Clarice Lispector e a lupa da alma

A obra de uma das mais celebradas autoras do século XX propõe viagens que permeiam o imaginário, o inconsciente e as mais profundas questões humanas

“No íntimo, somos poetas, e só com o último homem morrerá o último poeta.” É discutindo essa ideia que Freud abre seu texto sobre o mistério da criação literária, chamado justamente Escritores Criativos e Devaneios. De quais fontes brota nosso imaginário e vão surgindo as histórias que nos seduzem, nos deixam indignados ou nos fazem chorar? Freud: do inconsciente. Das fantasias e dos impulsos inconscientes que, desde o início, vão nos ajudando a atravessar a vida.

Fazemos isso todos os dias. De noite, nos sonhos, e de dia, nas fantasias. E assim surgem um romance, um filme, um diário, um negócio, um amor. Você poderia se perguntar, por exemplo: o que foi gestado em mim essa noite? O que eu criei hoje?

A literatura de Clarice Lispector mergulha profundamente nessas questões. Ao mesmo tempo que desenha cenas da experiência vivida, interroga o tempo todo o que é escrever, como se estivesse simultaneamente no palco e no backstage, fazendo o making off do espetáculo. 

Esse é um traço fundamental da sua escrita, presente desde seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que ela escreveu aos 20 e poucos anos. Ela toma como epígrafe uma frase de James Joyce em O Retrato do Artista Quando Jovem: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”. O livro é uma espécie de romance de formação: abre com a menina Joana envolta no tac-tac-tac da máquina do papai, o tim-dlém do relógio, o zzzzzz do silêncio e segue com os embates do amor e da liberdade na vida adulta. Por fim, compreendemos que, desde sempre, Joana persegue o coração selvagem da vida através das letras e que o livro conta justamente seu processo de vir a ser escritora.

Trinta anos mais tarde, em Água Viva, um dos seus romances mais radicais, Clarice ainda persegue o it, o ser radical por trás daquilo que nos é apresentado: “Cada coisa tem um instante em que ela é”. Como pegar esse pulo do gato? Nossa escritora segue na mesma luta para não perder o pulso da vida, aquilo que corre mais na entrelinha que na linha. Para além das palavras através das quais somos obrigados a nos comunicar e nos amarrar. “O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” Água Viva tem somente um fiapo de narrativa, a ânsia de uma pintora que conta sua busca no espaço do indizível e da forma poética: “A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito, mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas ‒ escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio”. Aliás, não à toa eu fiz um doutorado sobre a obra de Clarice e nomeei o livro No Limiar do Silêncio e da Letra.

Em seu último romance publicado em vida, A Hora da Estrela, temos a história da datilógrafa (sempre) e nordestina Macabéa, que tenta sobreviver no Rio de Janeiro. Tal qual o povo macabeu, ela busca para si um lugar mais respirável. Um lugar que aplaque a dor, que ela deveras sente. A autora segue com a pergunta sobre o fazer literário e a sofística aqui, trazendo para dentro da obra os planos da personagem, do narrador e do autor de forma explícita. Temos a história da personagem Macabéa, e que “só pode ser contada por um narrador homem”, Rodrigo S. M., inventado pela autora, “na verdade Clarice Lispector”. Lembremos que Clarice nasceu numa cidade que hoje está na Ucrânia e a família veio pro Brasil fugindo das perseguições aos judeus. Ela viveu a infância no Recife, vindo aos 14 anos pro Rio. Olha quantas camadas “identificatórias” estão em jogo na saga da nossa datilógrafa nordestina Clarice-Macabéa.

Complexidade narrativo-literária que não aparece no premiado filme de Suzana Amaral sobre a obra. A diretora se foca na relação de Macabéa, na icônica corporificação de Marcélia Cartaxo, com seu namorado Olímpico de Jesus, interpretado por José Dumont. Aliás, um pequeno parêntese aqui sobre as diferenças das linguagens artísticas. Perguntei pra Suzana, em uma das várias mesas em que debatemos o filme (éramos professoras no curso de cinema da Faap), por que ela tinha tirado ou não tinha colocado nada dessa parte tão essencial da trama, que discute o que é literatura. Ela foi muito simples e sábia: porque isso não funciona no cinema. Foi uma aula de zen e da busca do essencial, tão caro ao budismo de Suzana. E talvez uma busca tão clariceana.

A Hora da Estrela é um romance de linguagem aparentemente simples e curto, mas de alta densidade. O livro abre com nada menos que 13 títulos para a obra, através dos quais a autora explicita a angústia sobre o papel do escritor no mundo: “A culpa é minha, A hora da estrela, Ela que se arranje, O direito ao grito, Quanto ao futuro, Lamento de um blue, Ela não sabe gritar, Uma sensação de perda, Assovio no vento escuro, Eu não posso fazer nada, Registro dos fatos antecedentes, História lacrimogênica de cordel, Saída discreta pela porta dos fundos”.

Cena do filme A Hora da Estrela e pôster do mesmo longa

Outro romance incontornável para levar na mala é A Paixão Segundo G.H. A sinopse é uma das mais conhecidas da literatura brasileira: G.H. “come a barata” que encontrou no quarto da empregada de sua casa. Atrás desse plot, temos o desabrochar da consciência de uma mulher que, na maturidade, busca o autoconhecimento e tem a coragem de explorar seus desejos, seus impasses e, sempre, seu lugar no mundo.

Para fechar esse breve passeio pela obra clariceana, não poderíamos deixar de escutar a complexidade e, sobretudo, a ambivalência das relações humanas que Clarice retrata em seus contos. Tanto Laços de Família quanto Felicidade Clandestina nos trazem textos magistrais, que retratam as agruras do amor, da amizade e da família. “Amor”, “Feliz aniversário”, “A imitação da rosa”, “Perdoando Deus”, “O búfalo”, “O ovo e a galinha” são algumas dessas preciosidades.

Não poderíamos deixar de fora o corpo e seus mistérios, também tema dessa obra tão vasta. O erótico, o ciúme, a solidão e a carne estão nos contos de A Via-crúcis do Corpo. Se Clarice buscava o intangível, além da palavra, também não recuava diante da crueza da matéria e do que pulsa mais visceralmente em nós.

Como escrevi em Lupa da Alma, a psicanálise é uma lente mágica, por onde descobrimos os mistérios da alma. A literatura e toda arte criativa também. 

Boa viagem pela infinita tessitura das letras.

Matéria publicada na edição 21 da revista

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