
A Enxada e a Lança: a África Antes dos Portugueses, de Alberto da Costa e Silva (Nova Fronteira)
Antes da chegada dos europeus, a África já era um continente de impérios, filosofias e invenções. Alberto da Costa e Silva resgata essa grandeza com a elegância de um historiador que escreve como poeta. Seu livro desmonta o mito do continente “sem história”, revelando reinos organizados, rotas comerciais que cruzavam desertos e sistemas de poder sustentados por símbolos, e não apenas pela força. A enxada e a lança — metáforas do trabalho e da guerra — formam o eixo de um mundo autônomo e sofisticado, que pensava a vida e a morte à sua maneira. Costa e Silva combina erudição e humanidade: descreve as genealogias dos soberanos e os mitos de criação com igual respeito. O resultado é uma narrativa que devolve à África sua espessura civilizatória e convida o leitor brasileiro a reconfigurar o olhar — a reconhecer, no espelho africano, a parte esquecida de si mesmo.
Ébano: Minha Vida na África, de Ryszard Kapuściński (Companhia das Letras)
Kapuściński percorre a África não como um repórter de passagem, mas como alguém que se deixa atravessar por ela. Em Ébano, o jornalista polonês mistura memória, ensaio e crônica de guerra num retrato íntimo de um continente em convulsão. Suas páginas são impregnadas de poeira, febre e humanidade: o autor dorme em aldeias sem luz, presencia golpes, conversa com príncipes e mendigos. Mas o que o move não é o exotismo — é o espanto diante da dignidade que persiste em meio à ruína. Kapuściński observa, escuta, tenta compreender a África como um espelho moral da Europa. Sua prosa, tensa e lírica, transforma a reportagem em literatura de testemunho. Ébano é uma viagem ao coração do outro e também uma confissão: a de que o olhar ocidental, quando não é humilde, é cego. Entre o realismo e a revelação, o livro revela mais sobre o humano do que sobre o continente.


O Mundo Falava Árabe, de Beatriz Bissio (Civilização Brasileira)
Beatriz Bissio recupera, nesse livro admirável, um tempo em que a língua árabe unia mundos: de Córdoba a Bagdá, de Damasco ao Cairo. O Mundo Falava Árabe é uma viagem pela civilização islâmica medieval — época em que ciência, filosofia e poesia floresciam sob o mesmo teto. A autora escreve com clareza jornalística e sensibilidade de cronista: mostra como o legado árabe formou a base do pensamento europeu e como o brilho da Andaluzia iluminou séculos de intercâmbio cultural. Bissio desmonta estereótipos e devolve ao Islã o papel de ponte entre saberes. Sua narrativa é refinada sem ser hermética, lírica sem perder o rigor. Ao final, o leitor percebe que esse mundo perdido — o da curiosidade, da convivência, da tradução — ainda murmura sob as ruínas do presente. É um livro sobre o passado, mas também sobre o que esquecemos ser.
Toraja: Misadventures of an Anthropologist in Sulawesi, Indonesia, de Nigel Barley (Monsoon Books)
Nigel Barley ri de si mesmo para compreender os outros. Em Toraja, ele troca a floresta africana de seus livros anteriores pelas montanhas de Sulawesi, na Indonésia, onde acompanha rituais funerários que transformam a morte em um espetáculo social. O humor — às vezes britânico, às vezes quase místico — nunca é sarcasmo, mas um modo de suportar o espanto. Barley narra seus tropeços de antropólogo urbano entre búfalos sacrificados, corpos embalsamados e crenças que desafiam a lógica ocidental. Ao descrever as festas dos Toraja, revela o contraste entre o olhar científico e a beleza irracional da vida ritual. O livro combina leveza e profundidade. Faz rir, mas deixa em suspensão uma pergunta essencial: o que é, afinal, a civilização? Entre equívocos e epifanias, Toraja é a confissão de um estrangeiro que descobre que o verdadeiro campo de estudo é o próprio olhar.


Tupari: entre os Índios, nas Florestas Brasileiras, de Franz Caspar (Edições Melhoramentos)
Publicado em 1953, o livro de Franz Caspar é um dos grandes documentos etnográficos do século XX sobre os povos indígenas da Amazônia. O autor, médico e missionário suíço, viveu entre os Tupari, em Rondônia, e descreveu com espanto e empatia um mundo ainda intacto. Tupari é uma crônica de encontros — entre culturas, entre tempos, entre concepções de vida. Caspar escreve com um misto de ingenuidade e reverência: suas observações sobre rituais, mitos e medicina tradicional revelam um olhar mais curioso do que julgador. Há momentos de lirismo quase involuntário, como quando relata o brilho das fogueiras refletido na pele pintada dos guerreiros. A floresta, para ele, não é cenário, mas personagem. E o leitor, ao acompanhá-lo, sente o peso de uma descoberta que é também perda: o pressentimento de que aquele mundo logo seria engolido por nossa ideia de progresso.
Mitos para Viver, de Joseph Campbell (Palas Athena)
Joseph Campbell reúne neste livro o fio invisível que conecta os mitos de todos os povos. Mitos para Viver é uma cartografia da alma humana: das epopeias gregas aos contos Navajo, das parábolas cristãs às lendas do Oriente. Com linguagem clara e erudita, Campbell mostra que os mitos não são relíquias do passado, mas mapas simbólicos para atravessar as crises da vida moderna. O herói, o sacrifício, o renascimento — tudo retorna, sob novas máscaras. Seu ensaio é simultaneamente antropologia, filosofia e poesia. Ao lê-lo, o leitor entende que os deuses nunca morreram. Apenas mudaram de endereço. Mitos para Viver convida à reconciliação entre a razão e o mistério, lembrando-nos de que, sem narrativa, a existência perde sentido.


Como Dançar com os Mortos, de Kaíke Nanne (Maquinaria Editorial)
Peço licença para indicar meu livro, lançado em outubro de 2025. Em Como Dançar com os Mortos — Uma Jornada por Cinco Continentes em Busca da Sabedoria Ancestral, reuni boa parte das pesquisas realizadas nesses últimos 30 anos, iniciadas bem antes de o termo “povos originários” entrar para o léxico cotidiano. O livro é resultado do esforço para entender minimamente culturas milenares que têm desafiado a lógica da globalização e preservado ritos, crenças, costumes e tradições ancorados em um conjunto de significados muitas vezes ignorados ou considerados primitivos pelos ocidentais. Do Ártico ao Saara, da Amazônia aos Himalaias, da Nova Guiné a Madagascar, visitei cada uma das comunidades tradicionais retratadas, estive com todos os grupos étnicos mencionados. Há diferentes formas de ingressar no livro. Pode-se tomá-lo como um exercício intelectual, uma espécie de mapa simbólico de culturas pouco conhecidas. Pode-se lê-lo como um inventário narrativo de modos de vida que ainda resistem à homogeneização. Pode-se ainda encará-lo como uma jornada de autoconhecimento, um espelho torto, que nos obriga a rever nossos conceitos sobre a morte, a sacralidade e o que é, afinal, uma vida venturosa.
Matéria publicada na edição 22 da revista







































































































































































