Escrevo este texto com o coração acelerado. Não para descrever um destino, mas para contar a história de um ano (bom, quase dois) que se tornou o melhor das nossas vidas e nos transformou.
Tivemos a oportunidade única de nos afastar do trabalho e da rotina ‒ e de escolher o que fazer com o nosso tempo. E assim fizemos. Adivinha? NÓS VIAJAMOS. Mas foi uma viagem diferente, com o luxo absoluto do tempo: por mais de um ano, quase sempre sem a passagem de volta, saboreando cada lugar, aprendendo a viver em cada destino antes de seguir adiante. Uma experiência distinta de viajar de férias.
Abrimos mão da nossa casa no sul da Alemanha, guardamos tudo em um depósito e levamos só o essencial nas malas, com nossas filhas gêmeas, de menos de 3 anos, a tiracolo. Cuidamos delas 24 horas por dia, sem ajuda, sem creche, na idade exata em que o que mais desejam é a nossa presença. Sabíamos, mesmo nos dias difíceis, que aqueles momentos não voltariam.
Em todo esse tempo, nunca as deixamos se perder nas telas. Somos antiquados nesse ponto: brincávamos e as deixávamos brincar sozinhas, se entediar. E, sem nenhuma tela, o mundo teve que preencher o vazio ‒ e preencheu. Foi aí que entendi o que essas viagens estavam, de verdade, lhes ensinando.
Fizeram amizades em línguas que não falavam. No comecinho, por gestos e depois com a naturalidade que só as crianças têm. Provaram sabores para os quais não tinham palavras. Viveram semanas em um barco à vela. Aprenderam a nadar no oceano e surfaram conosco pela primeira vez. Caminharam entre templos e pinturas rupestres de milhares de anos. Viram guanacos pela janela do carro e baleias-jubarte subindo à tona ao lado dos filhotes, perto o bastante para ouvi-las respirar. Presenciaram leoas caçando na savana africana. E, em uma final da World Surf League, em Teahupo’o, Taiti, assistiram de um barco os melhores surfistas do mundo encararem uma das ondas mais perigosas do planeta.
Aprenderam a esperar, a se adaptar, a se sentir em casa a cada novo lugar. Não sei nomear tudo o que absorveram, mas sei que as crianças que fazem amigos sem um idioma em comum, que dormem em mais camas do que consigo contar e que trocam a tela pelo mundo lá fora aprendem coisas que nenhuma sala de aula ensina.
Começamos perto de casa, entre a Sardenha e as Dolomitas. Quando seguimos rumo a Portugal, já não havia casa para onde voltar, e o mundo se abriu, capítulo a capítulo: a ilha selvagem de Príncipe, o kitesurfe no Nordeste brasileiro, quase toda a América do Sul, meses na Polinésia Francesa. E, quando pensamos estar perto do fim, cruzamos 2 mil quilômetros da Namíbia de carro, as meninas já com 4 anos, e metade acampando no teto do 4×4, sob um céu estrelado.
Em um piscar de olhos, o sabático terminou. Pousamos em Deià, um vilarejo encantador nas montanhas à beira-mar de Maiorca, na Espanha. Acostumadas a ver e viver o mundo, as meninas se adaptaram à escola local com naturalidade, mesmo sem falar (ainda) o idioma. Não existiu nenhuma barreira ‒ nem cultural nem de língua. Nossos pertences seguem em um depósito, e está tudo bem. Nesses quase dois anos, aprendemos que o nosso lar não é um lugar fixo, mas sim estarmos juntos aonde o vento nos levar.
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Matéria publicada na edição 24 da revista























































































































































































