Ancestralidade e Povos Originários

Autor de 'Como Dançar com os Mortos', da Maquinaria Editorial, jornalista viaja há 30 anos para conhecer comunidades tradicionais e apresenta sugestões de leituras inspiradoras

Alberto da Costa e Silva

A Enxada e a Lança: a África Antes dos Portugueses, de Alberto da Costa e Silva (Nova Fronteira)

Antes da chegada dos europeus, a África já era um continente de impérios, filosofias e invenções. Alberto da Costa e Silva resgata essa grandeza com a elegância de um historiador que escreve como poeta. Seu livro desmonta o mito do continente “sem história”, revelando reinos organizados, rotas comerciais que cruzavam desertos e sistemas de poder sustentados por símbolos, e não apenas pela força. A enxada e a lança — metáforas do trabalho e da guerra — formam o eixo de um mundo autônomo e sofisticado, que pensava a vida e a morte à sua maneira. Costa e Silva combina erudição e humanidade: descreve as genealogias dos soberanos e os mitos de criação com igual respeito. O resultado é uma narrativa que devolve à África sua espessura civilizatória e convida o leitor brasileiro a reconfigurar o olhar — a reconhecer, no espelho africano, a parte esquecida de si mesmo.

Ébano: Minha Vida na África, de Ryszard Kapuściński (Companhia das Letras)

Kapuściński percorre a África não como um repórter de passagem, mas como alguém que se deixa atravessar por ela. Em Ébano, o jornalista polonês mistura memória, ensaio e crônica de guerra num retrato íntimo de um continente em convulsão. Suas páginas são impregnadas de poeira, febre e humanidade: o autor dorme em aldeias sem luz, presencia golpes, conversa com príncipes e mendigos. Mas o que o move não é o exotismo — é o espanto diante da dignidade que persiste em meio à ruína. Kapuściński observa, escuta, tenta compreender a África como um espelho moral da Europa. Sua prosa, tensa e lírica, transforma a reportagem em literatura de testemunho. Ébano é uma viagem ao coração do outro e também uma confissão: a de que o olhar ocidental, quando não é humilde, é cego. Entre o realismo e a revelação, o livro revela mais sobre o humano do que sobre o continente.

Ryszard Kapuściński
Beatriz Bissio

O Mundo Falava Árabe, de Beatriz Bissio (Civilização Brasileira)

Beatriz Bissio recupera, nesse livro admirável, um tempo em que a língua árabe unia mundos: de Córdoba a Bagdá, de Damasco ao Cairo. O Mundo Falava Árabe é uma viagem pela civilização islâmica medieval — época em que ciência, filosofia e poesia floresciam sob o mesmo teto. A autora escreve com clareza jornalística e sensibilidade de cronista: mostra como o legado árabe formou a base do pensamento europeu e como o brilho da Andaluzia iluminou séculos de intercâmbio cultural. Bissio desmonta estereótipos e devolve ao Islã o papel de ponte entre saberes. Sua narrativa é refinada sem ser hermética, lírica sem perder o rigor. Ao final, o leitor percebe que esse mundo perdido — o da curiosidade, da convivência, da tradução — ainda murmura sob as ruínas do presente. É um livro sobre o passado, mas também sobre o que esquecemos ser.

Toraja: Misadventures of an Anthropologist in Sulawesi, Indonesia, de Nigel Barley (Monsoon Books)

Nigel Barley ri de si mesmo para compreender os outros. Em Toraja, ele troca a floresta africana de seus livros anteriores pelas montanhas de Sulawesi, na Indonésia, onde acompanha rituais funerários que transformam a morte em um espetáculo social. O humor — às vezes britânico, às vezes quase místico — nunca é sarcasmo, mas um modo de suportar o espanto. Barley narra seus tropeços de antropólogo urbano entre búfalos sacrificados, corpos embalsamados e crenças que desafiam a lógica ocidental. Ao descrever as festas dos Toraja, revela o contraste entre o olhar científico e a beleza irracional da vida ritual. O livro combina leveza e profundidade. Faz rir, mas deixa em suspensão uma pergunta essencial: o que é, afinal, a civilização? Entre equívocos e epifanias, Toraja é a confissão de um estrangeiro que descobre que o verdadeiro campo de estudo é o próprio olhar.

Nigel Barley
Franz Caspar

Tupari: entre os Índios, nas Florestas Brasileiras, de Franz Caspar (Edições Melhoramentos)

Publicado em 1953, o livro de Franz Caspar é um dos grandes documentos etnográficos do século XX sobre os povos indígenas da Amazônia. O autor, médico e missionário suíço, viveu entre os Tupari, em Rondônia, e descreveu com espanto e empatia um mundo ainda intacto. Tupari é uma crônica de encontros — entre culturas, entre tempos, entre concepções de vida. Caspar escreve com um misto de ingenuidade e reverência: suas observações sobre rituais, mitos e medicina tradicional revelam um olhar mais curioso do que julgador. Há momentos de lirismo quase involuntário, como quando relata o brilho das fogueiras refletido na pele pintada dos guerreiros. A floresta, para ele, não é cenário, mas personagem. E o leitor, ao acompanhá-lo, sente o peso de uma descoberta que é também perda: o pressentimento de que aquele mundo logo seria engolido por nossa ideia de progresso.

Mitos para Viver, de Joseph Campbell (Palas Athena)

Joseph Campbell reúne neste livro o fio invisível que conecta os mitos de todos os povos. Mitos para Viver é uma cartografia da alma humana: das epopeias gregas aos contos Navajo, das parábolas cristãs às lendas do Oriente. Com linguagem clara e erudita, Campbell mostra que os mitos não são relíquias do passado, mas mapas simbólicos para atravessar as crises da vida moderna. O herói, o sacrifício, o renascimento — tudo retorna, sob novas máscaras. Seu ensaio é simultaneamente antropologia, filosofia e poesia. Ao lê-lo, o leitor entende que os deuses nunca morreram. Apenas mudaram de endereço. Mitos para Viver convida à reconciliação entre a razão e o mistério, lembrando-nos de que, sem narrativa, a existência perde sentido.

Joseph Campbell
Kaíke Nanne

Como Dançar com os Mortos, de Kaíke Nanne (Maquinaria Editorial)

Peço licença para indicar meu livro, lançado em outubro de 2025. Em Como Dançar com os Mortos — Uma Jornada por Cinco Continentes em Busca da Sabedoria Ancestral, reuni boa parte das pesquisas realizadas nesses últimos 30 anos, iniciadas bem antes de o termo “povos originários” entrar para o léxico cotidiano. O livro é resultado do esforço para entender minimamente culturas milenares que têm desafiado a lógica da globalização e preservado ritos, crenças, costumes e tradições ancorados em um conjunto de significados muitas vezes ignorados ou considerados primitivos pelos ocidentais. Do Ártico ao Saara, da Amazônia aos Himalaias, da Nova Guiné a Madagascar, visitei cada uma das comunidades tradicionais retratadas, estive com todos os grupos étnicos mencionados. Há diferentes formas de ingressar no livro. Pode-se tomá-lo como um exercício intelectual, uma espécie de mapa simbólico de culturas pouco conhecidas. Pode-se lê-lo como um inventário narrativo de modos de vida que ainda resistem à homogeneização. Pode-se ainda encará-lo como uma jornada de autoconhecimento, um espelho torto, que nos obriga a rever nossos conceitos sobre a morte, a sacralidade e o que é, afinal, uma vida venturosa.

Matéria publicada na edição 22 da revista

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