhar uma migração real, em condições reais, com flexibilidade e respeito.
Muitos rebanhos atravessam o vasto planalto e seguem rumo à costa, conforme a primavera avança e a vegetação reaparece.














































































































































































