Por Shannon Dubay
Adaptação e tradução: Paulo Ribeiro Florencio
Cobrindo boa parte da África Austral, principalmente entre a Namíbia, Botsuana e a África do Sul, o Kalahari não é o tipo de paisagem que se anuncia com grande alarde. Não há montanhas imponentes, litorais dramáticos ou grandes cidades para sinalizar que se chegou a um lugar extraordinário. Em vez disso, a terra se estende aos poucos ao redor: areia clara e avermelhada, leitos secos de rios, capins esparsos e árvores espinhosas, tudo seguindo em direção a um horizonte que parece muito mais distante do que antes.
Depois de passar um tempo no Kalahari, tanto no lado sul-africano quanto no botsuanês da região do Kgalagadi, fiquei cada vez mais fascinado pela personalidade de uma paisagem que, à primeira vista, parece incapaz de sustentar muita vida. É seca, vasta e aparentemente inóspita. Na verdade, “Kalahari” vem do termo tswana Kgalagadi, que significa “a terra que secou” ou “um lugar sem água”. Kgala significa especificamente “grande sede”. Mas, quanto mais tempo se passa ali, mais se percebe que o Kalahari está muito vivo — apenas à espera de ser descoberto.
Dunas e paisagens em constante mudança
Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foram as dunas. Da estrada, pareciam apenas colinas suavemente onduladas, sobretudo onde a vegetação cobre suas encostas. Só depois de avançar pela região percebi a verdadeira dimensão delas. Não são pequenas elevações, mas enormes dunas suavizadas por capins e arbustos, que sobem e descem pelo horizonte em linhas longas e elegantes.
Eu me sentia como um surfista, fazendo curvas com meu Toyota Land Cruiser pelas ondas de areia à frente. A paisagem me lembrava as grandes dunas da Namíbia, mas também me fazia agradecer pela vegetação e pela vida selvagem que pontuam a areia do Kalahari. O cenário muda sem parar: grandes extensões arenosas salpicadas de arbustos dão lugar a dunas cobertas de capim, leitos sinuosos de rios secos e, por fim, vastos bebedouros secos. O resultado é um deserto surpreendentemente rico em texturas.
A vida selvagem do Kalahari
A fauna dá vida aos diferentes habitats do deserto. A vegetação esparsa facilita a observação dos animais, enquanto os poucos pontos de água funcionam como locais previsíveis de concentração da vida selvagem. Tivemos avistamentos impressionantes de leões junto aos bebedouros, e as jubas negras, características dos leões da região, chamaram especialmente nossa atenção.
Guepardos aproveitam os espaços abertos e cobertos de capim para caçar springboks, enquanto suricatos observam atentos. Um dos meus encontros favoritos foi com um grande leopardo macho, que atravessou a estrada bem à nossa frente — alheio, ou talvez indiferente, à plateia. Aves de rapina pousavam no alto das árvores, à espera da próxima refeição. E os icônicos órix, conhecidos localmente como gemsbok, destacavam-se na paisagem com suas marcantes manchas pretas e brancas, outro lembrete das condições áridas da região.
A espera também faz parte do safári
A água — ou, melhor, sua ausência — dita o ritmo do Kalahari. Nas áreas mais secas de Botsuana, percebemos que muitos animais se concentravam perto das poucas fontes ainda disponíveis. Isso criou uma experiência de safári muito diferente daquela a que eu estava acostumado no lado sul-africano. Em vez de passar o dia inteiro dirigindo de um lugar a outro, começamos a apreciar a ideia de escolher um ponto d’água, acomodar-nos e simplesmente esperar.
Há algo especialmente apropriado em sentar-se em silêncio junto a um bebedouro no Kalahari e deixar que a vida do deserto venha até você. A paisagem pode parecer imóvel por longos períodos, até que algo se move: antílopes pastando perto de uma lagoa distante, um chacal cruzando a estrada, aves chegando para beber ou um predador surgindo entre a vegetação.

As noites podem ser espetaculares, com a Via Láctea espalhada pelo céu, sem interferências. Mas a sensação de espaço ao redor também ficou comigo. Em muitas noites, o rugido dos leões ecoava na escuridão em torno do nosso acampamento — às vezes, noite adentro e até pela manhã — e viajava com facilidade pela paisagem aberta.
Depois de passar o dia dentro do carro, observando o cenário, sair à noite torna você muito mais consciente de tudo o que acontece além do que os olhos conseguem enxergar.
Um deserto que recompensa a paciência
O Kalahari não revela tudo de uma vez: mantém o viajante na expectativa. Tivemos trajetos tranquilos, com pouquíssimos animais à vista, seguidos por encontros inesperados com uma alcateia de leões descansando perto de um ponto d’água ou com um leopardo passando em silêncio pelo leito seco de um rio.
É importante lembrar que o Kalahari não é um lugar para esperar ação constante. Essa expectativa pode ser uma das maneiras mais fáceis de não compreender a região. Em alguns trechos, vimos muito pouco. Os antílopes podiam ser surpreendentemente ariscos, os bebedouros ficavam vazios e longas estradas se estendiam sem que encontrássemos outro veículo.
Quanto mais avançávamos pelas áreas remotas do Kalahari, em Botsuana, mais forte ficava essa sensação. As estradas arenosas ondulavam sobre as dunas, com trechos de areia profunda e solta e longas sequências de corrugações. No começo, houve momentos em que prendemos a respiração, sem saber se o veículo venceria o próximo trecho. Depois, a experiência ganhou um prazer estranho: o carro deslizando sobre areias antigas, as dunas em todas as direções e nenhum sinal de civilização — apenas natureza bruta e intocada.

Esse é o aspecto do Kalahari que considero mais fascinante. Não é uma natureza selvagem perfeitamente organizada, exuberante e opulenta. É um lugar remoto, exposto e, às vezes, um pouco intimidador. É justamente essa leve apreensão que faz a experiência parecer verdadeiramente selvagem.
Para quem procura estradas confortáveis e avistamentos constantes, há outros destinos. O Kalahari recompensa um tipo diferente de viajante: quem aprecia espaço, silêncio, autonomia e a possibilidade de passar horas sem que nada muito importante aconteça — até surgir algo extraordinário.
O deserto se torna ainda mais impressionante quando você se permite passar algum tempo nele. Observe um ponto d’água. Siga as curvas de um leito seco de rio. Pare no alto de uma duna. Escute os leões rugirem depois do anoitecer. Observe as pegadas na areia e lembre-se de que você vê apenas uma pequena parte de tudo o que se move por aquela paisagem.
É isso que torna o Kalahari tão generoso e inesquecível: ele pode parecer vazio, mas basta passar algum tempo ali para perceber o quanto está cheio de vida.


























































































































































































